Mudanças ao ritmo e estilo cubanos

Cuba

Havana, Cuba, janeiro/2014 – Desde que em 2008 o governo cubano passou efetivamente das mãos e do impulso tribunício de Fidel Castro ao estilo sucinto e pragmático de seu irmão Raúl, a economia e a sociedade acumulam uma série de mudanças mais ou menos notáveis que para muito segue em ritmo extremamente lento.

Para seus planejadores, incluído o próprio presidente, essas mudanças chegam com a cautela necessária para conseguir os que são proclamados como seus principais objetivos: atualizar e tornar eficiente a economia cubana sem aplicar políticas de choque de estilo neoliberal ou pacotes de medidas típicos de tempos de crise.

Os detratores do tempo imposto às mudanças têm como argumento fundamental o fato de poder esgotar o tempo real, histórico, para remodelar uma sociedade e economias paralisadas e deterioradas por longos anos de crise.

A justificativa das autoridades, no entanto, é que não há margem para improvisações e erros, por isso as transformações só devem ser implantadas no momento e na medida justos para que o sistema político não seja abalado com uma súbita alteração das estruturas econômicas.

Uma das especificidades desta política de “atualizações” realizadas em ritmo pausado foi o sigilo que as acompanha.

Na mais recente intervenção pública do presidente, durante o encerramento das atividades de 2013 no parlamento, aflorou essa tendência quando anunciou a esperada e necessária modificação da lei de investimento estrangeiro, sem deixar escapar uma só das características que terá o novo aparato legal que (se espera e se necessita) torne a ilha atraente para capitais estrangeiros indispensáveis para, entre outras carências, empreender a modernização da deteriorada infraestrutura de um país cujos recursos próprios são insuficientes para tal empenho.

Contudo, se em uns poucos meses o tema será discutido e a nova lei será adotada, por que não dar sinais de suas principais novidades?

Algo mais ou menos semelhante ocorre com o anunciado processo de unificação monetária do país (onde circulam dois tipos de peso, um cotado com relação ao dólar e a outras divisas), do qual se sabe apenas que afetará primeiro o setor mercantil e empresarial e em seguida os cidadãos, mas sem que se conheça muito sobre como nem quando chegarão as necessárias desvalorizações e revalorizações encaminhadas para a convergência das duas moedas, apesar de se tratar de um problema de máximo interesse público.

Mais recentemente, aconteceu com o anúncio da mudança na política de venda de automóveis, que será liberada após mais de meio século de restrições e ausências. Só se sabe que serão vendidos carros para quem puder comprá-los, com a informação adicional de que serão oferecidos a preços hoje estabelecidos pelo mercado entre particulares, ou seja, ao preço que poderia ter uma garrafa de água no ponto mais remoto do deserto do Saara.

Porque em um país no qual por meio século o mercado automobilístico esteve regido por proibições, vendas dirigidas e muito limitadas, além de preços já suficientemente altos, o automóvel se converteu no objeto de compra e venda mais cotado – mais ainda do que a moradia – encarecido justamente pela escassez e por dificuldades para obtê-lo.

Então, serão vendidos carros de segunda mão, explorados quase até o esgotamento, a preços similares aos que pode custar um automóvel novo em qualquer outro mercado do mundo? E, então, como será cotado um carro novo? Ninguém (dos interessados em adquiri-los) sabe com certeza, pois o tão esperado anúncio de que serão vendidos carros não esclarece a questão… porque se decidiu mantê-lo em segredo, até que chegue o momento em que o governo decidir torná-lo publico.

Em certas ocasiões essa falta de transparência funciona como um elemento que, de maneira muito evidente, desconhece os interesses dos cidadãos.

Como se sabe, há alguns anos – para continuar exemplificando – as autoridades lançaram uma campanha contra a corrupção administrativa e estatal. Porém, pouco se informa, por vias oficiais, sobre seus resultados, e menos ainda de seus episódios mais notáveis, ainda que – e essas mesmas autoridades não podem deixar de sabê-lo – esses resultados se filtram para a população por caminhos tortuosos.

É o caso de várias operações policiais e fiscais que, em dispositivos portáteis de armazenamento de dados, circulam de mão e mão com os casos, entre outros, do “personagem dos serviços comunitários” ou “dos dirigentes do supermercado da rua Carlos III”, como vão sendo chamados pelos cidadãos, que alternam a visão de materiais fílmicos das operações policiais com os da telenovela do momento.

Por que não informar mais sobre uma campanha que interessa e diz respeito a todos? A corrupção é apenas um problema de interesse policial ou também é uma ferida social que deve ser discutida entre os afetados?

E como funcionará a chamada Zona Especial de Desenvolvimento do Mariel (ZEDM), “chamada a ser um importante polo de atração de investimento estrangeiro e ao mesmo tempo em polígonos de experimentação de modernas tecnologias e métodos de gestão empresarial”, nas palavras de Raúl Castro, durante o encerramento da sessão parlamentar?

Quais passos se pode, se pensa, são dados para uma desejada normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos com vistas a “restabelecer uma relação civilizada entre os dois países, como deseja nosso povo e a ampla maioria dos cidadãos norte-americanos e a emigração cubana?

O roteiro desta história parece incluir o suspense. No momento, só nos resta imaginar como se desenvolverá a trama que segue, até que sejam revelados os segredos, tal como nos ensinaram os velhos professores das radionovelas cubanas do século passado. Nós cubanos estamos treinados nesses exercícios. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual.

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