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27/04/2010 - 03h04
Terra gera febre investidora em Mali
Por Soumaila T. Diarra, da IPS |
Bamako, 27/4/2010 – Investidores locais e internacionais estão se assenhorando de quantidades cada vez maiores de terra arável em Mali. Os pequenos agricultores estão preocupados. A Arábia Saudita e a comunidade de Estados do Sahel e do Sahara – da qual a Líbia faz parte – e Senegal se encontram entre as nações que querem desenvolver grandes estabelecimentos agrícolas em Mali. Um gigantesco projeto de canal de irrigação está na fase final de construção na comunidade de Macina. A Líbia encontra-se em processo de instalação de cem mil hectares de terra que arrendou em Mali, junto ao Rio Níger.
“Segundo o acordo de arrendamento assinado em 2008, os líbios terão acesso à área por 50 anos. As instalações que construíram permitirão produzir 200 mil toneladas de arroz híbrido ao ano”, disse à IPS Augustus Drago, que dirige o trabalho de uma agência do governo responsável por administrar a área arrozeira do delta do Níger, a Office du Niger (Escritório do Níger). A agência controla as atividades de aproximadamente 56 mil pequenos produtores, entre eles 2.370 mulheres, que pagam cotas anuais de irrigação segundo o volume de água consumida.
A Office du Niger administra cerca de dois milhões de hectares de terra arável, dos quais apenas 83.900 estão desenvolvidos. Isto pode sugerir que há terra em abundância para arrendar a grandes projetos agrícolas, mas os produtores locais estão preocupados. “Durante muito tempo, os senegaleses fizeram campanha por acesso à terra. Oferecemos 25 mil hectares, mas não ouvimos nada deles” desde 2005, disse à IPS o funcionário da agência, Kassoum Denon.
Jovens das aldeias próximas ao lugar onde se ergue o projeto líbio dão as boas-vindas a um investimento que gera fontes de trabalho. Quando a obra terminar “as pessoas poderão trabalhar nas fábricas e redes de irrigação”, disse à IPS Adama Coulibaly, da aldeia de Kolongo. Além de cultivar arroz, a Líbia considera dedicar-se à pecuária industrial para produzir 25 mil toneladas anuais de carne. Também promete investir em instalações locais de processamento agrícola para produtos como extrato de tomate.
Porém, as organizações de agricultores estão preocupadas pelo fato de o projeto violar certos direitos das aldeias ao longo do canal. A Coordenação Nacional de Organizações Camponesas de Mali (CNOP) criticou os líbios após visitar o local em julho de 2009. “A população local não está bem informada sobre o projeto. Por exemplo, não se sabe quando ou como serão compensados os pequenos produtores deslocados de suas aldeias e terras de cultivo”, disse Lamine Coulibaly, diretor de Comunicações da CNOP, em entrevista à IPS.
Segundo Drago, “Mali arrenda a terra para quem oferecer melhores oportunidades. Temos de enfrentar os fatos: após 50 anos de independência, Mali não conseguiu fazer isso, e podemos passar mais 50 anos sem poder fazê-lo”, acrescentou. A Líbia investiu US$ 52 milhões na construção de canais gigantes, de 45 metros de largura, segundo a Office. Também pavimentou as estradas das aldeias próximas. “Isto só pode ser bom para o Mali. Poderemos desenvolver cem mil hectares adicionais próprios graças ao trabalho inicial do canal feito pelos líbios”, disse Drago.
E não só os investidores estrangeiros se esforçam para garantir terra nesta área fértil e bem irrigada. A população rica de Mali aproveitou as regulações favoráveis para adquirir várias parcelas de terras a preço irrisório. “Isto se deve ao fato de ser fácil ter um terreno. O interessado nada paga, mas financia os estudos socioeconômicos e os custos de desenvolvimento”, explicou Moustaph Maiga, diretor de Comunicações da Office. Mas, a falta de ação de muitos destes pretendentes a investidores começa a irritar a Office.
“Quero divulgar uma lista de todos aqueles que não investiram em suas terras, mas concederei um período de graça este ano”, disse Denon. O governo de Mali incentiva os investimentos privados na área, embora não se beneficie diretamente deles. Esta política se baseia em uma lei aprovada em 2006, cujo objetivo é modernizar o setor agrícola. “Devido à atual crise de grãos, todos os países sócios de Mali voltam os olhos para a Office du Niger. Portanto, devemos usar esta crise para conseguir o que não pudemos fazer antes”, disse Drago.
A área produz principalmente arroz e cana-de-açúcar. Mas agora a Office incentiva a produção de produtos como batata e verduras fora de temporada. Estas iniciativas beneficiam economicamente o governo de modo indireto, por meio da cobrança de cotas de acesso à irrigação. IPS/Envolverde
(IPS/Envolverde)
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