SUS: entre números, vidas e a experiência real de quem depende dele

O jornalista Reinaldo Canto dá um depoimento real e vivencial de sua experiência ao utilizar o atendimento médico no SUS. Agrega à experiência os dados sobre melhoria na percepção pública sobre o serviço e comparações com serviços similares em outros países.

Atualizado em 12/02/2026 às 17:02, por Reinaldo Canto.

Ilustração em torno do lopgotipo do SUS

Por Reinaldo Canto, especial para Envolverde - 

Em meio a tantas críticas — muitas vezes genéricas — ao Sistema Único de Saúde, uma pesquisa recente traz um dado que merece atenção e reflexão: a confiança dos brasileiros na saúde pública está em alta. Segundo o levantamento Confiança em Instituições Públicas na América Latina e no Caribe, realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a satisfação com o SUS cresceu nove pontos percentuais entre 2022 e 2025, saltando de 34% para 45%. O índice já supera a média da América Latina, que está em 40%.

Mais do que um número isolado, o dado sinaliza uma mudança de percepção. O estudo mostra também que a avaliação sobre acesso e qualidade dos serviços públicos no Brasil teve um avanço expressivo: um aumento de 18 pontos percentuais no período, passando de 24% para 42% — dez pontos acima da média regional. Em outras palavras, mais brasileiros sentem que os serviços públicos melhoraram e estão chegando onde antes não chegavam.

Esses números ajudam a dimensionar algo que, para milhões de pessoas, é vivido no dia a dia. Recentemente, fiz exames na UBS Nossa Senhora do Brasil, na Bela Vista, em São Paulo. O atendimento foi organizado, ágil e respeitoso. Houve espera, claro — algo comum em qualquer sistema de saúde público ou privado —, mas houve também cuidado, orientação e, sobretudo, acesso. O tipo de acesso que, sem o SUS, simplesmente não existiria para boa parte da população.

A experiência se repete em casa. Minha filha precisou de atendimento na UPA de Santo Amaro e foi acolhida com rapidez e atenção. Profissionais preparados, estrutura funcionando e a sensação de que, naquele momento, o sistema estava ali para cumprir sua missão essencial: cuidar das pessoas quando elas mais precisam.

Não por acaso, o Ministério da Saúde atribui essa melhora de percepção à ampliação concreta dos serviços. Segundo o ministro Alexandre Padilha, programas como o Agora Tem Especialistas ajudaram a ampliar o acesso à assistência especializada. Entre 2022 e 2025, o número de cirurgias eletivas cresceu mais de 40%, passando de 10,8 milhões para 14,7 milhões — o maior volume em 35 anos de SUS e acima dos níveis pré-pandemia. Isso significa menos filas, menos agravamento de doenças e mais qualidade de vida.

Os recordes se acumulam. No mesmo período, foram realizados 43,7 milhões de exames e consultas, um aumento de 26%. Até dezembro de 2025, o SUS contabilizou 2,9 bilhões de procedimentos, superando novamente a média anterior à pandemia. Outro dado emblemático: 4,7 milhões de sessões de quimioterapia realizadas apenas no último ano.

Nada disso elimina os desafios históricos do SUS — subfinanciamento, desigualdades regionais, sobrecarga de profissionais e gargalos estruturais. Mas os dados e as experiências mostram que o sistema está longe de ser o desastre que parte do discurso público insiste em pintar. Ao contrário: o SUS segue sendo uma das maiores políticas públicas de inclusão social do país e, cada vez mais, um patrimônio reconhecido pela própria população.

Em tempos de descrédito nas instituições, ver a confiança crescer não é pouca coisa. Quando números e histórias reais apontam na mesma direção, talvez seja hora de olhar o SUS com menos preconceito e mais responsabilidade. Afinal, ele não é uma abstração: é a UBS do bairro, a UPA da esquina, o atendimento que chega — muitas vezes silenciosamente — quando a vida aperta.
 

Envolverde


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