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Médicos presos por cumprirem seu juramento

Doha, Catar, 30/9/2011 – Treze profissionais da saúde do Bahrein foram condenados ontem a 15 anos de prisão, acusados de crimes contra o Estado por terem atendido manifestantes de uma marcha contra o governo realizada no começo deste ano. Além destes médicos e enfermeiros, outros sete foram condenados a penas que variam de cinco a dez anos por um tribunal especial criado durante o Estado de emergência posterior às manifestações.

O julgamento dos médicos foi acompanhado de perto e criticado por organizações de direitos humanos pelo uso que o Bahrein faz do tribunal de segurança, que tem promotores militares e juízes civis e militares, na hora de julgar civis. A maior parte dos médicos trabalhava no Centro Médico de Salmaniya, em Manama, que foi tomado de assalto pelas forças de segurança após a expulsão dos manifestantes, em 16 de março, da Praça Perla, que fica próxima, epicentro dos protestos no país.

A Agência de Notícias do Bahrein informou que os médicos foram julgados por “ocuparem pela força o Centro Médico de Salmaniya, possuírem armas sem licença (AK47) e facas, incitar a derrubar o regime, ficar com equipamento médico, deter policiais e divulgar notícias falsas”. Os profissionais também são acusados de “incitar a odiar o regime e insultá-lo, instigar o ódio contra outra seita e obstruir a aplicação da lei, destruir propriedade pública e participar de reuniões para colocar em risco a segurança geral e cometer crimes”, continuou a agência. “Todas estas ações aconteceram com um objetivo terrorista”, acrescentou.

O xeque Mubarak bin Abdulaziz al Khalifa, alto funcionário da autoridade de Assuntos de Informação do Bahrein, disse à rede de TV Al Jazeera que os médicos não estavam “exercendo sua profissão da maneira como deveriam”. Os médicos negaram as acusações reiteradamente, argumentando que as autoridades as inventaram para puni-los por tratarem pessoas que participaram de protestos contra o governo.

“Não houve nenhum sentido de rebelião”, disse à Al Jazeera Robert Fisk, correspondente do The Independent no Oriente Médio, que esteve no Bahrein durante as manifestações de março. Em um sentido profissional – afirmou – se perguntaram “como tratamos tantas pessoas contra as quais se disparou e que ficaram feridas em um breve período?”. A filha de um dos acusados disse à Al Jazeera que nenhum dos médicos ou enfermeiros participou da audiência de ontem.

“Estas sentenças cruéis implicam uma séria violação da lei e são consideradas um ataque contra a profissão médica”, disse a moça. “Pedimos urgência, a todas as organizações, sociedades e entidades médicas internacionais, em ações, divulgação de um comunicado ou que se faça algo para condenar as recentes sentenças dadas a profissionais médicos do Bahrein”, acrescentou.

Em declarações à rede de televisão, o ex-parlamentar opositor Matar Matar condenou as sentenças, dizendo que mostram que o governo ignora um “problema político” importante e que “uma grande porção dos habitantes do país insiste em ter reformas políticas. Dia após dia, se demorarmos para resolver nossos problemas, estes se complicarão mais. Os funcionários deveriam enfrentar o problema e iniciar uma reforma política real”.

Também ontem, no mesmo tribunal, mas em outro caso, um manifestante foi condenado à morte e outro à prisão perpétua, pela morte de um policial durante os protestos. Todas estas sentenças ocorrem um dia depois de o tribunal confirmar as sentenças contra 21 ativistas por suas participações nas manifestações, entre eles oito destacadas figuras políticas condenadas a prisão perpétua, acusadas de tentarem derrubar os governantes deste reino sunita. Envolverde/IPS

* Publicado sob acordo com a Al Jazeera.