A cascavel e o gato

Leonardo Padura. Foto: Cortesia do autor

Leonardo Padura. Foto: Cortesia do autor

Havana, Cuba, abril/2014 – Há anos os cubanos formularam uma máxima para descrever sua relação trabalhista com o Estado: você (o Estado) faz de conta que me paga, e eu (o cidadão) faço de conta que trabalho.

Dessa forma tão sintética e precisa se resume a reciprocidade dos trabalhadores com os salários irrisórios, totalmente insuficientes, que recebem por sua condição de operários, técnicos e profissionais dependentes do principal empregador existente no país, ou seja, o Estado.

Mas, além disso, o ditado popular reflete algo mais profundo e grave do que uma questão de sobrevivência ou de defesa.

Seus resultados repercutem em assuntos tão vitais para a economia nacional como a baixa produtividade e a ineficiência trabalhista, o êxodo de determinados setores e do país, a baixa qualidade da produção e dos serviços, e até a corrupção e o “desvio” de recursos por muitos dos que podem levar algo (tempo, dinheiro, materiais) de seus locais de trabalho e melhorar com isso suas condições de vida.

Contudo, seguindo com a lógica das consequências do enunciado, haveria inclusive que ir um pouco mais além, porque as posições atribuídas, na sentença famosa, aos empregados e ao Estado também são o reflexo de uma forma de viver dos primeiros e de governar do segundo, na qual parece ter se imposto uma quebra da comunicação em um e outro sentido. Como se jogassem uma partida de futebol com duas bolas… ou com nenhuma.

Essa ruptura de comunicação, ou de falta de códigos de entendimento, não significa, naturalmente, falta de controle.

Pelo contrário: o Estado continua sendo todo poderoso enquanto forma um sólida trindade com o governo e o partido único e, por fim, tem em seu arbítrio quase todas as decisões, não só macro, mas inclusive muitas que afetam a vida pessoal dos indivíduos, entre elas sua capacidade econômica de consumo e seu nível de vida.

Para a maioria das pessoas que dependem de salários estatais, os valores fixados para a venda “liberada” de automóveis são como ver o filme Guerra nas Estrelas, em que seres estranhos falam de coisas incompreensíveis.

O Estado decide em Cuba quais atividades podem ser realizadas à margem de sua tutela e, com uma lei tributária de elevadas porcentagens, quase até o que pode ganhar os que não trabalham diretamente para ele, ou seja, os trabalhadores por conta própria.

Além disso, os preços de todos os produtos (incluídos os que não são vendidos na rede comercial oficial, que tomam como referência os preços oficiais) têm cotas fixadas pela direção econômica do país nos níveis que eles decidem ou necessitam, que em muitas ocasiões (às vezes até justificadas por preços internacionais de certos produtos) estão divorciados da realidade econômica do cidadão.

Nesse jogo estranho, que se converteu em alarmante e quase que permanente desde os anos da crise profunda da década de 1990, o nível de vida da maioria dos cidadãos do país caiu em queda livre toda vez que, mesmo com os salários em certas ocasiões duplicando ou triplicando, o custo de vida aumentava dez, vinte e até mais vezes.

Basta, como medida de todas as coisas, recordar que, enquanto o salário médio gira em torno de 500 pesos, o preço que um trabalhador deve pagar por uma libra de carne de porco (em certas ocasiões a única proteína animal à qual tem acesso) subiu de cinco pesos no mercado paralelo dos anos 1980, para os 30, 35, 40 em que é cotada hoje em dia, segundo sua qualidade. Algo como a décima parte de um salário apenas por meio quilo de carne de porco…

Tudo o que o Estado ou os mercados alternativos ofertam à população vem gravado com essas elevadas tarifas.

Por isso, para a maioria das pessoas que depende de salários estatais, a simples alta dos preços dos produtos de higiene pode se converter em uma tragédia mensal, enquanto os números fixados para a venda “liberada” de automóveis são como ver o filme o Guerra nas Estrelas, em que seres estranhos falam de coisas incompreensíveis.

O Estado cubano reconhece que os salários são insuficientes para pagar o custo de vida. Também repete que enquanto a produtividade e a eficiência da economia doméstica não aumentarem será impossível elevar as cifras salariais para toda a massa de empregados públicos e operários.

Mas a realidade dos dois reconhecimentos segue em carros opostos na circunferência da estrela do parque de diversões (que para nada resulta divertido): é impossível que um alcance o outro, a menos que se mude muito a estrutura fixada.

E, enquanto isso não ocorre, enquanto não houver a correspondência e o entendimento necessários, continuarão se manifestando a ineficiência, a baixa produtividade, a displicência e a indolência que se nota em diversas esferas da atividade trabalhista estatal cubana.

Muitos continuarão fingindo que trabalham sem trabalhar, roubando o que puderem ou emigrando atrás do dinheiro que lhes possa pagar outras tarefas… ou outros empregadores, dentro ou fora do país. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e seu mais recente romance, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual.

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