Internacional

Israel abandona plano de segregação de palestinos em ônibus

O posto de controle fronteiriço de Azzum Atme, entre Cisjordânia e Israel, onde centenas de trabalhadores palestinos viajam a Israel diariamente nos ônibus israelenses. Foto: Mel Frykberg/IPS
O posto de controle fronteiriço de Azzum Atme, entre Cisjordânia e Israel, onde centenas de trabalhadores palestinos viajam a Israel diariamente nos ônibus israelenses. Foto: Mel Frykberg/IPS

Por Mel Frykberg, da IPS – 

Ramalá, Cisjordânia, 26/5/2015 – A decisão das Forças de Defesa de Israel (FDI) de segregar os ônibus da Cisjordânia ocupada fracassou após provocar a indignação do parlamento israelense, além do dano político sofrido em nível internacional. Israel já suportava as criticas internacionais pela expropriação de terras e construção de assentamentos na Cisjordânia, além de outras formas de discriminação dirigidas contra a população palestina.

O novo governo de extrema direita de Israel, que assumiu no dia 14 de maio, também recebe ataques na frente interna dos partidos de esquerda e das organizações israelenses defensoras dos direitos humanos, que o acusam de prejudicar a imagem e os valores do país.

Os colonos israelenses na Cisjordânia realizam uma campanha para que os palestinos, em particular aqueles que trabalham em Israel, sejam proibidos de usar seus ônibus na ocupada Cisjordânia por mais de um ano porque, segundo argumentam, são uma ameaça para a segurança, se negam a dar seus lugares aos passageiros israelenses e demonstram interesse sexual nas mulheres israelenses.

Entretanto, o ministro da Defesa de Israel, Moseh Ya’alon, negou que a segregação e o racismo tivessem a ver com a proibição e assegurou que a decisão se baseou em necessidades de “segurança”. Ya’alon não renunciou ao plano já que tem a intenção de instruir as FDI a elaborarem um novo plano que cubra os 13 pontos de passagem entre Cisjordânia e Israel.

Esse fato aconteceu ao mesmo tempo em que a representante da política externa da União Europeia (UE), Federica Mogherini, realizou uma visita de 24 horas a Jerusalém e Ramalá, que terminou na quinta-feira dia 21, com a finalidade de impulsionar o processo de paz entre israelenses e palestinos. Mogherini afirmou que o bloco europeu quer ter um papel mais destacado no processo de paz.

Mas a visita da representante europeia implica a crescente aprovação na UE para que seja feita maior pressão sobre Israel a fim de deter a expropriação de terras dos palestinos, com a finalidade de construir mais assentamentos ilegais israelenses e ampliar os atuais. O Ministério das Relações Exteriores de Israel se mostrou na defensiva após o que considerou uma atitude viciada da UE.

“O governo israelense não será pressionado pela UE para que faça concessões aos palestinos no tocante ao processo de paz”, disse à IPS uma fonte desse ministério, que pediu para não ser identificada. “Se a UE pressionar unilateralmente Israel, sem exercer nenhuma pressão sobre os palestinos, a situação será contraproducente porque permitirá aos palestinos evitar as negociações diretas conosco”, acrescentou. “As futuras negociações de paz terão que implicar conversações cara a cara entre nós e os palestinos. Não aceitaremos nada menos que isso”, ressaltou a fonte.

O vice-ministro de Relações Exteriores, Tzipi Hotovely, citou um erudito bíblico da Idade Média ao instruir os diplomatas israelenses a não pedirem desculpas pela ocupação de Israel, afirmando que “toda a terra (em referência à Jerusalém oriental e aos territórios palestinos) pertence a Israel”. Como esse país está encurralado politicamente, os analistas palestinos e israelenses debatem se a UE pressionará o governo e se essa pressão terá alguma consequência.

O especialista político Samir Awad, professor da Universidade de Birzeit, localizada perto de Ramalá, considera que a pressão da União Europeia terá êxito, apesar do extremismo do governo israelense. “A UE é o maior sócio econômico de Israel e a ameaça de sanções econômicas, em uma linguagem que o governo israelense entende muito melhor do que as ameaças vazias dos norte-americanos, que nunca acompanharam suas criticas com alguma ação”, afirmou Awad à IPS.

“A pressão da UE sobre Israel também será impulsionada pelo fato de uma série de países europeus reconhecerem oficialmente o Estado palestino, enquanto outros o reconheceram em princípio e são críticos da ocupação e expropriação de terras por Israel na Cisjordânia”, acrescentou Awad.

Porém, a analista política Benedetta Berti, pesquisadora do instituto de Estudos de Segurança Nacional, com sede em Telavive, não está convencida de que a União Europeia conseguirá empurrar Israel para a mesa de negociações.

“Se nos fixarmos em seus antecedentes, até o momento houve muita retórica, mas não muita ação real. Até agora, 16 dos 28 ministros da UE disseram à Mogherini que siga adiante com a rotulagem dos produtos procedentes que os assentamentos exportam para a Europa”, que acontece com a finalidade de distingui-los das exportações produzidas em território israelense propriamente dito, afirmou Berti.

“Isto ainda não ocorreu porque é preciso a aprovação de 20 dos 28 ministros da União Europeia e devido às divisões no bloco europeu sobre Israel, e não estou segura de que acontecerá em um futuro próximo”, acrescentou a analista política.

Enquanto isso, a organização de direitos humanos israelense Yesh Din acusou o governo de indiferença diante dos ataques dos colonos e das forças de segurança contra os palestinos. “A maioria dos casos de delitos violentos contra palestinos não ficam apenas impunes como, frequentemente, são completamente ignorados pelas autoridades. Inclusive quando se abre uma investigação penal contra soldados acusados desses delitos esta quase sempre fracassa”, denunciou Yesh Din.

Cerca de 94% das investigações penais iniciadas pelas FDI contra os soldados suspeitos de atividades violentas ilegais contra os palestinos e suas propriedades são encerradas sem nenhuma acusação, afirmou a organização, ressaltando que nos poucos casos em que há uma condenação esta costuma ser muito leve.

“Por outro lado, os palestinos que tentam denunciar os crimes cometidos contra eles enfrentam enormes obstáculos em seu caminho. A absoluta ausência de delegacias militares abertas ao público palestino na Cisjordânia, por exemplo, faz com que seja literalmente impossível que apresentem queixas diretamente à policia militar”, segundo Yesh Din. Envolverde/IPS