Cuba cresce ou não cresce?

Leonardo Padura. Foto: http://pt.wikipedia.org/

Leonardo Padura. Foto: http://pt.wikipedia.org/

Havana, Cuba, março/2014 – Os mais recentes vizinhos estabelecidos em meu bairro são beneficiários de uma das mudanças introduzidas pelo governo de Raúl Castro como parte da chamada “atualização do modelo econômico cubano”.

Eles eram uma das famílias que, por uma razão ou outra, viveram durante anos em albergues coletivos e por fim tiveram a sorte de receber um dos milhares de locais, onde antes funcionavam escritórios governamentais, e que foram transformados em moradias, como forma de diminuir o déficit de casas.

Esses vizinhos, que não pagaram, nem podiam pagar, nada pelo imóvel que lhes foi entregue, vivem de um dos ofícios mais modestos que se pratica na ilha: coleta de papel, papelão, vidro e alumínio, que depois vendem a centros coletores de matérias-primas recicláveis.

Como sua atividade trabalhista não é suficiente para se manterem, esses vizinhos beneficiados com a destinação de uma moradia digna e gratuita, agora estão dividindo a habitação para vender uma parte, amparados em outra mudança introduzida pelo governo: a da livre compra e venda de imóveis.

Dessas e de muitas outras maneiras os cubanos tentam melhorar sua vida, embora no fundo a estejam piorando, vendendo o pouco que têm ou realizando qualquer manejo econômico mais ou menos legal (ou ilegal) que lhes dê dividendos. A raiz mais visível do problema é que os cubanos, sobretudo se trabalham para o Estado, não ganham o suficiente para sobreviver.

Por isso, os que não têm um familiar no estrangeiro que os ajude com algum dinheiro, ou um membro do clã que de alguma forma tenha acesso a ganhos em moeda forte, cada dia de sua vida devem contar seus centavos para atender as necessidades básicas, como alimentação e higiene.

Mas o terreno no qual está incrustada a aparente raiz do problema não é, na realidade, o valor de mudança dos salários, ou seja, sua capacidade aquisitiva.

O mar de fundo está na macroeconomia que, apesar das mudanças introduzidas, não consegue decolar e se mantém em crescimentos anuais que se movem pouco acima dos 2%.

É um número que está abaixo do que se esperava, ao pôr em movimento o paralisado sistema econômico cubano, e que também está abaixo dos níveis capazes de garantir um crescimento em condições de reverter a tensa situação em que vivem os cidadãos.

Nem em quantidade nem em qualidade seus salários são suficientes para a satisfação dessas necessidades básicas… para não falar de luxos inconcebíveis para milhões de cubanos: ir a um restaurante, por exemplo.

A recente abertura da primeira fase da Zona Especial de Desenvolvimento de El Mariel, com seu terminal para supernavios e contêineres, é considerado o primeiro passo para se começar a sonhar com crescimentos que – segundo os economistas, só se ultrapassarem os 5% anuais – poderão iniciar uma mudança substancial na situação do país.

A esperada nova lei de Investimento Estrangeiro, que talvez coloque essas atividades em níveis similares aos criados para El Mariel, poderia também contribuir para uma melhoria da macroeconomia com a entrada de capitais frescos e produtivos no país, se as condições de investimento, segurança e propriedade, entre outras, realmente tornarem atraente montar em Cuba algum tipo de negócio, algo que hoje não ocorre.

Em Mariel funciona, em essência, uma zona franca com facilidades para investimento, pagamento de impostos, comercialização de produtos, etc.

Um sinal estranho de para onde poderiam ir as quantidades e qualidades dos investimentos estrangeiros em Cuba foi enviado pelo próprio governo, quando, em janeiro deste ano, decidiu abrir o mercado de venda de veículos automotores no país, fixando tarifas astronômicas e desproporcionais aos automóveis novos e de segunda (ou quarta mão) colocados no mercado.

Modelos de Peugeot de 60 mil euros tarifados em mais de um quarto de milhão de dólares não é precisamente uma demonstração de boa vontade com os potenciais investidores, além de ser um desdém pelos cubanos (quase sempre profissionais que com seu trabalho produzem importantes ganhos para o país), que por uma ou outra via haviam obtido o capital necessário para comprar carros que, antes da “abertura” do mercado, já eram suficientemente caros em comparação com os preços praticados em outras partes do mundo.

E o fato de que pouco se tenha vendido carros, ou a indignação expressa por muitas pessoas, não alterou seus preços, como se supõe deve ocorrer em qualquer mercado ou país.

Embora não seja economista nem pretenda sê-lo, creio que as contas econômicas em Cuba são tão obscuras que ao final conseguem ser muito claras: se não se encontra vias seguras e eficientes de crescimento, a situação do país e de seus cidadãos não mudará no essencial.

Ainda que uma pequena quantidade de cubanos convertidos em microempresários possa estar fazendo algum dinheiro, sua prosperidade é muito relativa e apenas significativa se comparada com a forma em que vivem e resolvem os problemas meus vizinhos do bairro e outras milhares de famílias como eles.

E o problema que se apresenta com relação ao futuro econômico e social do país seria saber como o capital estrangeiro atuará efetivamente no desenvolvimento do país e, sobretudo, o grande mistério: como os 11 milhões de residentes da ilha poderão se inserir em uma sociedade mais mercantilizada e competitiva.

Será vendendo o único que lhes resta, ou seja, sua força de trabalho, como alerta a filosofia marxista na qual se fundamenta a política oficial cubana? Por enquanto essa obscura perspectiva também parece clara. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura, escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual. 

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