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As mulheres têm a chave da paz nos Grandes Lagos

“As mulheres entendem profundamente o efeito que a guerra tem nas famílias”, afirmou Robinson à IPS. Foto: Matthew Newsome/IPS
“As mulheres entendem profundamente o efeito que a guerra tem nas famílias”, afirmou Robinson à IPS. Foto: Matthew Newsome/IPS

 

Adis Abeba, Etiópia, 13/3/2014 – A ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson trabalha duro para incluir as mulheres dos Grandes Lagos da África na construção da paz regional. Isso porque, sem elas, a estabilidade e a segurança serão inalcançáveis, afirmou em entrevista à IPS. Como primeira mulher que a Organização das Nações Unidas (ONU) designa como enviada especial para a República Democrática do Congo (RDC) e a região dos Grandes Lagos, ela acredita firmemente que é fundamental dar poder às mulheres das comunidades.

Robinson assegurou que está dando passos para incluir as mulheres nos processos de paz, e “espera que as pessoas comecem a ver mudanças em suas vidas” como resultado desse trabalho. A primeira mulher presidente da Irlanda (1990-1997) acredita que os governos devem compreender a importância da participação feminina na implantação do acordo Marco para a Paz, a Segurança e a Cooperação para a RDC e a Região dos Grandes Lagos, assinado em fevereiro de 2013 em Adis Abeba, capital da Etiópia.

Os países signatários são África do Sul, Angola, Burundi, República Centro-Africana, República do Congo, RDC, Ruanda, Sudão do Sul, Uganda e Tanzânia. Os compromissos que assumiram “são muitos específicos, por isso podemos anotar, responsabilizá-los e verificar como os implantam”, afirmou. “Essa é minha tarefa, mas também preciso do apoio das organizações não governamentais, dos meios de comunicação e de todos os que vivem na região”, acrescentou.

Robinson conversou com a IPS no lançamento da Plataforma de Mulheres para o Contexto para a Paz, a Segurança e a Cooperação, criado de forma conjunta pelo Fundo Global para as Mulheres e outros organismos que trabalham pela igualdade de gênero.

IPS: Por que considera importante ter mais mulheres como construtoras de paz?

MARY ROBINSON: Apoio a ideia, na qual cada vez mais pessoas acreditam, de que as mulheres e as meninas são centrais para a paz e o desenvolvimento. São as que trabalham no âmbito comunitário, e, no entanto, nunca estão adequadamente representadas nos processos de paz, que, em geral, consistem em “homens maus perdoando outros homens maus diante das câmeras”, como costumamos dizer. Também sabemos que são agentes de mudança e que têm uma grande capacidade para organizar suas comunidades. Os progressos serão muito limitados se não for incorporado o vasto potencial e o valor das mulheres na busca por soluções duradouras para a construção da paz.

IPS: A senhora é a primeira mulher a ser nomeada enviada especial pela ONU. Acredita que há suficientes mulheres dedicadas à consolidação da paz na RDC e nos Grandes Lagos?

MR: Quantos mais participarem, melhor. É notável que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, tenha designado mais mulheres como representantes especiais em países difíceis, com Sudão do Sul ou Libéria. Estão fazendo um bom trabalho e conseguindo um impacto, porque as mulheres entendem profundamente o efeito que a guerra tem nas famílias. Trata-se de algo para o qual possuem uma sensibilidade especial.

IPS: Como pretende atrair atores não estatais, incluindo as ONGs e a mídia para o processo de paz na região?

MR: É muito importante que a sociedade civil e os meios de comunicação participem do que estamos tentando fazer, que é trazer paz, segurança, cooperação e desenvolvimento à região dos Grandes Lagos, particularmente à RDC e à sua região oriental, onde houve grande sofrimento por muito tempo. Digo isto porque os governos já se comprometeram em níveis regional e nacional a dar passos para a segurança, ao não apoiarem grupos armados de outros países, não dar abrigo aos que cometem crimes terríveis e a trabalharem juntos para o desenvolvimento. Mas,foram fixadas metas que, para mim, são muito técnicas. Por outro lado, os governos têm de prestar contas à sociedade. Para ajudar nisso, formei uma plataforma para que grupos de mulheres tenham mais visibilidade no que estão fazendo contra a violência de gênero, para melhorar suas formas de sustento, ter maior acesso a energias limpas, etc.

IPS: Por que é importante envolver atores não estatais como as ONGs?

MR: Estamos dando passos deliberados para que o processo de paz e segurança seja mais real para a população. Também vamos trabalhar com jovens. Haverá uma cúpula de jovens no Quênia em maio. Quero que as pessoas sintam que esse processo de construção de paz é diferente dos anteriores. Creio que os governos o estão levando a sério e se esforçando. Nós mesmos estamos comprometidos. Sabemos o que esperar e estaremos em uma posição mais forte para pedir a prestação de contas dos governos graças ao nosso trabalho com atores não estatais, particularmente as mulheres e os jovens.

IPS: Acredita que a paz e a segurança estão melhorando na região?

MR: O Marco para a Paz, a Segurança e a Cooperação, para o qual eu trabalho, já tem um ano e creio que conseguimos muito nesse período. Conseguimos a derrota do grupo rebelde M-23 (Movimento 23 de Março) e o estabelecimento de um acordo político em Kampala para que os que fugiram para Ruanda e Uganda possam voltar a participar de um processo de reintegração, se não cometeram crimes graves. Também temos compromissos em aspectos de desenvolvimento. Estou organizando uma conferência sobre investimentos do setor privado, para maio, junto com a Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos, porque realmente necessitamos dos dividendos da paz. O Banco Mundial está atuando. Seu presidente (Jim Yong Kim) prometeu US$ 1 bilhão para financiar projetos em elaboração nos principais países da região. Espero que em 2014 vejamos um verdadeiro compromisso dos governos para acabar com os grupos armados. Envolverde/IPS