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O que pode refletir um caco de espelho?

Foto: Reprodução/ Internet
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Quem ensina um recém-nascido a virar o rosto na direção do seio materno em busca do alimento? A busca pela sobrevivência é a única coisa que, em princípio, pode preocupar quem chega a este mundo. Sem condições ainda de tecer juízos, um bebê nada sabe a respeito de si. Não sabe onde está, não sabe o que é certo ou errado, o que é bom ou ruim e nem o que significa existir. Mas ele quer viver e depende de quem possa cuidar e lhe dar referências, tornando imprescindível a presença devotada dos pais ou de quem possa fazer-lhes a vez. Por essa razão, uma das afirmações de Donald Winnicott, renomado pediatra e psicanalista inglês, é tão valiosa hoje para o entendimento emocional das crianças: “O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe: a sua expressão, o seu olhar, a sua voz…”.

É pelo desvelo materno contínuo que as crianças começam a perceber o contorno do próprio corpo e a reconhecer-se como pessoas, saindo pouco a pouco do mundo indiferenciado em que se encontram. Enquanto isso, o suporte paterno é fundamental para garantir à mãe a tranquilidade de tal entrega. Mais tarde, na esteira macia desses cuidados, os limites, as regras, os valores e as frustrações necessárias irão rolar sem grandes dificuldades até tornar a criança plenamente civilizada.

Por isso, ao se pensar a delinquência, é importante lembrar que ela não nasce com a criança. Como bem concluiu Alice Miller, psicóloga e autora polonesa com notável trabalho enfocando o abuso infantil: “Ninguém nasce mau”. Cada pessoa reflete o que recebeu desde cedo. Ao contrário do que propõem os roteiros fantasiosos de certos filmes de terror, um bebê não tem sequer a mente desenvolvida a ponto de abrigar, entre outras, alguma intenção malévola. A bem da verdade, o terror é outro: são as milhões de crianças que crescem privadas de um acolhimento saudável e vitimas de tantos abusos, sobretudo as que vivem em extrema pobreza e que seguem gerando outras crianças para as quais não poderão ser sequer um caco do espelho explicado por Winnicott.

Por isso, é desolador ver tanta gente (93% dos paulistanos, segundo o Datafolha) clamando hoje pela maioridade penal, num julgamento sumário e imponderado, redobrando a revolta que seguirá nos assombrando. Ainda mais quando entre os argumentos ralos está o de impedir que menores sejam usados pelos traficantes. Como se não soubéssemos que, na impossibilidade de usar os menores de 18, eles usarão os menores de 16 e assim sucessivamente. Lembrando que os infratores maiores de 12 anos já são privados hoje de sua liberdade, a simples melhoria do sistema socioeducativo, embora prioritária, ainda não seria a solução final uma vez que o problema está mais embaixo, inclusive dos tapetes.

Convenhamos não ser mesmo fácil contar com a compreensão dos que perderam um familiar vitima da violência de um menor. Porém, dos que estão em condições de refletir com clareza, esperamos não fazerem coro com o jogo político, entregando de mãos beijadas aos comodistas de plantão a solução que os poupará de encarar de frente o problema. Temos que nos manifestar, isto sim, pela urgência de políticas públicas mais humanas e justas. Não se trata de por a mão na cabeça de bandido, mas sim na própria consciência e no que de fato precisa ser feito.

Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.