Je suis favela, ou uma ponte literária entre Brasil e França

Editora francesa Paula Anacaona

Editora francesa Paula Anacaona

Por A. D. MacKenzie, da IPS – 

Paris, França, 13/5/2015 –Muito antes do atentado contra a revista satírica Charlie Hebdo em Paris, que deixou vários mortos, uma jovem editora francesa havia publicado uma coleção chamada Je suis favela sobre a vida dessas comunidades pobres do Brasil.

O irônico é que as vendas de sua coleção dispararam após o ataque de 7 de janeiro, quando homens armados invadiram a sede da Charlie Hebdo e abriram fogo em plena reunião da redação deixando 12 pessoas mortas, entre elas vários caricaturistas famosos.

Alguns leitores acreditaram que as histórias de Je suis favela (Eu sou favela) eram uma tentativa de denunciar a situação das comunidades marginalizadas na França, recorrendo ao termo usado no Brasil e à frase “Je suis Charlie” com que o público respondeu ao ataque terrorista. Mas, descobriram que se tratava de população marginalizadas de um país sul-americano onde semelhantes forças de exclusão empurram os jovens para a criminalidade.

“Todos podemos aprender o que acontece em outro lugar do mundo, pois as questões sociais e econômicas afetam a todos de maneira semelhante”, explicou Paula Anacaona, editora do livro e fundadora da ÉditionsAnacaona, cujo objetivo é publicar livros brasileiros na França.

Especializada na tradução de textos técnicos, Anacaona, uma parisiense de 37 anos, se converteu casualmente em tradutora literária e editora. Estando de férias no Rio de Janeiro em 2003 começou a conversar com uma mulher que lhe disse ser escritora e prometeu lhe enviar um livro. Dois meses depois de regressar à Paris, Anacaona recebeu o livre e “ficou encantada”, disse à IPS. Traduziu a obra, escrita por HeloneidaStudart, à qual deu o título de Le Cantgique de Meméia (O canto de Memeia) e conseguiu que fosse publicada por uma editora canadense.

Capa do livro Je suis favela

Capa do livro Je suis favela

Studart, que faleceu em 2007, também era ensaísta, jornalista e defensora dos direitos das mulheres, e seu livro chamou a atenção de leitores de língua francesa em vários países.

Outros escritores entraram em contato com Anacaona, que se converteu em uma tradutora literária. Ao enviar diferentes obras às editoras, também assumiu o papel de agente, uma tarefa de tempo integral. “Com tudo o que implicava, perguntei por que não publicar eu mesma os livros”, recordou. Assim criou ÉditionsAnacaona, em 2009, dedicada à literatura e, sobre, as favelas brasileiras, porque “ninguém o fazia”, disse.

O primeiro livro que sua editora publicou foi Le Manuel pratique de lahaine (Manual prático do pódio), uma obra violenta e obscura localizada em uma favela e lançada em 2009. Dois anos depois apareceu Je suis favela. Anacaona escolheu os autores para a coleção, procedentes tanto de favelas como de classe média, e traduziu as histórias do português para o francês.

Seu propósito era tentar mudar a percepção sobre pessoas que ela acredita que vivam à margem da sociedade. Na capa da coleção se vê uma jovem negra sentada e escrevendo em um terraço com uma paisagem urbana de fundo. “Como se vê, não está dançando, não se trata de estereótipos”, explicou Anacaona.

O livro foi publicado no Brasil com o título “Eu sou favela”, o que Anacaona considerou um êxito. “No Rio de Janeiro, 22% da população vive em favelas, por isso é um livro relevante para muitos leitores”, afirmou.

Na França, onde há um exame de consciência após o atentado contra Charlie Hebdo, que inclusive levou o primeiro-ministro, Manuel Vallas, a considerar que a exclusão social de alguns setores é uma forma de aparthaid, o livro oferece uma reflexão sobre as razões e as consequências da marginalização, ainda que essa ocorra a 8.620 quilômetros de distância. “Os leitores franceses responderam ao livro porque as pessoas realmente estão tentando compreender o espaço que todos compartilhamos e as razões da radicalização”, afirmou Anacaona.

Com15 autores, Anacaona ampliou o espectro de sua editora para incluir autores “regionalistas” como Rachel de Queiroz e José Lins do Rego, do nordeste brasileiro, que criou personagens fora de contextos urbanos. “Para entender a favela se deve entender os avós que chegaram às cidades desde as áreas rurais, frequentemente sem nada e sem saber ler nem escrever”, acrescentou Anacaona.

Os escritores contemporâneos de sua editora incluem a premiada Tatiana Salem Lévuy, considerada uma das Melhores Novelistas Jovens Brasileiras de Granta, e a destacada Ana Paula Maia, que começou sua carreira com pequenas obras de ficção na Internet, do gênero conhecido como “pulp”, e agora tem numerosos seguidores. Ambas fazem parte do grupo de 48 autores brasileiros convidados este ano para a Feira do Livro de Paris, realizada entre 20 e 23 de março.

Considerado “um país cheio de vozes”, o Brasil foi o convidado de honra e os autores debateram sobre diferentes temas, desde a violência urbana até lidar com a memória e o deslocamento. Anacaona teve um papel central como editora de livros brasileiros, e seu trabalho atraiu uma grande quantidade de leitores.

Também traduziu e publicou as obras de Maia — “De gado e homens” e “Carvão animal” —cujos personagens são pouco comuns na literatura. Maia escreve sobre um empregado em um matadouro e outro que trabalha no crematório, por exemplo, de forma pouco sentimental com um diálogo mínimo e quase sem adjetivos.

Escritora brasileira Ana Paula Maia. Foto: Marcelo Correa

Escritora brasileira Ana Paula Maia. Foto: Marcelo Correa

“Não podemos classificá-la”, afirmou Anacaona. Ela observa que apesar de seu aspecto de modelo, Maia se identifica com os que vivem em áreas marginalizadas porque cresceu entre pessoas que não se encaixavam em nenhum modelo dominante.

Escritora e editora se parecem e até dividem um nome. Anacoana reconhece que sente atração pelo Brasil e por sua literatura por sua própria origem mista, sua mãe francesa é branca e seu pai, sul-americano, tem ancestrais africanos. “No Brasil é possível tanto ser negro como branco, e isso é importante para mim”, afirmou.

Em matéria literária, publicou há pouco uma caixa com 14 obras de teatro brasileiro, cuja tradução teve patrocínio do Ministério da Cultura do Brasil em uma tentativa de difundir o teatro nacional na França. Há, também, uma segunda coleção das favelas, Je suis toujours favela (Eu sempre serei favela), que inclui tanto literatura, quanto artigos jornalísticos e sociológicos sobre essas comunidades.

Entre a primeira e a segunda coleção, Anacaona disse que se deu conta de que a “favela mudou muito”, o que atribui ao impacto das políticas destinadas a reduzir a desigualdade, implantadas ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), talvez uma lição para a França e outros países. Envolverde/IPS

Posts Relacionados

Deixe seu Comentário