O Brasil, as ideias e os fatos

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Por Dal Marcondes*

A retomada da utopia Brasil deve ser prioridade para a sociedade, que precisa desvincular definitivamente a avaliação das Políticas Públicas dos ideários da política partidária – 

Desde o início das apurações dos escândalos envolvendo políticos e empresários no Brasil, em vários processos judiciais, mas especialmente nas operações que desbarataram o Mensalão, a Lava-Jato e a Zelotes, dezenas de políticos e empresários graúdos perderam a majestade e hoje dividem quentinhas em prisões. Os jornalões manchetam todos os dias que mais um foi apanhado e que outros estão por cair muito em breve.  Certamente esse é um período de grande provação para a democracia brasileira e para as instituições, que ainda precisam se mostrar depuradas de “elementos” que fazem do próprio bolso a profissão de fé.

Enquanto Justiça e Polícia Federal trabalham livremente uma parte importante da sociedade alardeia todos os dias que o Brasil é o “país da impunidade”, e que nada pode ser feito para reverter o quadro de letargia política e econômica senão a sumária deposição da Presidente da República. Isso sem uma proposição estruturada de como as duas crises, política e econômica, que juntas formam a “tempestade perfeita”, podem ser debeladas.

Não há uma “visão de país”, uma utopia a ser seguida em busca de um horizonte onde o Brasil supera suas crises, retoma um caminho de crescimento econômico e assume seu papel entre as dez mais importantes economias do mundo. Nessa falta de visão crítica em relação aos fatos está a razão da imobilidade de todas as forças políticas importantes do País.

Nas redes sociais, elemento fundamental da política do século 21, as opiniões se radicalizam e sacam das entranhas da sociedade um ódio que não se julgava existir no Brasil. Despontam com vigor extremo o fascismo e o racismo, disparados por pessoas que se julgam acima de qualquer punição, que não acreditam que o ranço de suas opiniões sectárias possa ter eco em delegacias e tribunais.

Na economia vigora nesses dias de desesperança o bordão do “quanto pior, melhor”. Porque assim demonstra-se a incompetência da presidente e a necessidade de uma solução radical, mesmo ao atropelo da Constituição. De lado a lado existe a dificuldade em reconhecer algo positivo na hoste alheia sob o risco de ser tomado como “petista” ou “coxinha”, os pejorativos da moda.

Um exemplo dessa incapacidade de olhar crítico é a Petrobras, empresa que, sem dúvida, foi saqueada por bandos de políticos e empresários bandidos, a maior parte já presos ou sendo processados. Planos de investimentos desenhados em 2014, com o barril do petróleo em 100 dólares não são mais factíveis com o atual valor abaixo dos 30 dólares. O pré-sal , que já produz quase 900 mil barris/dia não representa o desafogo para uma dívida próxima a 500 bilhões de reais.

A origem do buraco não é a corrupção, como gostam muitos de apontar. Apesar de ter sua parcela de responsabilidade. O problema real teve origem em um imaginário de milhões de barris ao dia sendo comercializados na faixa dos 100 dólares. O castelo de cartas se desmanchou e as regras do jogo mudaram drasticamente, com a necessidade da empresa se reciclar e buscar uma saída que resgate sua capacidade de inovação e desempenho tecnológico. O impacto da crise da Petrobras sobre a economia do país neste momento é uma queda da ordem de 2% no PIB.

No entanto, se os diretores bandidos já foram afastados, se a empresa está em um processo de depuração de seus negócios, por que ainda há ataques à sua gestão?

Uma parte dos críticos defende abertamente a privatização da empresa, que já tem ações em bolsa e muitos acionistas privados. Outra certamente está a lamuriar por ter “perdido a boquinha”. Mas há ainda aqueles que apenas fazem eco a boatos e memes de redes sociais e não são capazes de se apropriar de dados concretos, como a importância dos investimentos da empresa não apenas em sua cadeia de fornecedores, mas, também, no campo social, cultural e ambiental, onde seus programas de apoio a organizações da sociedade civil tem um imenso papel transformador de realidades em rincões do país.

A Petrobras, no entanto, é apenas um exemplo. Há muitos outros, para o bem e para o mal, de cenários em que os brasileiros não estão sendo capazes de superar preconceitos políticos e apontar para um horizonte de superação e de retomadas das utopias.

Há epidemias de Dengue, Zica e Chicungunha se alastrando pelo país e por todo o hemisfério americano. Governos de todos os escalões não conseguem uma ação articulada de combate ao vetor das doenças, o mosquito Aedes Aegypti se aloja, em grande parte, dentro das casas das pessoas. Essa incapacidade de articulação política ameaça corromper o futuro de milhares de jovens que já nascerão sequelados pela microcefalia.

Em alguns estados a polícia, que deveria ser o porto seguro da sociedade se transveste em forças de repressão política no melhor exemplo das grandes ditaduras do mundo e investem contra manifestantes como se travassem uma batalha contra forças armadas. Nas redes sociais mais uma vez a sociedade não sabe como reagir. Se for contra a violência pode ser entendido como cúmplice de vandalismo.

A grande bobagem que perpassa os pensamentos de muitos é que haverá um “salvador da pátria”. A história brasileira está repleta de pessoas que deram seus nomes a correntes políticas, como getulismo, lacerdismo, janismo, ademarismo, brizolismo, lulismo e assim vai. Dessa vez nenhum “ismo” vai ajudar o país a sair da crise em que se meteu.

A crítica à Dilma e a pregação por sua deposição é o caminho fácil de duas correntes, a dos que votaram nela e por um motivo ou outro se arrependeram, e aqueles que não votaram nela e veem no arrependimento alheio a oportunidade de tomar o poder que não conseguiram nas urnas.

Não há caminho fora da democracia! O povo, a sociedade, os eleitores escolhem os rumos que desejam para o país. O Brasil precisa reaver suas utopias.  O primeiro passo para a superação dessa crise é a sociedade brasileira retomar seu senso crítico e a correspondência entre suas ideias e os fatos largamente documentados.  Políticas públicas devem ser desvinculadas de política partidária. (#Envolverde)

* Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde e especialista em meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

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