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“Ano catastrófico” para o Sahel

Secas recorrentes destroem o Sahel. Foto: Kristin Palitza/IPS

Ouakchott, Mauritânia, 16/2/2012 – Sete dos oito países do Sahel, zona árida africana entre o Deserto do Saara e as savanas do Sudão, deram o passo sem precedentes de se declararem em emergência: 12 milhões de pessoas na região estão ameaçadas pela fome. Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia, Níger, Camarões e Nigéria pediram ajuda.

O Senegal, que realizará eleições presidenciais no final deste mês, não o fez, em boa parte por razões políticas.

“É ano catastrófico. A seca é severa. Precisamos de uma urgente intervenção para prevenir a epidemia de fome”, alertou Ahmed Weddady, diretor nacional do Ministério de Água e Saneamento da Mauritânia, país com menor quantidade de água potável do mundo e que sofreu a pior escassez de colheitas na região. Um terço de sua população, de 3,1 milhões de habitantes, já sofre uma severa insegurança alimentar.

Após uma seca destruir a maioria dos cultivos no Sahel, no final do ano passado, as populações rurais em toda a região começaram a ficar sem alimento há algumas semanas, quando faltam seis meses para as próximas colheitas. Contudo, as nações ricas do mundo, afetadas pela crise financeira e por terem gasto milhões de dólares em ajuda de emergência durante a fome do ano passado na Somália, agora demoram em atender ao chamado.

Até agora foi comprometida apenas metade dos US$ 650 milhões que a Organização das Nações Unidas (ONU) necessita. Outras agências de ajuda informaram que estão igualmente carentes de fundos. Quanto mais os doadores demorarem, mais vidas serão perdidas e mais cara ficará a assistência, alertou José Luis Fernández, coordenador regional de emergências da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). “É a lição que aprendemos na Somália. Não temos tempo a perder. Precisamos mobilizar apoio agora”, ressaltou.

Custa entre dez e 20 vezes mais enviar alimentos por ar a uma área afetada do que por mar. Além disso, são necessários US$ 80 por dia para atender crianças desnutridas, enquanto é necessário apenas US$ 1 por dia para tomar medidas que impeçam os menores de caírem nesse estado, por meio de programas de desenvolvimento. Justamente, o problema no Sahel é que esses programas de longo prazo quase não existem. A região sofre secas cíclicas que afetam a capacidade de resistência da população.

Mesmo em um ano “normal”, metade dos menores de cinco anos, os mais vulneráveis, sofre desnutrição crônica. Isto significa que a distância para a fome plena é muito curta. Os efeitos da mudança climática, o crescimento populacional, a pobreza aguda, o limitado acesso aos serviços básicos, a mudança dos padrões migratórios, a má governança, a competição pelos escassos recursos e os conflitos bélicos são problemas que se intensificaram em uma região onde a maioria de seus habitantes depende da agricultura e do gado para sobreviver.

É por isto que especialistas em desenvolvimento destacam o fato de a ajuda de emergência só poder ser útil ao Sahel no curto prazo, e que são necessários planos estruturais de longo alcance para que a região gere resistência às secas. “Esses programas deveriam incluir investimentos no desenvolvimento agrícola, na proteção social e nos serviços de saúde, na água e no saneamento, bem com na adaptação à mudança climática”, disse Johannes Schoors, diretor da organização internacional de ajuda Care para o Níger, onde cada vez mais pessoas são arrastadas para a fome devido à seca.

Mesmo se fossem comprometidos todos os fundos necessários, estender a ajuda humanitária seria difícil e complexo. O Sahel é uma região vasta e desconectada, com muitas aldeias em lugares isolados, por isto será um pesadelo logístico distribuir alimentos e outros suprimentos. “Como as pessoas vivem dispersas, a logística é complicada e cara. As distâncias para alcançar as pessoas são enormes, as estradas são muito ruins e às vezes nem existem”, disse Schoors.

A situação é agravada pelos últimos focos de violência. Em janeiro surgiu um conflito entre o exército de Mali e rebeldes do grupo étnico nômade tuaregue, que reclamam um Estado independente na zona de Azawad (norte do país). Já a Nigéria sofre os atentados do grupo islâmico Boko Haram, bem como operações da rede Al Qaeda, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que tenta salvar meninas e meninos severamente desnutridos na região, o primeiro comboio de caminhões com suprimentos não pôde entrar nas áreas inseguras do norte da Nigéria, fronteiriça com Níger.

“Fica cada vez mais difícil alcançar as pessoas necessitadas. Enfrentamos dificuldades semelhantes no norte de Mali. Prevemos um período de grande instabilidade na região”, disse a conselheira regional do Unicef sobre nutrição para a África Ocidental e Central, Felicité Tchibindat. Os conflitos causaram grande deslocamento de pessoas. Pelo menos 22 mil refugiados chegaram a Mauritânia, Burkina Faso e Níger no começo deste mês, e se instalaram em áreas com maior insegurança alimentar nesses países.

“O deslocamento de pessoas para áreas onde os residentes já sofrem torna mais difícil o envio de ajuda, além de gerar tensões sociais e aumentar o potencial de conflitos”, disse Fernández. O problema de quatro pontos: seca, falhas estruturais, violência e refugiados exige uma resposta urgente, acrescentou. Porém, pelo menos agora, muitas agências de ajuda não podem acelerar seus esforços, a menos que recebam os fundos necessários. Envolverde/IPS