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Terramérica - Águas do sul para matar a sede do norte

O Fuy, na Região de Los Ríos, 750 quilômetros ao sul de Santiago, é um dos rios do sul dos quais se poderia extrair água para o seco norte mineiro. Foto: Marianella Jarroud/IPS
O Fuy, na Região de Los Ríos, 750 quilômetros ao sul de Santiago, é um dos rios do sul dos quais se poderia extrair água para o seco norte mineiro. Foto: Marianella Jarroud/IPS

Santiago, Chile, 5 de maio de 2014 (Terramérica).- Três iniciativas privadas propõem levar água dos rios do sul do Chile para o árido norte por navios e tubulações submarinas e subterrâneas. O objetivo: aplacar a sede mineira deste país, primeiro produtor de cobre do mundo. Os projetos Aquatacama, Via Hídrica do Norte e Sirius superaram a etapa da viabilidade como obras de engenharia, mas não estão aprovados pelas autoridades nem contam com estudos ambientais.

As empresas que os promovem buscam clientes, especialmente na indústria mineira, e fazem lobby junto ao governo para que declare os projetos de interesse social. Seu argumento é poderoso: a crescente escassez hídrica do norte mineiro limita o desenvolvimento e pode derivar em conflitos sociais. A mineração não é um setor a ser ignorado: contribui com 13% do produto interno bruto e 36% do emprego nacional.

O Chile, um país estreito e comprido, tem abundantes recursos hídricos, mas com divisão desigual: enquanto ao sul de Santiago a disponibilidade média anual é superior a dez mil metros cúbicos por pessoa, ao norte da capital não chega aos 800 metros cúbicos por pessoa, segundo estudo realizado em 2011 pelo Banco Mundial. Só a extração de cobre consome 12.615 litros por segundo de água doce, segundo o Conselho Mineiro.

Os três projetos são apresentados como solução para essa brecha entre demanda e oferta, que aumentará até 2020.

O Aquatacama, da empresa Vía Marina e do grupo francês Vinci, entre outros, gastou US$ 1,4 milhão em um estudo que propõe transportar água desde a desembocadura dos rios do sul até Arica, no extremo norte, numa extensão de 2.500 quilômetros, através de um duto sob o Oceano Pacífico. A rota foi analisada por técnicos da Marinha e das capitanias de portos. A proposta é captar água dos rios Rapel, Maule e Bío Bío, na região centro-sul.

Segundo o Aquatacama, a demanda potencial da cidade central de Valparaíso até Arica (separadas por dois mil quilômetros) é de 30 a cem metros cúbicos por segundo, e é possível instalar pontos de distribuição a cada cem quilômetros.

O projeto propõe inicialmente retirar água do Rapel e levá-la até Coquimbo, a 400 quilômetros, para servir distribuidoras de água, a mineradora Andina da estatal Corporação do Cobre do Chile, e povoados da região. O consumo de energia chegaria a 0,9 quilowatts/hora por metro cúbico, quatro vezes menos do que retirar o sal da água do mar, afirmam seus defensores.

O Via Hídrica do Norte, do consórcio chileno-espanhol Euro Engineering Group, pretende transportar 25 metros cúbicos por segundo, em tubulações de aço subterrâneas de três a quatro metros de diâmetro e ao longo de 2.400 quilômetros. A meta é abastecer a mineração mediante um traçado que vai do nível do mar até os 4.300 metros de altitude.

As principais jazidas de cobre estão no norte, frente ao deserto de Atacama, o mais árido do mundo. Ali a falta de água também afeta a agricultura e o consumo humano. A água é entregue em caminhões-pipa e as famílias mais ricas compram o líquido engarrafado para cozinhar.

O Sirius, de capitais nacionais, pretende uma complementação com outros projetos e requer investimento inicial entre US$ 50 milhões e US$ 60 milhões. Tem como objetivo a zona de Copiapó, 800 quilômetros ao norte de Santiago, para onde dois navios levariam por mês até 3,5 milhões de metros cúbicos de água para consumo humano. Para isso é necessário extrair 1.500 metros cúbicos por segundo de um rio da austral Patagônia. A empresa afirma que essa extração seria inferior a 10% do caudal de origem, com base em dados da Direção Nacional de Águas.

“O déficit de água limita as opções de desenvolvimento das regiões do norte que precisam ser abastecidas com produtos e serviços de outras regiões”, disse ao Terramérica o diretor do Centro de Geração de Negócios, Nicolás Jadue, da privada Universidade Mayor.

“Aumentar a oferta sem dúvida geraria benefícios importantes”, pontuou Jadue, mas esses projetos devem ser analisados “do ponto de vista da rentabilidade social”, acrescentou. “O impacto de introduzir recursos hídricos em territórios de escassez e com forte potencial econômico é bem maior no âmbito privado, por efeitos dos fortes encadeamentos produtivos e sociais que induzem as principais atividades que competem pela água: agrícola e mineira”, ressaltou o especialista.

Todo mundo concorda que falta água para o norte. Mas as soluções são inclusive contrapostas. Cristian Silva, mentor do projeto Sirius, acredita que a escassez reflete a falta de regulamentação. “A água tem de aumentar de preço. A dúvida é quem pagará”, afirmou. Alguns parlamentares propõem voltar a nacionalizar esse recurso, privatizado na ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), enquanto organizações sociais querem uma mobilização para exigir uma estratégia hídrica nacional.

“O bom uso da água é melhor do que dezenas de projetos locais”, disse o especialista Axel Dourojeanni, consultor de agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e ex-diretor nacional de Águas e Solos do Peru, na Conferência Mundial do Cobre, realizada em Santiago no começo de abril.

“Ainda não há estudos do nível de profundidade necessário para determinar a viabilidade social, econômica e ambiental da transposição do sul para o norte, nem esta opção deve ser estudada em separado de outras para melhorar a eficiência, o bom uso e o reordenamento do território”, apontou Dourojeanni à IPS. “As transposições são necessárias, mas também criam dependência e têm um alto custo. E mais, é essencial determinar os efeitos no lugar de onde se extrai a água”, ressaltou.

Para Lucio Cuenca, diretor do Observatório Latino-Americano de Conflitos Ambientais, a interpretação por trás destes projetos, que a água doce dos rios se perde no mar, “é inspirada em uma lógica economicista e vai contra a que se vincula aos ecossistemas”. Cuenca destacou ao Terramérica que se trata de “falsas soluções que ocultam a realidade, principalmente do norte, onde se permitiu que a expansão da mineração ultrapassasse todos os limites ecossistêmicos que esses territórios são capazes de suportar”.

Rodrigo Villablanca, dirigente da Comunidade Diaguita do central Vale do Huasco, que luta contra a aprovação do projeto aurífero Pascua Lama, disse ao Terramérica que “as mineradoras não só consomem grandes quantidades de água, como destroem geleiras nas partes altas das bacias, inclusive muito antes de estarem produzindo. Agora pretende tirar água de outro sistema ecológico que também será prejudicado”.

Para Cuenca, a solução para a crise hídrica passa por reduzir a intensidade do investimento em mineração e “rever a política de gestão dos recursos naturais”. Segundo Dourojeanni, “o mais urgente é melhorar a governança da água com base em uma comparação entre a situação atual e a situação desejada, que deve ser claramente definida”.

Dourojeanni enfatizou que “para isso se deve seguir um protocolo rigoroso, como está desenvolvendo a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos) que tem o objetivo de melhorar a gestão da água, desprovido de ideologias ou ideias pré-estabelecidas sobre privatizar ou nacionalizar”. Envolverde/Terramérica

* Os autores são correspondentes da IPS.

 

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Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.