Fuga

Samyra Crespo - Todos que me acompanham por aqui sabem que sou usuária de taxi. Minha última carteira de motorista venceu em 1992.

Atualizado em 26/01/2026 às 20:01, por Samyra Crespo.

Ilustração de Banksy

Samyra Crespo By taxi - 

Como moro numa ladeira íngreme, pego taxi praticamente todos os dias.

E ao usar os serviços preferencialmente de uma cooperativa do bairro, acabo não só conhecendo e papeando com os motoristas, como me tornando uma espécie de confidente, ou a terapeuta da vez.

A história que vou contar me comoveu e me fez refletir muito, pois tenho um caso parecido na família. Semelhante em circunstâncias.

Pois bem, João (nome fictício para salvaguardar a privacidade do nosso protagonista), está me levando da Glória para o Leme onde vou visitar uma amiga.

Está visivelmente aborrecido e caio na armadilha psicológica de comentar que 'sua cara não está para amigos'.

Imediatamente João começa a despejar seu descontentamento com o filho que está se tornando jovem adulto. Tem 23 anos e está terminando uma faculdade de tecnologia. Trabalha como estagiário numa empresa de manutenção de provedores de Internet e foi convidado, ao fim do estágio, para trabalhar na sede, no exterior.

João está possesso e desenrola seus descontentamento.

A senhora sabe (a senhora sou eu) e sua voz está quase embargada e ressentida. "Tive minha filhinha, a primeira com hidrocefalia. Minha mulher ficou tão receiosa de ter mais filhos, mas eu disse, vamos ter outro que possa cuidar da nossa Ritinha quando a gente for velho. Ela concordou e nasce este meu filho, perfeito graças a Deus, e com essa missão nobre de cuidar da irmã, né?

Agora vem com essa conversa de emigrar para o Canadá, ficar longe e quem sabe nem volta... estou muito revoltado".

Eu já acompanho a história desse filho e do fardo que João, talvez inconscientemente, joga sobre os ombros do rapaz.

São temas sensíveis e delicados. Fico com pena de ambos.

Do motorista que já passou de 50, que teve vida difícil, que trabalha doze horas para prover a família e com filha especial que exige cuidados constantes.

Fico apiedada do rapaz, que mesmo antes de nascer, já tinha uma incumbência e que nunca foi consultado a respeito. Fizeram escolhas por ele.

Vem-me à mente o pensanento lapidar de Zugmunt Bauman, quando disse em um de seus livros sobre a 'sociedade líquida' - que estamos numa era em que os projetos coletivos, baseados em responsabilidade e solidariedade estão sendo substituídos por projetos individuais, onde em vez de transformar o mundo, os jovens estão optando por buscar transformar-se a si mesmos numa sociedade egoísta e doente.

Um puta dilema. Fico pensando neste filho que não conheço e neste homem alquebrado.

Será justo esperar de um filho tamanho sacrifício?

Terá a necessidade, quando ocorre independente da nossa vontade, prioridade, magnitude ética a tal ponto que os sacrifícios pessoais pareçam naturais?

Não queria estar na pele de João nem de seu filho.

Tentei me lembrar, ou imaginar como eu me comportaria aos 23 anos...

Acho que iria para o Canadá. Correndo.

E essa constatação sobre minha própria fraqueza me fez sentir uma imensa tristeza por tudo o que parece carma, destino, contradições insolúveis.

* ilustração: Banksy Art Fans

Envolverde