Clima

Metas para Paris já estouram limite de 2ºC

Paris sediará em dezembro deste ano 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Foto: Shutterstock
Paris sediará em dezembro deste ano 21ª Conferência das Partes (COP 21) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Foto: Shutterstock

Cálculo de pesquisadores brasileiros mostra que objetivos já apresentados de corte de emissão para 2030, somados, ultrapassam o teto em “uma Rússia”

A chefe da Convenção do Clima das Nações Unidas, Christiana Figueres, tem avisado que o acordo de Paris, por si só, não vai impedir um aquecimento global de 2oC. Um estudo realizado por pesquisadores de Manaus acaba de mostrar quão longe dessa meta estão os compromissos anunciados pelos países para o novo tratado.

Segundo o cálculo do Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas), as metas de redução de emissões colocadas na mesa até aqui, chamadas INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas), somam 14,9 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2030 se forem cumpridas à risca por todos os países proponentes. Em 2010, o mundo emitia 49 bilhões de toneladas de gás carbônico.

Acontece que, se quiser ter uma chance maior que 66% de limitar o aquecimento global a 2oC em relação à média de temperatura do período pré-industrial, o mundo precisa emitir ao ano, no máximo, 11,3 bilhões de toneladas daqui até o fim do século.

Ou seja, as emissões projetadas para 2030 ainda estão 3,6 bilhões de toneladas de CO2 acima do limite definido como “seguro” pelo Acordo de Copenhague, de 2009. Essa quantidade é o equivalente à emissão anual da Rússia, ou mais que o dobro da do Brasil.

E isso porque nem todos os grandes poluidores do planeta apresentaram suas metas até agora. São aguardadas para as próximas semanas as INDCs de Brasil, Índia, Indonésia, Peru e África do Sul. E a análise do Idesam deixou de fora, propositalmente, ninguém menos do que a China, o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.

“A China não está na nossa conta porque a INDC dela está expressa numa métrica diferente da dos outros países”, conta Pedro Gandolfo Soares, gerente do programa de Mudanças Climáticas e Redd do Idesam e principal autor do estudo. Enquanto a maioria das nações definiu sua meta em termos de reduções de emissão em relação a um ano-base ou em relação ao que projetava emitir se nada fosse feito, a China limitou-se a dizer que suas emissões atingirão o pico em 2030. Ou seja, o gigante asiático ainda vai ampliar – e muito – a quantidade de carbono que despeja no ar.

Com base em dados de outras instituições, o Idesam estimou a emissão chinesa em 16,5 bilhões de toneladas em 2030. Incluída a China, as emissões mundiais batem 31,4 bilhões de toneladas – quase o triplo do necessário para manter o mundo na dieta de carbono compatível com os 2oC.

Todos os 29 países que apresentaram metas (a União Europeia tem uma meta única para as 28 nações do bloco), que juntos respondem por 70% das emissões do mundo, afirmam que suas contribuições para a COP21, a conferência de Paris, são “justas e ambiciosas”.

Pelo menos um deles diz a verdade, segundo a análise do Idesam: a Etiópia. O país africano, que já foi um dos mais miseráveis do mundo, prometeu reduzir 64% de suas emissões em relação à projeção para 2030.

Embora, enquanto país em desenvolvimento, não seja obrigada a fazer cortes absolutos, a Etiópia hoje emite 50 milhões de toneladas de CO2 equivalente ao ano (menos do que emitem os carros de passeio no Brasil) e pretende chegar a 2030 emitindo 45 milhões de toneladas. “É uma redução absoluta maior que a da Austrália”, elogia Pedro Soares. “Isso significa uma mudança radical na estratégia de desenvolvimento, o que, por sua vez, vai exigir financiamento grande.”

Para fazer a estimativa, o grupo de Manaus compilou todas as INDCs apresentadas à Convenção do Clima e tentou extrair de cada uma delas uma informação comum: quanto seria a redução em toneladas de CO2 equivalente implicada em cada número. Conhecendo as emissões de cada país no ano de referência usado por cada um (a UE, por exemplo, tem 1990 como base, conforme as regras da Convenção do Clima; os EUA, 2005, mudança feita deliberadamente para reduzir o tamanho do esforço de mitigação).

“Nossa preocupação ao iniciar esse cálculo foi ver que estamos a poucos meses da COP21 e não temos nem mesmo uma métrica unificada para monitorar as INDCs”, diz Mariano Cenamo, pesquisador-sênior do Idesam. “De posse de um parâmetro de comparação, podemos enfim ver o nível agregado de ambição. Ele precisa melhorar muito.”

Veja nesta página o “ambiciômetro”, um infográfico interativo montado a partir dos dados do Idesam. (Observatório do Clima/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.