“Fugi e fiquei viva, minha filha enfrentou e morreu”

Em entrevista à Pública, Sônia Samudio narra a história de violência que marcou sua vida e a da filha, Eliza, vítima de feminicídio – um crime que mata uma mulher a cada 90 minutos no Brasil

Quando dona Sônia entra na sala, minha garganta dá um nó. A semelhança entre ela e a filha é impressionante. Por vezes, durante nossas conversas, tenho a sensação de que é a própria Eliza Samudio, mais velha, quem relembra a barbárie a que foi submetida por ter tido “a audácia” de engravidar de um encontro sexual casual com um jogador de futebol famoso.

Mas não é só fisicamente que Sônia e Eliza se parecem. Também as histórias de violências sofridas por mãe e filha se encontram em muitos momentos. “A diferença é que eu fugi e fiquei viva e a minha filha enfrentou e morreu”, diz Sônia, tentando secar as lágrimas que teimam em cair, quase sete anos depois do assassinato da filha.

Na época, o crime ganhou muita atenção da mídia e da sociedade, um tanto por causa das personagens – um jogador de futebol famoso, goleiro titular do Flamengo, uma modelo, fã de futebol que havia participado de filmes adultos, um amigo obcecado, um ex-policial sanguinário, ex-esposas e namoradas – e outro tanto pela crueldade do crime: sequestro, assassinato a sangue-frio e ocultação do corpo, provavelmente esquartejado e jogado aos cães do executor, segundo o depoimento de Jorge Luiz Rosa, primo de Bruno e principal testemunha do caso. A opinião pública se dividiu entre os que achavam que Eliza não passava de uma “Maria chuteira”, uma atriz de filmes pornôs que só queria se aproveitar da fama e do dinheiro do “talentoso jogador” e, portanto, “merecia” morrer; e os que viram em Bruno um “monstro”, um “assassino de sangue-frio”, alguém à margem da sociedade. Não se tocou na palavra exata para descrever o crime: feminicídio. É esse o nome do assassinato de mulheres em contextos marcados por desigualdade de gênero, considerado crime hediondo no Brasil desde 2015. Por dia no país acontece um feminicídio a cada 90 minutos, 5 espancamentos de mulheres a cada 2 minutos e 179 relatos de agressão. Esses dados estão compilados, com definições, informações e análises importantes, no livro Feminicídio #invisibilidademata, lançado no último dia 30 pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo.

Segundo Sônia, o sonho de Eliza desde criança era ser modelo (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

Quando Bruno foi solto por uma liminar concedida no habeas corpus 139612 pelo ministro do STF Marco Aurélio –, dona Sônia assistiu estarrecida às cenas do assassino de sua filha posando para fotos com fãs e dando entrevistas sorridentes a repórteres que evitavam perguntas desagradáveis. O assunto era futebol: ele havia sido contratado pelo time de futebol Boa Esporte Clube, de Minas Gerais (que está pagando um alto preço pela aquisição). Nenhuma pergunta sobre o crime que levou a filha dessa mulher pequena e magra que desde então tem perdido peso, noites de sono e até a concentração para fazer os doces e salgados que vende para complementar a renda da família: “Eu emagreci 27 quilos na época [desaparecimento e morte de Eliza], mas consegui recuperar 16 com tratamento. Essa semana emagreci mais três. Volta tudo, não estou conseguindo dormir nem trabalhar”, conta.

Enquanto vemos fotos antigas no sofá da casa de sua comadre, ela diz também temer por sua vida e a do neto. Conta que recebe ligações no meio da madrugada, vindas de números desconhecidos, e vê carros estranhos passeando por seu bairro. Lembra que na época do julgamento recebia ligações dizendo que um rolo compressor iria passar sobre sua cabeça, que era para ela desistir do processo, pra não medir forças. “Mas minha maior preocupação hoje é com o Bruninho”, diz, referindo-se ao filho de Eliza e Bruno, que ironicamente herdou o nome do pai.

Sônia cuida do neto desde a morte da filha, tentando protegê-lo da própria história para salvar sua infância. Por segurança, nossos dois encontros ocorreram longe do menino e de sua casa. “Quando ele [Bruno] diz que 300 anos em prisão perpétua não vai trazer a vítima de volta, minha filha é essa vítima, assassinada, dada aos cães. Eu não pude enterrar seu corpo, não sei se isso vai me ser dado um dia, se a Justiça vai conseguir fazer eles falarem o que fizeram com o corpo da minha filha. Mas meu neto vai ter que viver com essa dúvida também? Se pra mim é difícil, imagino pra ele. Porque na vida dele existe um peso a mais: foi o pai que matou a mãe. Eu tento proteger sua inocência e sua infância, mostro foto da mãe, digo que ela virou uma estrela no céu, em casa a gente não liga a televisão, ele tem contato com poucas pessoas. Mas em algum ponto ele vai saber o que aconteceu e eu temo por esse momento.”

Isso tudo a mãe de Eliza tem dito à imprensa. O que ela raramente conta é que, assim como aconteceu à filha, seu companheiro também queria que ela abortasse de Eliza. Foi contra Bruno que a filha registrou um boletim de ocorrência no dia 13 de outubro de 2009 dizendo que, além de sofrer ameaças, confinamento e agressão – comprovada em exame de corpo de delito –, ele a obrigou a engolir vários comprimidos para abortar. Eliza pediu medida protetiva para ela, sua família e amigos e gravou esse vídeo assustador em que praticamente anuncia sua morte, incluindo nomes de alguns de seus futuros algozes. Nem a mãe nem ela tiveram ajuda efetiva do Estado, da polícia ou da Justiça.

À esquerda, o boletim de ocorrência registrado por Eliza; à direita, o laudo do exame de corpo de delito a que foi submetida (Foto: Agência Pública)

O pedido de medida cautelar de Eliza foi negado pela juíza titular Ana Paula Delduque Migueis Laviola de Freitas. Segundo essa reportagem do jornal O Globo, a juíza disse que Eliza, por não manter nenhum tipo de relação afetiva, familiar ou doméstica com o jogador, não podia se beneficiar das medidas protetivas nem “tentar punir o agressor”, “sob pena de banalizar a finalidade da Lei Maria da Penha”. A denúncia de Eliza ficou parada na Justiça, assim como o processo com o pedido de alimentos gravídicos e posteriormente de pensão para o filho. A contestação de Bruno à ação de alimentos movida por Eliza diz coisas como “a autora já vinha tentando manter relações com atletas de futebol profissionais há muito tempo provavelmente com objetivos financeiros”; “a autora manteve relação sexual com o réu na primeira vez em que se conheceram […], o que pode revelar sua conduta nada reservada. Se assim fez com o réu provavelmente faz e fazia com outros homens”; “na época dos fatos narrados na inicial, ao contrário do que expôs na inicial, a autora trabalhava em filmes pornográficos de baixíssimo nível”. Também diz no documento que a denúncia a respeito da tentativa de aborto é “mirabolante” e que “o réu acredita que a autora possa ter ingerido tais comprimidos por ter certeza que o filho que espera não é dele”.

Trecho da contestação da defesa de Bruno à ação movida por Eliza (Foto: Agência Pública)

Como a filha, dona Sônia poderia ter entrado para a estatística caso não tivesse fugido de seu agressor de Foz do Iguaçu para o Mato Grosso do Sul. “A imprensa, as pessoas e até mesmo o próprio Bruno me julgam muito, dizendo que eu não criei a minha filha e que eu choro lágrimas de crocodilo na frente das câmeras, mas ninguém sabe da minha história, ninguém sabe o que eu passei. O pai da Eliza era violento, eu fugi dele pra não morrer” diz. Ela conta que foi morar com Luiz Carlos Samudio ainda muito jovem, aos 17 anos, e que, além da insistência pelo aborto que ela não fez, as agressões continuaram até que, quando Eliza tinha por volta de 4 anos, não aguentou mais e fugiu, pensando em arrumar um trabalho, se estabelecer e então buscar a filha pra viver com ela. Durante esse tempo, pediu a familiares para que cuidassem da menina e ia vê-la escondida sempre que podia, com medo do ex-marido. “Quando eu já estava melhor, fui pegar a Eliza pra morar definitivamente comigo. O pai dela, então, me disse que me entregaria ela, mas me entregaria aos pedaços.” Nessa hora, dona Sônia não consegue mais conter o choro. “É difícil pra uma mãe, sabe? Fazer uma escolha dessas.” A amiga que a recebeu no Mato Grosso, cujo nome vamos preservar, diz: “Se você soubesse o jeito que ela chegou aqui… Machucada, com medo, mal falava”.

Para Eliza, a infância também não foi fácil. Seu pai, com quem morou a maior parte da vida, está foragido da Justiça desde que sua prisão provisória foi expedida em 12 de maio de 2011, em processo que responde por abuso sexual contra a filha caçula, na época com 10 anos. A condenação, por oito anos de prisão em regime fechado, ocorreu em 2005, foi contestada e teve recurso negado pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Dona Sônia suspeita que Eliza também possa ter sofrido abuso do pai, já que a filha pediu para se mudar para a casa dela no Mato Grosso quando tinha 14 anos sem dar muitas explicações e sem querer falar com o pai. Mas aos 16, diante da insistência de Luiz Carlos e das promessas de que faria um book e a colocaria em contato com agências – o sonho de Eliza desde menina era ser modelo –, ela acabou voltando para Foz do Iguaçu e depois fugiu para São Paulo, sozinha, aos 18 anos, sem que nenhum dos dois soubesse de seu paradeiro por quase um ano.

Sônia mostrou à reportagem diversas fotos antigas. Nesta, Eliza aparece carregando o filho (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

O estupro de crianças e adolescentes por pais e parentes próximos também não é raro. Levantamento do Ipea, feito com base nos dados de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), mostrou que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes. Segundo a mesma pesquisa, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2%, amigos ou conhecidos da vítima.

Quando Eliza se envolveu com Bruno, dona Sônia não ficou sabendo. As duas se falavam apenas por telefone e a filha seguia sua vida morando na casa de amigas em São Paulo e, depois da gravidez, se dividia entre São Paulo e Rio de Janeiro, em hotéis pagos por Bruno, reivindicando os direitos do filho que carregava no ventre, em uma negociação conturbada. “Ela estava desempregada, queria proteger o filho. Diziam que ela era culpada da própria morte por ter feito as coisas, os filmes. Se a mulher arruma um amante é vagabunda, mereceu. Se o homem arruma amante é pegador”, diz dona Sônia.

Uma a cada três mulheres sofre violência de gênero

A médica e professora do departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP Ana Flávia d’Oliveira participou da pesquisa que deu base ao livro Feminicídio #invisibilidade mata. Ela falou à Pública sobre como as histórias de Eliza e Sônia se relacionam com a violência de gênero cotidiana.

Uma em três mulheres já sofreu ou ainda vai sofrer algum tipo de violência física ou sexual no mundo, 50% delas por parceiros. Por isso, a violência a que Eliza e sua mãe foram submetidas, infelizmente, não me surpreende. 30% da população é muita coisa. Dessa violência, a maior parte é grave – e o que a gente considera grave nas nossas pesquisas com a OMS é quando tem agressão física de soco em diante. Estrangulamento, ameaça com arma de fogo ou arma branca. E essa violência é preocupante tanto pela gravidade dos episódios quanto por sua continuidade; ela é cotidiana. Acho que nesse caso da Eliza especialmente, ficam evidenciados questões de gênero e o controle da sexualidade feminina. Porque a sexualidade feminina continua sendo legitimada apenas dentro de um casamento monogâmico e todas as formas de expressão que saiam desse padrão ainda são estigmatizadas pela sociedade. Isso se expressa claramente quando a juíza não deu para ela a medida protetiva pelo fato de não ter uma relação estável com o pai do filho, por exemplo. Acho que, quando mãe e filha são coagidas ao aborto, isso mostra a dificuldade que ainda temos em obter direitos sexuais e reprodutivos e como isso também está ligado com a violência. Temos ou homem que quer forçar a mulher a interromper a gravidez ou o que quer forçar a mulher a ter o filho, em uma sociedade em que o encargo da reprodução segue majoritariamente das mulheres. Uma mãe, por exemplo, que abandona um relacionamento abusivo e não consegue levar as crianças porque não é fácil, como foi o caso de Sônia, perde a legitimidade social sobre aquelas crianças. Um pai que abandona os filhos porque não quer mais é cobrado muito pouco ou nem é cobrado. Eu acho que de fato tratar esse crime como exceção e tratar esse sujeito como um monstro é uma tentativa de tirá-lo fora da sociedade, desumanizá-lo e não perceber que ele faz parte de nós e que, em graus maiores ou menores, essa violência acontece cotidianamente em uma parte enorme das famílias. A morte da Eliza diz o que pode acontecer com as mulheres que correm atrás dos seus direitos. Esses casos, quando se tornam públicos, surtem um efeito terrível! Eu atendo mulheres em situação de violência e elas dizem ‘mas não adianta ir pra Defensoria, ir pra delegacia. Você viu o que aconteceu com fulana?’. Toda a publicidade desse caso, cada caso em que a mulher morre por fugir de uma situação de violência ou em que tentou pedir pensão alimentícia calam muitas mulheres por medo. E não é um medo irracional. Mesmo o fato de ele ter sido solto é muito complexo. Se ela ganhava dinheiro com sexo ou não, como ela ganhava a vida ou com quantos homens ela dormiu não faz a menor diferença no seu direito a pensão e ao reconhecimento da paternidade. A única coisa que tiraria esses direitos seria se o filho não fosse dele. Como ela vivia a sexualidade é outro assunto. E ela não pode nem ser acusada de não ter ido atrás dos seus direitos porque fez B.O., pediu medida protetiva, pediu pensão alimentícia, acionou os mecanismos legais. Esse caso é de uma injustiça extrema e choca principalmente pelo que fizeram com o corpo, mas, quando fizeram aquela barbaridade, ela já estava morta. O que me choca é a decisão de matá-la, e a decisão de matar é a decisão cotidiana de um monte de homens! Alguns conseguem e outros não.”

Após registrar o B.O. em outubro de 2009, Eliza voltou para São Paulo. Não compareceria à audiência da ação de alimentos por estar com 39 semanas de gravidez, com medo e sem dinheiro para se locomover, como explica em e-mail enviado à sua advogada (confira abaixo).

E-mail que Eliza enviou à advogada explicando porque não havia comparecido à audiência (Foto: Agência Pública)

Alguns meses depois, em meados de julho de 2010, a imprensa falaria de seu sumiço e passaria a revelar os detalhes sórdidos de sua morte. Dona Sônia saberia da morte de Eliza pela televisão, em uma cena emblemática: seu ex-marido, aquele de quem fugiu e que ela achava que estava morto, segurava seu neto, que até então não conhecia, no colo. “Fiquei sabendo da morte da minha filha, do nascimento do meu neto, que meu ex-marido estava vivo e com o bebê tudo ao mesmo tempo. Fiquei sem chão”, lembra. Quando soube da morte da filha, Luiz Carlos, que até então ainda recorria do processo, se apresentou como familiar do bebê. “No último telefonema de Eliza, ela dizia que tinha uma coisa pra me contar e eu sempre brincava: ‘Ó tá chegando meu neto!’. Ela dizia: ‘Mãe, quando eu tiver um filho, eu mato e morro, mas não deixo meu filho pra trás’. Isso toda vida ela falou. Então, quando a Elisa sumiu, eu tinha certeza que ela estava morta.” Quando soube do neto, Sônia criou a coragem que nunca teve e pediu para a advogada entrar com o pedido de guarda de Bruninho. “Ele [Luiz Carlos] achava que eu nunca teria coragem de enfrentá-lo, mas eu tive. Antes eu não teria. Mas hoje estou mais forte. Fomos pra Foz do Iguaçu eu e a Dra. Maria Lúcia e entramos com o pedido. Quando o Bruninho chegou, eu fui por trás da pessoa que estava carregando ele e levantei assim o cobertor da carinha dele. Ele abriu um baita sorriso. Daí peguei ele no colo e ele se aninhou, esfregou a cabecinha em mim, foi um momento meu, sabe?”, lembra emocionada. “Meu neto poderia ter morrido três vezes. A primeira ainda no útero da mãe. A segunda quando levaram Eliza pra morte e iam matar ele também, mas ficaram com dó. E a terceira quando deixaram ele em Minas com desconhecidos. Quando a polícia o encontrou, ele estava sujo, com fome. Se não tivessem encontrado, será que ele estaria aqui?”, pergunta. Para o futuro, a mãe de Eliza diz que quer duas coisas: cuidar do neto em paz e um dia poder enterrar os restos mortais da filha. Se os assassinos de Eliza um dia confessarão o paradeiro do corpo não é possível dizer. Certo é que a violência, as torturas físicas e psicológicas, a condenação pela opinião pública e pela própria imprensa e, por fim, o assassinato brutal de Eliza Samudio não se deram apenas nesse caso.

Dona Sônia diz querer apenas duas coisas para o futuro: cuidar do neto em paz e enterrar os restos mortais da filha (Foto: José Cícero da Silva/Agência Pública)

Bruno não é um monstro nem se aproxima da exceção, ao contrário do que seria muito mais confortável acreditar. Ou, como diz a psicanalista Maria Silvia Bolguese: “A modelo, o jogador de futebol, são lugares cristalizados na sociedade, quase clichês. E eles foram atores que não conseguiram escapar de um tipo de lógica que funciona muito na base da violência e da opressão. A história da Eliza e do Bruno é horrível socialmente também porque é a repetição de 1 milhão de histórias iguais, mas tem o desserviço de ser uma história pública que a sociedade não quer analisar de jeito nenhum. Vai-se tentando pôr para fora, à margem, fazendo deles outros, quando na verdade eles são caricaturas, ampliações. Esse caso é um tapa na cara da sociedade”. (#Envolverde/ Agência Pública)

“É preciso declarar guerra ao desmate”

Por Claudio Angelo, do OC –

Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas retoma atividades em março após anos na geladeira no governo Dilma; secretário-executivo defende repressão na Amazônia.

Alfredo Sirkis nunca foi conhecido por estar do lado dos vencedores na história. Mas seu novo emprego é uma bucha até mesmo para alguém que participou da luta armada, fundou o Partido Verde, foi deputado federal na minguada bancada ambientalista e engajou-se nas campanhas de Marina Silva: Sirkis é o secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, criado para discutir o tema no governo federal. Entre suas tarefas está a de tentar soprar a agenda de clima no ouvido de ninguém menos que o presidente Michel Temer.

O fórum surgiu em 2000 para ser um órgão de assessoramento do Presidente da República. Teve seu período áureo no governo Lula, quando seu então secretário, o físico Luiz Pinguelli Rosa, liderou as discussões que culminaram no Plano Nacional de Mudanças Climáticas, em 2008.

A partir de 2011, sob Dilma Rousseff, o colegiado foi essencialmente jogado às traças. Dilma reuniu-se com o fórum apenas duas vezes em cinco anos – e, na primeira, em 2012, declarou de maneira célebre que energias renováveis eram “fantasia”. “Os processos decisórios passavam totalmente ao largo do fórum”, lembra Sirkis. Mesmo assim, Pinguelli renunciou ao posto em maio de 2016, em protesto contra o impeachment. O fórum ficou seis meses acéfalo – mas pouca gente percebeu.

Aos 66 anos, o jornalista e político carioca, que se diz um filiado “não-praticante” do PSB, assumiu o secretariado do fórum novembro, num momento dramático para a agenda de combate ao aquecimento global. Após saborear a vitória em 2015 com o Acordo de Paris, o mundo encara uma perspectiva de retrocesso significativo com Donald Trump nos EUA.

No Brasil, não há até o momento nenhuma indicação de que Temer vá dar mais prioridade ao assunto do que sua antecessora. Ao contrário: da Casa Civil, cujo ministro-chefe é investigado por variados crimes ambientais, têm vindo tentativas de torpedear essa agenda, como um sinal verde para a aprovação de um projeto de licenciamento ambiental feito pela bancada ruralista e uma recepção amigável a uma proposta que pode liberar 1 milhão de hectares na Amazônia à grilagem. Todas essas medidas vão na contramão dos compromissos brasileiros de corte de emissões. Há risco de retrocessos na demarcação de terras indígenas (importantes para conter o desmatamento e as emissões) e no Código Florestal.

A principal conquista brasileira no clima, a redução da taxa de desmatamento na Amazônia, também começa a virar abóbora: a devastação cresceu 60% nos últimos dois anos e, segundo dados recentes do Imazon, já é maior no período de agosto de 2016 a janeiro de 2016 do que no mesmo período anterior.

“É preciso declarar guerra ao repique do desmatamento”, afirma Sirkis, ao ser questionado sobre suas prioridades à frente do fórum. As nove câmaras temáticas do colegiado começam a se reunir em março, e o secretário-executivo pretende iniciar os trabalhos com debates sobre florestas. De imediato, ele afirma ser a favor de um aumento nas ações de repressão. “Está claro que há um aproveitamento oportunista da fraqueza do Estado brasileiro, que foi sinalizada pela crise institucional, pela crise nos Estados.”

Para ter qualquer peso, porém, o fórum terá de conquistar a atenção de Temer, com cujo governo Sirkis afirma não ter ligação política. O secretário diz que o presidente garantiu presença na primeira plenária do fórum, que deve acontecer ainda neste semestre.

Alfredo Sirkis durante a Marcha pelo Clima no Rio, antes da COP21. Foto: arquivo pessoal

 

Leia a seguir a entrevista que Sirkis concedeu ao OC.

Ao longo de toda a história do fórum, sua relevância tem sido dada pelo grau de prioridade que o Presidente da República atribui ao assunto. Como o sr. acha que será com Temer, já que até aqui ele não tem demonstrado atenção à mudança do clima?

O fórum foi criado, em 2000, no governo FHC, e o Fabio Feldmann foi seu secretário-executivo. Reunia-se com frequência, o presidente comparecia com alguns ministros e discutia diretamente conosco. No governo Lula, o fórum teve, mais que relevância, visibilidade, porque em algumas ocasiões o presidente usou-o para fazer anúncios importantes com a Marina e depois o Carlos Minc.

No governo Dilma o fórum teve menos visibilidade e alguns momentos bizarros, como aquele discurso dela descascando em cima das energias limpas. Os processos decisórios passavam totalmente ao largo do fórum, mesmo aqueles que foram conduzidos a bom termo, como o resultou na nossa INDC [Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida, hoje apenas NDC] e que foi bem conduzido, ao final, pela Izabella Teixeira.

Na conversa que tive com o Temer, quando aceitei a indicação, no dia da ratificação [do Acordo de Paris, em 12 de setembro], notei que ele, embora não conhecendo a fundo o assunto, lhe atribuía importância. Tinha acabado de estar no G20 e percebera a centralidade do clima nos discursos dos outros chefes de Estado. Percebi um interesse em conhecer mais, ouvir. Isso é melhor do que tentar interagir com quem já sabia tudo, não é?

O fórum não se reúne com o presidente desde o primeiro mandato de Dilma e ficou acéfalo por quase seis meses. Quais foram os prejuízos decorrentes dessa inatividade?

Perdemos tempo no que é a grande missão do fórum, que é criar as bases para um novo tipo de governança climática mais eficiente e participativa e que siga uma estratégia coerente, um roadmap que nos é dado pelo Acordo de Paris, pela nossa NDC e por certos desafios de adaptação que devemos enfrentar.

Quais são as suas prioridades à frente do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas?

Quero envolver o fórum no processo de uma nova governança climática participativa. Para isso temos de começar de baixo para cima, a partir das câmaras temáticas com uma agenda comum a todas e muito clara.

A agenda é: 1) Que ações de curto prazo, como o enfrentamento imediato do repique do desmatamento? 2) Implementação da NDC em cada setor da economia. 3) Primeiro ciclo de revisão da NDC. 4) Estratégia de descarbonização drástica para a segunda metade do século. 5) Questões de adaptação relativas a cada setor. 6) Questões de inovação tecnológica e financiamento da transição para a economia de baixo carbono/carbono neutra.

A primeira plenária será neste semestre ainda, e terá que responder ao primeiro ponto, que são ações de curto prazo, e aí volto a insistir: é preciso declarar guerra ao repique do desmatamento.

De que forma?

A curto prazo tem de ser por meio de operações de repressão. Porque está claro que há um aproveitamento oportunista da fraqueza do Estado brasileiro, tanto na esfera federal quando na estadual, que foi sinalizada pela crise institucional, pela crise nos Estados. A curto prazo tem de haver retomada das operações do Ibama juntamente com a Polícia Federal, se necessário com apoio das Forças Armadas. A médio prazo é evidente que são necessários mecanismos econômicos, sobretudo nas áreas onde existe a possibilidade do desmatamento legal, como o cerrado. Ali tem de haver pagamento por serviços ambientais.

O sr. defenderá desmatamento zero no fórum?

Eu estou lá para fomentar a discussão e apresentar as propostas que sejam consensuadas nas câmaras temáticas. A câmara temática de florestas e agropecuária, terá liderança da Coalizão [Brasil Clima, Florestas e Agricultura]. Teremos um grupo que terá todos os lados do segmento e que vai produzir determinados posicionamentos, que eu vou defender como coordenador do fórum. Agora, eu, pessoalmente, sou favorável. Mas minha posição pessoal não será a que vai necessariamente prevalecer.

O país tem uma governança de clima em tese muito boa, com uma política nacional, um plano nacional, um comitê interministerial chefiado pela Casa Civil. Na prática, porém, o Ministério do Meio Ambiente faz quase tudo sozinho. Fracassou a tentativa de tratar o clima como tema transversal?

No período anterior alguns ministérios se boicotavam mutualmente e disputavam poder entre si. E a parte mais decisiva do governo, a área econômica, passava – e ainda passa – totalmente ao largo da questão climática. A cúpula da Fazenda, do Banco Central, do BNDES, os outros bancos públicos, do planejamento, todos têm que estar profundamente envolvidos com a questão da mudança climática. Não é uma questão meramente “ambiental”: ela é de desenvolvimento, ela é civilizatória.

Há uma guerra de facções no governo em relação ao inventário de emissões do Brasil, feito pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e questionado pelo Meio Ambiente. Como o fórum pode mediar esse conflito?

Antes de assumir o fórum eu já estava tentando fazer esse meio de campo. Antes, eu tinha uma dificuldade no MCTI com o Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Embora no passado ele tenha manifestado posições negacionistas climáticas, não tentou imprimir essa orientação e o ministério bancou dois excelentes trabalhos, o 3o Inventário e o Opções de Mitigação, coordenado pelo Prof. Roberto Schaeffer. Houve, no entanto, uma disputa de espaço de Aldo com Izabella e havia também uma questão pessoal entre as duas equipes técnicas do MMA e do MDIC que precisa ser superada, pois ambas são constituídas por técnicos de primeiríssima qualidade. O fórum pode de fato ajudar a superar essas questões, que demandam um mediação sensível, respeitosa e inteligente.

O Brasil tem, pela primeira vez, um plano nacional de adaptação, mas este não dialoga com o Brasil 2040, o principal estudo sobre vulnerabilidade da economia brasileira à mudança do clima. Como incorporar o 2040 ao planejamento de governo e dar dentes ao plano de adaptação?

Teremos um subfórum só para adaptação, incorporando o dever de casa de adaptação setorial de cada uma das câmaras temáticas e fazendo uma síntese de longo prazo. Adaptação abarca uma infinidade de questões, e a maioria delas exige uma concertação com os níveis regional e local. O Brasil 2040 precisa de fato orientar a ação nacional de adaptação.

O sr. é o principal defensor no Brasil da chamada precificação positiva do carbono, que diz ser o único jeito de mobilizar finanças em quantidade suficiente para atingir as metas do Acordo de Paris. É possível falar nisso sem falar em preço de carbono no Brasil?

Penso que as duas modalidades de precificação são necessárias e complementares. A precificação “real”, na qual atribuímos preço à tonelada de carbono para poder taxá-la é, fundamental para que os preços incorporem as externalidades negativas – tanto climáticas quando ambientais locais – dos produtos e serviços. No Brasil a taxação de carbono teria de ser compensada por uma redução análoga de outros tributos. Não podemos aumentar a carga tributária.

Já a precificação positiva do carbono reduzido é uma revolução no mundo econômico na proporção do tamanho do problema que estamos enfrentando. Se a mudança climática é o maior problema contemporâneo porque agrava todos os outros e representa uma ameaça existencial para a espécie humana, isso deve se refletir nos sistema de abstrações sobre qual se constrói a economia.

Se podemos calcular, com uma boa margem de segurança, que “x” trilhões de dólares será o prejuízo infligido à economia mundial pelos efeitos das mudanças climáticas, até, digamos, 2050, podemos também calcular o valor de cada tonelada de carbono reduzida ou removida. O carbono-menos é como o novo ouro.

O fórum pretende discutir tecnologias de emissão negativa, como o bio-CCS com captura de carbono? Qual é sua opinião sobre a adoção disso no Brasil?

Se queremos começar a pensar em 1,5oC, ou mesmo em 2oC, emissões negativas é o nome do jogo. Há muita coisa interessante sendo pesquisada pelo mundo afora e o Brasil precisa desesperadamente superar seus entraves burocráticos, cartoriais e a falta de importância concede à pesquisa e à inovação. O Brasil tem um potencial enorme para diversas modalidades de tecnologias de emissão negativa. Mas só dá tiros no pé.

De que tipo?

Você tem um sistema hipercartorializado e razoavelmente mafioso. Tenho recebido denúncias de pessoas com invenções na área de biocombustíveis e outras coisas que são sistematicamente barradas por verdadeiras máfias cartoriais que existem. Isso é um ponto de estrangulamento terrível para o Brasil, independentemente da questão climática. Na câmara temática de ciência e tecnologia vamos tentar fazer um levantamento de todos os obstáculos que existem no Brasil para um fluxo maior da inovação.

Um dos riscos que vêm sendo apontados com Donald Trump é o de outros países discretamente tirarem o pé do acelerador de seus compromissos no Acordo de Paris, mesmo mantendo no discurso o famoso “tamo junto”. O sr. acha que o Brasil corre esse risco?

Mesmo que os EUA não saiam do Acordo de Paris, vai haver um retrocesso na regulamentação interna de caráter nacional – vários Estados norte-americanos vão resistir – e no apoio que os EUA vinham dando à regulamentação internacional via Convenção do Clima. A via diplomática vai ficar mais difícil por um bom tempo. Isso reforça a noção de que a descarbonização precisa virar um viés da economia global. Penso que tanto a taxação do carbono quando a precificação positiva assumem importância particular nesse momento.

O que aconteceu nos EUA é simplesmente tenebroso, no pior momento possível. Mas é o que é. É o terreno em que teremos de dar combate. O Brasil corre todo os riscos. Somos uma sociedade totalmente esgarçada, numa crise econômica brutal, grande descrédito nas instituições e na própria capacidade da democracia superar essa situação. Mais que o risco de um novo surto autoritário de tipo clássico, vejo o perigo da síndrome dos Estados falidos. Precisamos de causas que nos unam. Enfrentar a crise climática foi até agora a única que logrou essa façanha. A ratificação do Acordo de Paris foi aprovada em tempo recorde nas duas casas legislativas e sancionada pelo presidente. Foi um momento raro de união nacional. Devemos preservar e cultivar isso. (Observatório do Clima/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

Economia de baixo carbono em Fernando de Noronha

Por Amália Safatle, de Recife para a Página 22 –

Com apenas 3 mil habitantes ilhados (ou 4 mil, considerando a população flutuante), está formado um laboratório a céu aberto perfeito para prototipar a economia de baixo carbono. Mais perfeito ainda quando esse laboratório é tropical, abençoado por sol e vento em profusão. Fernando de Noronha pode até ser um paraíso turístico, mas apresenta desafios enormes em termos de sustentabilidade, a começar da energia: grande parte cara e poluente, proveniente do diesel.

Pois está em andamento um projeto para que Noronha seja um lugar onde não se perde água, não se perde energia, não se perde resíduo. O projeto para uma economia circular, replicável ao Recife e a outras cidades, envolve um banco e empresas do Brasil, dos Estados Unidos, da China e da Alemanha. Nesta entrevista concedida à Página22, o secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Estado de Pernambuco, Sérgio Xavier, conta o que está sendo planejado em termos de energia renovável, compartilhamento de veículos elétricos, gestão de água, saneamento e resíduos, e como isso se encaixa em uma visão de atuação compartilhada do poder público – pensada e implementada em rede.

 

Como secretário estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, qual o grande desafio que identifica?

O grande desafio hoje é a economia, uma economia que puxe os processos para o baixo carbono, para a inclusão, para o compartilhamento, para a colaboração. É mexer na economia, incentivar os eixos que são prioritários: de energia, de água e saneamento, de resíduos…

O senhor diz incentivos econômicos? Porque o Estado sozinho não dá conta, é isso?

É preciso juntar Estado, cidadania, academia, empreendedores e artistas. Os três pilares da sustentabilidade são o social, o econômico, o ambiental, mas isso é apenas uma referência. O que faz acontecer são as pessoas, o cidadão, o consumidor que define o futuro das empresas, a política pública, a academia – pois o conhecimento é fundamental para inovar – os empreendedores e também os artistas. Os artistas conseguem despertar atenções de forma muito mais forte, intensa e rápida do que mil aulas, do que mil discursos e tal.

Sérgio Xavier. Foto: Divulgação

 

A arte aciona outro gatilho, não é?

Exatamente. Em 2015, por exemplo, a gente abriu o festival [Pernambuco no Clima, organizado em Recife] com Lenine cantando Quede Água, do álbum Carbono, música que diz tudo sobre água. Por uma coincidência muito feliz ele estava lançando Carbono. Então o trouxemos para a abertura do evento. Veio para cá e lançou a música e o clipe.

O movimento da sustentabilidade envolve um número limitado de pessoas. Falta extrapolar esse círculo, mostrando para as pessoas na verdade esse assunto diz respeito às questões do dia a dia de todo mundo. Como vocês lidam com isso na secretaria?

A gente definiu que, para uma ação de sustentabilidade ser aprovada, precisa contemplar cinco eixos: cidadania, conhecimento, políticas públicas, cultura e arte, e negócios disruptivos. A inovação precisa ser disruptiva, pois a mesma economia que está aí é a que criou os problemas [que estamos vivendo]. Se um projeto [proposto] na secretaria não tiver esses cinco elementos, eu não considero que seja com projeto com bases para avançar e ser sustentável. A ONU lista como um dos principais problemas em relação à sustentabilidade o distanciamento entre a academia e a política pública. Tem política pública sendo feita por aí que desafia a Lei da Gravidade, né? Como poderá dar certo? O prefeito de uma cidade do interior virou motivo de piada: quando foi questionado sobre a dificuldade de levar água para cima do morro, respondeu que se mudasse, então, a Lei da Gravidade (risos).

Por essas e outras, a academia precisa estar perto, junto, porque a gente não tem mais tempo. As mudanças climáticas exigem respostas muito rápidas. Essa resposta só será rápida se tiver esses cinco eixos interconectados. Esse festival [uPlanet, que sucedeu o Pernambuco no Clima e foi realizado no fim de 2016] é baseado nisso. Para essa conexão funcionar, é preciso criar novos sistemas de gestão sintonizados com a nova visão de rede. Os instrumentos de gestão que os governos e as empresas têm são piramidais, mecânicos, muito hierárquicos, enquanto na verdade a solução tem de estar em rede. Não dá para dizer que a política pública é mais importante que o investidor, nem que o investidor é mais importante do que a população que deseja definir seu destino. Nem mais importante que o conhecimento que indica: “Aqui não é possível fazer isso”.

Por que a ciência é que chancela todo o movimento?

Sim. Hoje nem a sabedoria popular dá conta de fazer previsões. Antes, as pessoas olhavam pro céu e sabiam se ia chover daqui a um mês. Olhava o comportamento de algumas aves e sabia até a temperatura que viria. Luiz Gonzaga fez músicas que falam muito bem disso. Hoje os meteorologistas não conseguem com precisão dizer quando terá fim a seca que está ocorrendo no Nordeste há 5 anos. Na média mundial, a temperatura aumentou 1,2 grau em 2016, mas tem lugares no planeta em que o aumento é de 5 graus, 6 graus. E tem lugar em que a temperatura caiu, porque chegou uma geleira que não tinha chegado antes.

Ou seja, está tudo muito imprevisível.

Por isso a política pública precisa ser construída junto com a academia. A academia está pesquisando muita coisa, mas não consegue fazer chegar até as câmaras municipais, ao próprio Congresso. É uma luta tremenda. É de onde vem mais necessidade de inovações radicais e disruptivas. A gente precisa, por exemplo, criar um Congresso Nacional digital, colaborativo, em que a população participe mais diretamente. A gente deveria começar um teste virtual, em paralelo ao Congresso real, que existe aí. Seria um super aplicativo por meio do qual a população pode apresentar propostas, e técnicos e cientistas se colocariam à disposição para discutir aquelas propostas em um nível intermediário. Depois de avaliadas do ponto de vista técnico e de viabilidade, as propostas seriam colocadas sob análise maior em votação. Milhões de pessoas votariam e aprovariam. Existem aplicativos de fácil uso para isso, e em seguida a proposta é aprovada.

Uma espécie de mandato compartilhado?

Algo assim. Não é possível um deputado representar todos os temas e votar sobre todos os temas. Na Câmara e no Congresso, existem as comissões formadas alguns especialistas, mas está dentro de um modelo que é muito fechado. Nessa outro formato de participação que estou apresentando, qualquer cidadão pode apresentar uma ideia. Depois da aprovação, aquilo ganha uma legitimidade imensa, muito que mais que no nosso Congresso.

Por que mais gente participou?

Mais gente participou e essa foi uma discussão técnica muito mais rica, porque o processo seria aberto e qualquer pessoa poderia se inscrever para discutir tecnicamente as propostas levando em conta seu currículo. A gente está discutindo a construção de um modelo desses juntamente com algumas empresas no Porto Digital, para fazer uma espécie de piloto de Câmara Digital. Isso valeria para Câmara Municipal, Assembleia Legislativa, Congresso Nacional e, com adaptações, para o Terceiro Setor, para empresas. Enfim, para discutir soluções de forma compartilhada, incluindo ali todos segmentos que precisam ser envolvidos.

É uma inovação em governança, neste momento em que estamos vivendo uma crise de representatividade?

Exatamente. Temos uma crise de instrumentos de gestão. Os nossos instrumentos de gestão são muito limitados para a complexidade de hoje. Essa estrutura em pirâmide, que tem no topo alguém que sabe tudo e decide, funcionava há um século, ou no máximo até décadas atrás. A velocidade das coisas era muito lenta, a comunicação levava dias.

E era uma comunicação elitizada, ou seja, quem detinha a informação controlava o restante?

Sim. Hoje tem gente mais informado que o próprio chefe. Então não dá mais para manter esse esquema piramidal. Tem que ser um processo em rede. Quem sabe mais sobre determinado assunto pode contribuir mais com a solução, e não quem está no topo. Estamos vivendo a crise de dois paradigmas. Um, o mito do crescimento ilimitado, em que ninguém considera os limites físicos, por exemplo, a ideia de que se pode colocar carros na cidade ilimitadamente. Por outro lado, há a imaginação limitada. A imaginação não precisa ser limitada, você pode pensar o que quiser! Mas acaba sendo limitada, você acha que só pode fazer daquele jeito.

As coisas estão trocadas.

O primeiro desafio nosso é desfazer essa inversão.

Então queremos discutir paradigmas, modelos de gestão, instrumentos de gestão. Vai muito além de política ambiental, a política ambiental é só uma parte.

Como vocês estão colocando isso em prática na Secretaria? Como dá para transpor essas ideias para sistemas que ainda operam como no século XIX ou no século XX?

Esse é o grande desafio. Fizemos esse desenho aqui e pedi para as equipes da própria Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade estavam seguindo. Grande parte não estava. Então dissemos: tem que encaixar, tem que ter isso aqui.

Ou se adequa ou o que acontece?

Não pode ser considerado um projeto sustentável, inovador, que aponte para o futuro. A gente precisa criar rapidamente modelos para servirem de referência e serem aplicados em larga escala. A gente precisa de referência porque os modelos do passado já não servem mais e os novos ainda não existem. Não tem um padrão para seguir. Então todos estão perdidos. É urgente criar modelos para serem vistos como referência e dali vai inventando em cima. Aí tem o caso de [Fernando de] Noronha. Queremos transformar a ilha de Noronha em um modelo de sociedade sustentável [projeto Noronha Future City], já que são 4 mil habitantes, para ver como pode ser um lugar, mesmo que pequeno, onde não se perde água, não se perde energia, não se perde resíduo.

Uma economia circular?

Uma economia circular em que as pessoas são felizes. Não precisam consumir tanto, colaboram, interagem. Várias empresas estão participando dessa discussão. Algumas vieram para cá, como Santander, BYD, Enel, Baterias Moura, Serttel e mais de 20 empresas americanas, brasileiras e alemãs em articulação. Estamos juntando várias empresas e buscando fazer um modelo. Porque as empresas inovam, mas inovam setorialmente, basicamente inventando o produto delas. E os governos criam, muitas vezes, incentivos fiscais para setores. Qual a grande inovação que a gente está fazendo? Juntando as inovações que já existem para fazer uma grande inovação. Juntando carro elétrico, energia solar, smart grid, aplicativos, internet das coisas, arquitetura e urbanismo verde, retrofit, junta tudo isso e dá uma coisa totalmente diferente.

Em que pé isso está?

Estamos finalizando a primeira Plataforma Integradora de Mobilidade Elétrica Compartilhada, interconectando empresas de energia renovável, de veículos elétricos, Apps de Compartilhamento, IoT, armazenamento de energia etc., para implantar o protótipo em Noronha [projeto Noronha Future City] e depois expandir para Recife e outras grandes cidades.

Como surgiu a ideia do projeto Noronha Future City?

Surgiu em 2013 com o desafio de tornar Fernando de Noronha o primeiro território brasileiro a compensar plenamente a emissão de gases de efeito estufa. Em parceria com a Celpe [Companha Energética de Pernambuco], o governo do estado conseguiu implantar duas usinas solares e outras ações de eficiência energética, mas percebemos que a solução definitiva passa por um arranjo com várias empresas inovadoras, simultaneamente. Não apenas aplicando tecnologias verdes, mas criando novos modelos colaborativos de mercado que possam ser replicados para outras localidades, em larga escala. Essa visão despertou o interesse de grandes empresas brasileiras e internacionais.

O que efetivamente caminhou até agora?

Foram instaladas duas usinas solares em Noronha, tendo como parceiros a Celpe, Governo de Pernambuco e a Aeronáutica. Isso possibilitou a redução de 12% das emissões, com a diminuição no consumo de 375 mil litros/ano de óleo diesel.

Está em curso a implantação da Plataforma de Bioquerosene de Aviação (os aviões representam 54% das emissões da ilha) que visa gerar biocombustível para atender a demanda do setor aéreo. É uma grande oportunidade para Pernambuco e para o Brasil, considerando que o setor de aviação é responsável por mais de 2% das emissões globais e tem metas de redução a cumprir em pouco espaço de tempo. Ou seja, um imenso mercado de baixo carbono do século XXI.

Já estamos próximos de implantar o primeiro arranjo multi-inovador – a Plataforma Integradora de Mobilidade Elétrica Compartilhada. Implantamos e testamos o sistema, que usou 5 veículos durante 3 anos e está apto para iniciar a fase de expansão. Reúne os seguintes parceiros: Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, Porto Digital, as empresas Serttel e ZD – Xindayang, da China, e a Prefeitura do Recife.

Em relação aos carros elétricos, a ideia é que haja uma rede de pontos na cidade onde quem tem carro elétrico tenha prioridade para estacionar. Sabe aqueles sensores de estacionamento no shopping que indicam se a vaga está ocupada? Nesse projeto, funciona pelo celular. Se você estiver usando carro elétrico e deseja estacionar aqui perto, verifica onde tem estacionamento com reserva para carro elétrico. Os estacionamentos são todos privados – em restaurantes, supermercados, shoppings, farmácias. Isso é para tirar o carro da rua, não terá estacionamento na rua. Nossa ideia é que, no futuro, 90% dos carros sejam compartilhados e que estacione em local que não atrapalha o pedestre. Com um movimento desses, que junta indústria automobilística, arquitetos e urbanistas para pensar a cidade e uma rede de parceiros físicos, você começa a redesenhar a cidade de uma maneira muito forte, porque reúne muitos participantes e já é negócio.

O carro elétrico precisa ser abastecido com energia proveniente de fontes renováveis. Não adianta a fonte ser uma termelétrica, não é?

Preferencialmente, sim, que sejam fontes renováveis. Mas mesmo que fosse fonte fóssil, já tem o benefício de gerar menos poluentes no ar da cidade. A ideia é que seja de fonte solar ou eólica, até porque as novas tecnologias permitirão que os próprios carros se recarreguem, por exemplo, por meio de películas de geração de energia fotovoltaica e pelo aproveitamento da energia cinética dos freios.

Ao mesmo tempo em que estamos falando aqui sobre inovação de ponta, chama atenção no Recife, assim como na maioria das cidades brasileiras, a questão do saneamento (mais sobre saneamento aqui). Ou seja, tem uma questão importante a resolver que é anterior. Qual a proposta da secretaria para o saneamento?

Essa questão do saneamento também está na inovação. É preciso dar um salto. O modelo do passado não está servindo mais, ele vai fazer com que a gente precise de 100 anos para atingir o pleno saneamento. Eu fiz uma visita recente a alguns estados americanos para discutir a questão da água e vi que já em muita inovação chegando.

 

Enfim, tem saída, mas precisa ter política pública, com conhecimento e empreendedorismo, para que esse processo seja rápido e consistente. Se fizer só política pública, não é suficiente.

O que temos no Brasil é um sistema de saneamento majoritariamente dependente do Estado e o Estado sem dinheiro?

Temos algumas PPP (parcerias público-privadas), mas são modelos que não trazem uma inovação radical. Eu sou do Conselho da empresa de água aqui de Pernambuco e defendo que a empresa mude o negócio, não venda só água, mas eficiência, soluções para economia de água, soluções para reúso. Tem aquela contradição: quando a empresa faz campanha para reduzir o consumo, ela perde receita. Se ninguém consumir água, a empresa vai à falência. Então, como vai lidar com isso?

Tem que vender o serviço de economia de água. A água economizada pode ser vendida para outros lugares, atender a pessoas que hoje não têm água, é um ganha-ganha. Só que a legislação não permite isso. Então precisa sentar todo mundo para debater e rever o modelo, não dá para esperar que algum deputado iluminado tenha essa ideia e forças para convencer todo mundo.

Então, estamos criando em Noronha as plataformas – de mobilidade, de água, arquitetura e urbanismo, educação, energia, lixo, mobilidade, gestão sistêmica – são as cadeias produtivas em que estamos entrando. Para cada uma delas, existe uma plataforma integradora, que seria um modelo em que as empresas vão lá e se “plugam”. É uma forma nova de mover a economia. Quem quiser trabalhar com soluções vem pra cá. Assim, as empresas grandes vão arrastando a economia para determinado polo.

Isso permite incluir as pequenas empresas?

Sim. Temos alguns critérios para isso. Estamos trazendo empresas dos Estados Unidos, de outros países, mas sempre acoplando com as empresas locais e criando subprodutos, como aplicativo para compartilhamento de carros públicos.

Qual são as maiores dificuldades (internas e externas) que s Secretaria encontra para o projeto avançar? E quais forças (forças econômicas, forças da sociedade, da opinião pública, do poder público etc) agem em favor do projeto?

As maiores dificuldades são burocracia, legislação ultrapassada e falta de incentivos no âmbito federal. Infelizmente, o Brasil, diferentemente da Califórnia e da Alemanha, ainda não incluiu na sua visão estratégica a mobilidade elétrica integrada com Internet das Coisas, aplicativos de compartilhamento e fontes renováveis de abastecimento dos veículos. Os setores empresariais mais criativos e ousados são as forças que agem a favor da implantação do projeto. (Página 22/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Página 22.

Pensar antes, produzir depois

Por Fernanda Macedo, da Página 22 –

Um dos criadores do conceito da economia do berço ao berço, o químico alemão Michael Braungart, acredita que reduzir o impacto ambiental é muito pouco perto do que podemos fazer.

Foto: Patrick Savalle/ Flickr Creative Commons

 

A inovação e o design na concepção dos produtos e serviços que criamos podem gerar impacto positivos e esse modelo tem se conectado com o estilo de vida das novas gerações. “Gerar resíduos faz de você um idiota, não se pode ter orgulho disso”, comenta o bem-humorado professor de Engenharia Química e de Química da Escola de Negócios Erasmus, em Roterdã, Holanda, uma das mais respeitadas da Europa.

Acompanhado de Léa Gejer, arquiteta e representante da Cradle to Cradle® no Brasil, Braungart concedeu esta entrevista à revista Página22 em visita ao Brasil, para abertura do Festival Green Nation, que reuniu entre os dias 23 e 27 de novembro, no Rio de Janeiro, uma intensa programação sobre sustentabilidade por meio de filmes, instalações interativas, palestras, oficinas, competição de multimídias e outras atividades.

O que é economia circular, nas suas palavras?

A economia circular é um bom começo. Nós utilizamos as coisas, depois as reutilizamos em produtos e com ela fabricamos novos produtos. Mas apenas isso não é suficiente. A economia circular pode ser muito chata, pois é um pensamento linear em círculos. Primeiramente, é preciso refletir sobre o conceito adequado. Por exemplo, quando as garrafas PET são fabricadas não se pensa no seu destino de reciclagem, em fabricar novas garrafas a partir delas. Esse raciocínio precisa ser feito no começo, em vez de ser feito no final. Nesse sentido, a economia circular implica em custos extras.

É por isso que prefiro falar em economia berço a berço, que significa que estamos pensando em tudo o que é criado para ser consumido, como alimentos, detergentes, solas de sapato, cadernos, precisa ser criado e pensado para entrar nos sistemas biológicos. E até mesmo em serviços, como máquina de lavar, computador, televisão, precisa ser criado de modo a adentrar os sistemas técnicos, para que não haja desperdício e tudo se torne nutriente.

E quando se entende o sistema circular como nutriente para a biosfera e a tecnosfera, isso pode ser feito. Devemos querer aprender, transformar, e não apenas reciclar. Adicionar mais inteligência, evoluir. Usar informações primitivas para fabricar coisas mais bonitas e não a mesma coisa o tempo todo. Isso seria muito chato!

Qual é o papel do Brasil na economia circular? Aqui existe um grande poder de energia renovável, muitos recursos naturais. Como o senhor vê nosso País nesse cenário?

O Brasil precisar usar mais energia solar que hídrica, porque as hidrelétricas provocam efeitos socioambientais muito graves. Hoje, já sabemos que o Brasil pode fabricar energia solar a menos de 10 centavos o quilowatt/hora. E isso faz muito sentido.

Hoje, não é preciso mais comprar coletores solares para a sua casa. Você compra apenas o serviço de 20 anos de uso do coletor solar. Com isso, é possível usar materiais muito melhores e um serviço muito mais barato. A Austrália está desativando termoelétricas a carvão, pois a energia solar é mais barata. O sol não manda conta. Obtemos energia gratuita.

O Brasil, com a excelente concepção e o vigor daqui, a animação, a criatividade e a abundância de luz solar, certamente é um lugar excelente para o início de uma nova mentalidade que celebre a vida, ao invés de sermos apenas “menos maus”. Já somos menos maus com tanta gente. Achamos que estamos fazendo o bem para o ambiente se destruirmos um pouco menos. Mas você não está protegendo seu filho ao bater nele cinco em vez de dez vezes.

É por isso que falamos em qualidade, inovação e beleza. Nós podemos usar toda essa máquina ambiental inovadora do Brasil. E isso cria empregos infinitos, porque a fabricação dos produtos berço-a-berço custa 20% menos do que os tradicionais, já que a inteligência é aplicada no início, e não no fim da cadeia.

Léa Gejer: No Brasil, a gente tem várias indústrias, tem toda a cadeia. Por exemplo, a indústria têxtil tem a cadeia inteira aqui no Brasil. Então não é como nos EUA, em que um pedaço vem da China, outro da Europa e eles juntam tudo num lugar e fazem a roupa que depois vai para não sei aonde… Aqui a gente tem várias cadeias numa indústria que é fechada. Isso é um problema, mas ao mesmo tempo a gente tem controle sobre várias etapas dessas cadeias. Na construção civil também. Tem muita matéria-prima, então a gente extrai e a gente tem toda a condição de conseguir fechar o ciclo internamente.

Como o senhor acha que o Acordo de Paris pode impulsionar a economia circular?

O Acordo de Paris serve como base, pois foi a primeira vez na qual todos os países do mundo se uniram para conversar sobre este grave problema. Sendo sincero, o problema da energia só será resolvido com o ingresso de 20 vezes mais fontes de energia nesse planeta do que jamais foi feito.

A questão energética do que vimos em Paris me deixa otimista, mas precisamos aprender a recuperar o carbono da atmosfera. Nós podemos usar dióxido de carbono como matéria-prima. Mas é preciso haver uma estratégia de recuperação dos nutrientes, como potássio, fósforo. E isso só em termos orgânicos.

Eu trabalhei na China por muito tempo e lá, por exemplo, é diferente. Quando você é convidado para jantar, espera-se que fique até usar o banheiro, porque não é cortês ir embora e “carregar os nutrientes” consigo. Afinal, você foi convidado para jantar, e não para carregar nutrientes.

Ou seja, Paris foi um bom começo, mas o começo real no tratamento de todas essas questões foi na Eco92, aqui neste país [Brasil]. Porque vocês foram pioneiros e chegou a hora de usar isso como mecanismo de inovação. Por isso, é preciso trabalhar com o mercado, as pessoas diretamente, governos, para que as mudanças aconteçam.

A Europa está usando 21% do solo de agricultura na plantação de milho. Isso não faz sentido. Ao mesmo tempo, a Europa está importando grãos cultivados em terras do Brasil só para alimentação animal. Isso não faz sentido.

A União Europeia e a China adotaram a economia circular como orientação para política econômica. Quais são os passos que os países latino-americanos teriam de dar para caminharem na mesma direção?

O primeiro a se fazer é apoiar faculdades de design e de arquitetura para que haja mais programas educacionais e de capacitação para os alunos. Esse é o primeiro passo. O segundo é ter metas claras. Por exemplo, “em 2020 todo o papel deve ser compostável”. Aí, sim, seria possível fazer a diferença. Ou, “toda a madeira que usamos é tratada com produtos que podem ser reaproveitados como combustível”. A economia circular na Europa não se resume apenas a isso, trata-se de reinventar-se, de renovar o conceito. “Máquinas de lavar, televisão, painéis solares são serviços e não são mais vendidos [como produtos], vendemos apenas o seu uso”. Então, podemos facilmente começar por um programa industrial onde desde o início tudo se recupere.

Léa Gejer: Também pode ser interessante para a América Latina pensar que um produto tem vários materiais que têm um valor. Por exemplo, um edifício. Um edifício é um banco de materiais. Se você entender que cada material naquele edifício, ou um celular, tem valor e que aquilo pode voltar para você, eu acho que pode ser interessante para economias em desenvolvimento. É uma riqueza que a gente não vê, que a gente joga fora, mas que pode ser resgatado, por meio do design e com qualidade, em vez de ir sempre diminuindo a qualidade. Essa é a ideia de valorizar os materiais.

Falando sobre países em desenvolvimento, a economia circular só ocorre quando em um cenário de decrescimento ou ausência de crescimento econômico, ou ela pode ocorrer também com crescimento econômico?

Basicamente, funciona em todas as áreas de todos os países, porque o que temos por aí é muito primitivo. Apenas nove de 41 elementos dos celulares são reciclados, e são elementos raros como índio, gálio que não são recuperados.

Estamos ainda no começo. Um comprovante de estacionamento ou cupom de supermercado faz você absorver 25 produtos químicos na corrente sanguínea, até porque aquilo não foi fabricado para o contato com a pele. Podemos começar com coisas simples. Até mesmo o papel higiênico não é fabricado para sistemas biológicos. Com 1 quilo de papel higiênico contamina-se até 8 milhões de litros de água porque as substâncias químicas do papel não foram concebidas para a economia circular.

Os designers podem criar coisas totalmente novas que sejam muito melhores desde o início. Existem tantos designers famosos… Depende de nós fazer a diferença agora, senão não teremos força [depois] porque não haverá mais mercado.

Reutilizarmos os mesmos materiais em vez de extraí-los impactaria o PIB?

Ao contrário! Voltando aos materiais, são apenas 2% de toda a cadeia de valor. Até este celular, todos os materiais internos custam menos de dois dólares. São os componentes, não apenas o material. O valor verdadeiro é poder reutilizar componentes, conceber de modo a reutilizar os materiais como componentes. Você conecta componentes diferentes e aí lucra de verdade. Voltar à extração de matéria-prima não faz sentido, porque o custo ambiental da maioria dessas operações de mineração é muito maior para a sociedade do que qualquer lucro obtido.

Os países mais pobres do mundo são os que mais usam matéria-prima, porque isso leva à corrupção e a todo tipo de relacionamento injusto. Foca-se na extração de matéria-prima em vez do apoio à sociedade.

Considerando as desastrosas operações de mineradoras nos três últimos anos no Brasil, isso equivale a 20 anos da renda líquida desse País em termos de danos para o futuro, de tão enorme que é. Talvez seja melhor pensar: “Vamos parar a mineração” e as pessoas começariam a pensar no uso diferente de materiais.

Léa Gejer: A economia circular pode trazer outras formas de negócio. Então, por exemplo, empresas que fazem reformas de objetos, que remanufaturam e estão dentro daqueles ciclos, são ciclos internos. Você tem novas formas de fazer negócio, de desenvolver a economia local com o que você já tem.

Em uma economia em crescimento, a proposta do berço-a-berço pode interromper o crescimento da extração de materiais e a consequente poluição. Isso não estaria apenas desacelerando a uma aproximação dos limites biofísicos do planeta?

Para começar, os humanos são o único limite deste planeta. Se vivêssemos apenas da caça, o limite do planeta seria de cinco milhões de pessoas. Quando aprendemos a agricultura – e podemos aprender muito com os Ianomâmi, que faziam agricultura na floresta tropical –, o limite desse planeta passou para 500 milhões de pessoas.

Com a agricultura industrializada, que é o que fazemos, o limite é de cinco bilhões de pessoas. Ultrapassamos esse limite e estamos destruindo este planeta de modo sistemático.

Mas se tivéssemos uma agricultura baseada em carbono e usássemos nossos nutrientes, poderíamos ser muito mais produtivos e alimentar 20 bilhões de pessoas com facilidade. Nós somos o único limite. Se fizermos isso poderemos ter um planeta cinco vezes maior do que temos agora, já que podemos torná-lo mais produtivo.

Veja o exemplo da Holanda. A agricultura baseada em carbono é, depois dos Estados Unidos, o segundo maior exportador de produtos de agricultura, isso com 2% do tamanho da Brasil. Eles são o segundo porque a agricultura baseada no carbono pode ser muito mais produtiva e empregar muito mais pessoas.

A ideia da economia circular depende do uso quase exclusivo de energia renovável. Em um cenário de crescente demanda por energia, é realista usar apenas energia renovável o tempo todo? Se for o caso, o uso exclusivo da energia solar, por exemplo, não implica também em impactos ecológicos?

Os conectores solares podem ser muito produtivos e a energia não é nada limitada. Na verdade, é até o contrário, nós precisaremos de uma sobrecarga de energia renovável porque também precisamos de energia quando o vento não é forte em algumas áreas.

Nós poderemos usar essa sobrecarga de energia renovável para extrair CO2 da atmosfera e usar água como fonte de hidrogênio e fabricar hidrocarbonos e produtos químicos para todo tipo de mercado, como plásticos.

Podemos usar a atmosfera como fonte ao fazermos bandas de energia. Temos um projeto na Europa onde usamos a sobrecarga da energia para fazer tijolos com pias. Usamos metais, como o magnésio, que oxidam no inverno para a calefação das casas. Podemos pegar óxido de magnésio ou cálcio e deles obter magnésio ou cálcio novamente. Não será mais preciso isolar as casas porque poderemos usar 300 tijolos para a calefação.

Podemos fazer o mesmo com construções de arrefecimento, podemos usar o sol para arrefecer construções. Usar ar condicionado na eletricidade será uma idiotice, porque será possível usar o calor do sol para arrefecer construções. Por conta das bandas de energia, a energia em si não é um problema, mas o lado material é muito mais crítico.

E quanto aos impactos ecológicos da energia solar, por exemplo?

O impacto da energia solar depende do que você está fazendo. Se você faz células solares que podem ser reutilizadas, elas podem ser concebidas desde o início com um impacto melhor para todos.

Na Europa, nós trabalhamos na concepção de operações de mineração que são concebidas desde o início para serem a favor dos habitantes. Planeja-se a pegada de carbono que será deixada. Fizemos isso na Bélgica com 34 operações mineradoras. E posso garantir que hoje em dia eles são uns dos biótipos mais ricos e diversos que se pode imaginar. Antes, havia um deserto deixado pela agricultura. Agora, existe uma rica terra que abarca todas as espécies. Vimos pássaros raros que haviam sumido há décadas.

Podemos fazer telhados verdes na cobertura dos prédios. Fizemos isso em Detroit com quatro fabricantes de veículos e elas economizam 30 milhões de dólares em proteção contra água de chuvas. Isso permite o retorno de várias espécies de pássaros devido ao estímulo à flora. Com isso, estamos ajudando esses pássaros a fugirem dos predadores também. Eles não estão mais ameaçados por estarem protegidos por suspensões de flora.

É lucrativo para todos nós. É um tripé de sustentabilidade invertido, que é bom para a economia, a sociedade e o meio ambiente.

E fazemos várias ações pequenas também. Nesse momento estamos trabalhando num prédio em Barcelona que está criando borboletas no saguão. Toda sexta-feira elas são soltas para o ambiente. As crianças veem e dizem: “Ah, então é aqui que o papai e a mamãe trabalham”!

Isso pode mudar o equilíbrio biológico de Barcelona fazendo com que as borboletas sejam uma população natural e estável, bastando defendê-las toda semana, deixando-as voar pela cidade de Barcelona. Nós podemos ser bons para as outras espécies. Não precisamos ser menos maus.

Na sua opinião, o que impede o maior crescimento da economia circular? Será o comportamento do consumidor, a cultura do “descartável”?

Primeiramente, trata-se de uma geração jovem de excessos. Esses jovens querem ter orgulho do que fazem. Só que gerar resíduos faz de você um idiota, não se pode ter orgulho disso. A vida é assim. Temos essa geração de jovens onde o reconhecimento na internet e no Facebook é mais importante que dinheiro. É isso o que impulsiona a juventude de hoje. Trata-se de autoestima. As pessoas querem ter orgulho do que fazem. É uma inovação verdadeira.

Mas não é maquiagem verde?

Ao contrário. Não se trata de maquiagem verde pela transparência: dá para ver e medir. Graças à internet, é possível encontrar provas imediatas. Então não tem como fazer maquiagem verde.

O modelo tradicional é perigoso porque a emissão de relatórios de sustentabilidade nos Estados Unidos custa US$ 10 bilhões por ano. Tem várias empresas vivendo disso, além de consultoria e arquitetura. Elas querem continuar fazendo negócio. Na Europa, são 7 bilhões em custos para as empresas.

Com a economia circular, você vende apenas o uso. Não há interesses escusos porque o produto continua seu. Em vez de vender o produto “janela”, você está vendendo o seguro “olhar pela janela”, que permanece seu por 25 anos. Por que você teria interesse escuso se continua sendo seu? Você retém o produto. Quando você vende algo e coloca algo tóxico nele, é mais lucrativo trapacear o consumidor e fazer maquiagem verde.

O que nós produzimos gera um lucro incrível por conta do que o impulsiona. Por exemplo, ao fabricarmos tecidos para esta cadeira. O material é tão tóxico… Isso é uma burrice. Se escolhêssemos produtos químicos reutilizáveis, o tecido ficaria 20% mais barato. Justamente por não ser preciso tratar a saúde. Você filtra pelo início, não no final, na gestão de resíduos.

Léa Gejer: Claro que é muito importante também não pensar apenas no consumo ou pós-consumo, mas sim antes do consumo. O mais importante é a questão econômica e ambiental, não ser é pautada na gestão resíduos, mas sim no desenho. Essa é a base desse pensamento. Não adianta só você reciclar e reciclar e perder a qualidade. Tem de desenhar sempre pensando no que vem depois.

Como o discurso da economia circular poderia ser compatibilizado com a Segunda Lei da Termodinâmica? A economia circular refuta a tese central da obra do [do economista ecológico] Nicholas Georgescu-Roegen [em que a entropia é acelerada pelas atividades humanas]?

Se utilizarmos alumínio na economia circular, ele demanda 95% menos energia. Eliminaríamos 95% do que precisamos na economia circular. Esses 5% podem ser facilmente obtidos com bancos de energia externa.

O alumínio pode ser usado praticamente de modo infinito, economizando-se 95% em comparação a operações em mineradoras. Mas ainda precisa-se de 5% da energia para reprocessamento ou sistemas técnicos. Mas esses 5% podem muito bem ser oriundos de energia renovável porque temos bancos para isso. A economia circular transformará a energia em renovável muito mais rápido, sob um consumo no mundo muito menor com o uso de recursos renováveis.

É por isso que não pode ser apenas economia circular. Senão, você está provocando uma necessidade ainda maior de materiais para ter coisas mais eficientes. É por isso que precisamos de eficiência em vez de eficácia. Precisamos ver o que é certo, em vez de se fazer sempre a mesma coisa. (Página 22/ #Envolverde)

* Tradução: Carlos Abelheira. Colaboraram: Andrei Cechin, Amália Safatle, Ernesto Nunes, José Eli da Veiga, Ricardo Abramovay.

** Publicado originalmente no site da Página 22.

Ricardo Abramovay comenta a desigualdade apontada pela Oxfam

Professor de Economia da FEA-USP, Ricardo Abramovay avalia o cenário mundial frente a esta acumulação de riqueza como negativo e com tendência a piorar por causa da revolução digital e inteligência artificial. Leia a reportagem sobre o relatório da Oxfam divulgado em 16 de janeiro em: https://goo.gl/pE5TPs.

Confira a entrevista:

Ricardo Abramovay

Envolverde: O relatório da Oxfam fala da extrema concentração de riqueza na mão de poucas pessoas. Qual o horizonte do mundo nesse cenário?

Ricardo Abramovay: O relatório aborda uma questão importante, não apenas a renda dos mais pobres e sim do topo da pirâmide, os mega ricos. Eles apontam que haverão trilionários. A Oxfam está falando de 8 pessoas que detém uma renda equivalente à metade da população mundial, a preocupação dela é com o topo da pirâmide.

O horizonte é muito negativo nada promissor, há concentração da economia. Vai piorar muito ainda porque o aprofundamento da revolução digital será feito às custas de emprego. A inteligência artificial já está substituindo mão de obra em escritórios de advocacia por exemplo ou em áreas da medicina. A propriedade dos algoritmos é a mais concentrada que o capitalismo já conheceu.

Estamos frente a um prazo muito curto, em 10 ou 15 anos a Inteligência Artificial será superior a humana. Vivemos a era da inovação tecnológica e os governos de direita onde o resultado será a concentração da riqueza. Defende-se um discurso de que é preciso isentar os ricos de impostos para que gerem empregos.

Os governos apresentam também respostas simplistas para problemas complexos limitando as liberdades substantivas da população como educação, direito à cidadania. Então são várias desigualdades e não só a desigualdade de renda.

Envolverde: É possível um desenvolvimento humano justo com isso?

R. A. Depende do que entendamos por desenvolvimento humano, uma coisa que vai acontecer no século XXI é que vamos acabar com as condições extremas de miséria. Teremos acesso a alguns serviços públicos básicos. Mas também existirá uma separação entre o tipo de vida dos ricos e pobres muito ameaçadora. Sociedades muito desiguais tem maior dificuldade para aproveitar o potencial de contribuição para a economia.

A revolução digital está aumentando a produtividade, mas o uso que as pessoas fazem dos dispositivos e redes sociais é precário e padronizado, ao invés de ajudar eles são entorpecidos.

Existe uma visão idealizada da nova geração de empregos no contexto digital, acredito que a única forma de enfrentar esta problemática seja com um programa de renda básica da cidadania.

Envolverde: Como reverter isso?

R. A. Existem basicamente duas cosias a serem feitas. Fortalecimento da sociedade civil, colocar a luta das desigualdades no topo de qualquer agenda econômica, em consequência ampliar a tributação das grandes fortunas no mundo e ampliar os direitos e liberdades substantivos das pessoas mais pobres de forma com que estas não deixem somente de passar fome ou comprem a prestação, mas que tenham acesso à educação, que não sejam perseguidas pela polícia e a política de descriminalização das drogas.

E um último aspecto introduzir ética nas atividades econômicas, Riqueza serve para o que? Os governos são obcecados para ver a economia crescer, porém sem um objetivo que se traduza na expansão de igualdade e liberdade dos menos favorecidos.

Envolverde: Esse quadro está se consolidando no Brasil também?

R. A. O Brasil passou por um processo de redução da desigualdade de renda no começo do milênio porem não reduziu outras formas de desigualdades. Vemos um apartheid social, onde ricos moram em bairros cercados e centrais e os pobres na periferia.  Os governos e políticas sociais sempre reforçaram esta imagem da periferia, que mora longe, e não tem acesso a serviços nem educação de qualidade no local, precisando viajar por horas até a cidade.

O segundo fator é que toda política está voltada para o crescimento econômico, mas não figura em nenhum documento um “para que” ou “para quem”, quando o Brasil volte a crescer será de forma arcaica. Não há nenhum esforço na pauta para reduzir esta desigualdade, nem ajuste fiscal nem tributação. Os ricos são tributados de forma absurdamente baixa.

Vemos pessoas trabalhando de office boy, atendente de caixa, call service sendo que a revolução digital vai eliminar estes empregos. É necessário recolocar estas pessoas no mercado e avaliar este tema na pauta dos governos.

O Governo Lula e Dilma foram os únicos que colocaram na agenda a luta contra a desigualdade de renda, porém não foi possível falar disso de forma correta em um contexto de economia reprimarizada. (#Envolverde)

Futuro das cidades está no protagonismo dos governos

Por Katherine Rivas, especial para a Envolverde – 

Rodrigo Perpétuo

As cidades precisam deixar de ser entes abandonados, fora de um concerto global de organizações, acordos e metas.  Precisam assumir um protagonismo global.

Frente as múltiplas transformações urbanísticas na esfera global, especialistas avaliam que o futuro das cidades brasileiras nos próximos anos estará interligado ao diálogo com a natureza e ao protagonismo dos governos locais, que aliados ao processo de aceleração sustentável se unem a outros países em um mecanismo internacional deixando de lado a perspectiva isolada de municípios. Esse é o centro do diálogo “O Futuro das Cidades”, parte do projeto Envolverde Convida.

Rodrigo Perpétuo, secretário executivo do ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade), movimento global que reúne mais de 1500 estados, metrópoles e cidades em 100 países para promover o desenvolvimento de baixo carbono e economia urbana verde, afirma que as cidades de América do Sul já estão passando por este desenvolvimento.  A perspectiva é que as construções comuns sejam trocadas por edificações verdes com eficiência energética, assim também se espera a morte dos combustíveis fosseis e o petróleo que serão substituídos pela energia elétrica, gás natural, entre outros.

No contexto da mobilidade, Perpétuo defende a diminuição do número de carros nas ruas. “Na minha visão esta transição já ocorre, porém não é rápida por motivo dos interesses políticos que são a favor da economia do petróleo. Hoje a tecnologia é nossa aliada, existem carros elétricos, veículos compartilhados, ciclovias que se integram ao transporte público. As cidades precisam ser protagonistas, mas elas agem em tempos diferentes, algumas são futuristas enquanto outras estão estagnadas no século XIX”, comenta.

Foto: Shutterstock

 

Pequenos governos, grandes ideias

Entre os desafios atuais da sociedade brasileira, Perpétuo cita o desconhecimento das cidades e a desigualdade no acesso a informação e recursos financeiros para o desenvolvimento. Esta problemática desacelera os processos de mudanças e iniciativas.

Na visão dele, a solução está em sensibilizar os gestores públicos e a sociedade civil que exercerá também uma pressão no governo pelos projetos. Estas alternativas vão pôr fim a era dos combustíveis fosseis e a crise ambiental.

No Brasil o programa “Compacto de Prefeitos” coloca em prática as estratégias acima citadas. Com um total de 459 cidades envolvidas no projeto, 35 brasileiras, o Compacto é a maior iniciativa a nível mundial que reúne lideranças municipais para enfrentar as mudanças climáticas e os seus impactos.

O projeto estabelece seis critérios a serem cumpridos pelos prefeitos num período de três anos, e proporciona benefícios tais como: reconhecimento da cidade como inovadora, mostrar o compromisso dos prefeitos para uma solução global, avaliação constante e confiável, evidencia das ações por menos emissões de gás estufa, fortalecimento das ações locais frente ao governo nacional.

Alguns dos prefeitos que participaram da iniciativa em 2016 são Carlaile Pedrosa (Betim), Jose Fortunatti (Porto Alegre), Fernando Haddad (São Paulo), Carlos Amastha (Palmas), entre outros. Todas as ações dos prefeitos e suas cidades são de acesso público na plataforma CCR (Registro Climático Carbon)

Foto: shutterstock

Transporte Elétrico

Entre os case de sucesso no ano 2016 está a cidade de Campinas, que revisou as concessões do transporte público de forma que em dez anos seja proibido o uso de ônibus a combustão. A nova frota será de veículos elétricos segundo o modelo de sustentabilidade.

A cidade de Belo Horizonte faz parte deste grupo e realiza a cada dois anos relatórios de emissões de efeito estufa identificando as áreas de vulnerabilidade ambiental e climática. Está é a primeira cidade a alcançar 100% de conformidade ambiental segundo as metas do programa Compacto de Prefeitos.

Já na cidade de Sorocaba, as ciclovias deixaram o transporte público e de veículos de lado, no município existe um forte comprometimento com o desenvolvimento da mobilidade alternativa.

Tendências

Para Perpétuo as tendências no futuro das cidades são claras e estão relacionadas à educação dos cidadãos, à apropriação do espaço público (menos lixo no chão e fortalecimento da consciência ambiental).

Ele enfatiza a necessidade de um novo olhar do Poder Público, abandonar a ideologia de que é caro ser sustentável e enxergar neste custo político um retorno de curto prazo e que evita investimentos posteriores ao corrigir irregularidades no meio ambiente.

No setor de energia e mobilidade acontecerá a diversificação do transporte da cidade com prioridade no transporte público e na proibição de circulação dos veículos com emissões elevadas.

O especialista conclui com a nova ideologia futurista, onde respeito à biodiversidade é um valor de mudança e não um modismo que atrapalha a vida urbana. (#Envolverde)

Serviço

Quando: quarta-feira, 14 de dezembro das 10h00 às 12h00

Onde: Unibes Cultural – Rua Oscar Freire, 2.500 – São Paulo (SP)

Inscrições: https://goo.gl/3J1Ioh

(#Envolverde)

Carlos Rittl: O Brasil “ainda não tem plano, só uma meta”

Por Carolina de Barros e Alexandre Gonçalves Jr, direto de Marrakech, especial para a Envolverde e para o Projeto Cásper Líbero na COP 22 – 

O Brasil assinou o Acordo de Paris e junto dele propôs metas para contribuir com a mitigação climática. Entre elas, está o fim do desmatamento ilegal e a redução de 43% de dióxido de carbono em relação a 2005, até o 2030. O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, acredita que as metas brasileiras não são ambiciosas o suficiente e que o governo ainda não está focado como deveria nas responsabilidades com o meio-ambiente. Confira a entrevista completa:

Envolverde: Existe algum fenômeno recente no Brasil que pode ser atribuído às mudanças climáticas?

Carlos Rittl: Para saber isso, temos que analisar tendências temporais. Não só nos últimos cinco anos, mas nos últimos 10 ou 30 anos. É muito difícil atribuir essa relação direta. O que podemos dizer com certeza é que o aumento da frequência da intensidade dos eventos climáticos extremos que têm acontecido no Brasil e em todo mundo tem uma relação direta  com o aquecimento global e com a forma que ocupamos o território, como ocupações de encostas e  várzeas de rios, por exemplo as marginais do Tietê e Pinheiros em São Paulo. Essa ocupação desordenada junto das mudanças climáticas torna o risco de eventos cada vez maiores. Esse ano tivemos ressacas fortíssimas no Sul do Brasil, Rio de Janeiro, Nordeste. A seca  no Nordeste, que parece uma normalidade, já que sempre ouvimos falar de seca no semiárido, é consequência de alterações climáticas. Em algumas regiões, é a pior seca em 90 anos.  Além disso, em São Paulo acontecem microexplosões, que é aquela chuva muito forte com ventania que provoca a queda de centenas de árvores. Tudo isso é uma fotografia do que as mudanças climáticas já trazem e no futuro podem trazer com mais frequência, intensidade e custos.

E: Segundo dados do SEEG publicados pelo Observatório do Clima, o Brasil em 2015 aumentou as emissões em 3.5%. Qual o impacto desse aumento no cumprimento das NDCs do Brasil?

CR: O aumento de 3.5% congrega todos os gases da unidade do dióxido de carbono equivalente. Você traduz o potencial de aquecimento global de todos gases na unidade dióxido de carbono, então, tem dióxido de carbono, metano e outros gases aí nessa conta. O que preocupa nesse aumento das emissões é que ele ocorre em um período de recessão econômica, associado ao aumento da taxa de desmatamento, que é intolerável. Estamos chegando a 7 mil km² de áreas destruídas na Amazônia no último ano! E provavelmente uma área de entre 5 e 6 mil km² destruídas por ano no Cerrado e na Mata Atlântica. Embora as metas da NDCs sejam só para depois de 2020, assim como de todos os países no âmbito do Acordo de Paris, as taxas de emissões brasileiras anuais mostram que a gente ainda não está promovendo a transição necessária na economia e nas atividades econômicas para um rumo da descarbonização. Precisamos mudar a forma como usamos recursos naturais e como se produz e consome no Brasil. Qual o rumo da nossa economia quais são os pilares da nossa economia? Falamos mais de pré-sal e de fósseis do que de energias renováveis, apesar das serem uma realidade no mundo cada vez maior. Por hora, o Brasil fala que ratificou o Acordo de Paris mas isso está muito no papel. Tirar o Acordo de Paris do papel significa, aqui na COP e nas negociações, o processo evoluir. Mas, principalmente,  a implementação é doméstica porque a gente ainda não tem plano, só uma meta.

E: O Brasil tem a meta do desmatamento zero, que está longe da realidade. O que você acha que seria necessário para reverter esse quadro?

CR: Primeiro, é preciso vontade política. A própria meta tem que ser mudada. A nossa meta é eliminar o desmatamento ilegal, só na Amazônia e só em 2030. Ou seja, tolerar o crime ambiental, por mais 14 anos. E em outras regiões sequer tem uma data para acabar com o desmatamento ilegal. Isso é muito pouco, muito tarde. Estima-se que existam entre entre 50 e 90 milhões de hectares de pastagens abandonadas, degradadas ou subutilizadas, que são áreas que se recuperadas são capazes de atender demandas de produção de alimentos para consumo interno e exportação. O que a gente precisa é tratar mudanças climáticas como um tema de desenvolvimento, é algo que ameaça nossa qualidade de vida, traz riscos para nossa economia, mas não lidamos com o nível de responsabilidade necessária. Ainda tratamos como agenda ambiental, mas não é agenda ambiental, é agenda de desenvolvimento. Os brasileiros vão sofrer mais com os impactos da mudança climática, vamos emitir mais e contribuir para que o problema se torne mais grave e assim também perderemos oportunidades econômicas, relacionadas à economia de baixo carbono e às energias renováveis. A contribuição do Brasil foi importante e tem que ser reconhecida, mas temos que olhar pra frente. O mundo vem se aquecendo, e se aquece de forma muito rápida. A gente pode fazer mais e deve fazer mais. Pelo nosso próprio benefício e para nossa própria segurança, pelo bem do clima e também da economia.

E: Como está evoluindo essa questão das energias renováveis e quais medidas práticas o governo poderia fazer para que isso fosse instituído para o cidadão comum?

CR: O Brasil precisa entender que a gente não pode extrair até a última gota do pré-sal. Claro que os poços onde há extração não vão se fechar do dia para a noite, mas a gente tem que ter um plano de saída. Precisamos saber qual o limite de combustíveis fósseis que a atmosfera vai suportar em todo o planeta e qual espaço o pré-sal vai ocupar em uma economia que precisa descarbonizar sua matriz energética, o que significa que a gente precisa parar de consumir combustíveis fósseis. Além disso, a energia solar está se tornando bem mais barata e deve ser, em menos de 10 anos, a fonte mais barata em qualquer região de mundo. Junto disso tem um processo intensivo de eletrificação dos transportes. Esses fatores mostram que a gente pode sair dos combustíveis fósseis, seja para gerar eletricidade em nossas casas, seja para fazer um automóvel se deslocar. Mas ainda é muito caro e tem poucas compensações. No Brasil, o máximo que você consegue fazer é pagar o preço de um carro popular para colocar numa casa pequena painéis solares, o que obviamente não é todo mundo que pode. A economia será descontada da futura conta de energia, com limitação. Ou seja, diferente do sistema americano ou europeu, no Brasil você não tem nenhum benefício econômico e quando tem é muito pequeno. O tempo que leva para pagar o investimento é de quatro, cinco ou até 20 anos. Quem investe hoje, investe por puro amor a causa e pura preocupação com o planeta. O governo deveria colocar medidas para permitir que a implementação aconteça. O cidadão comum não deveria precisar pagar pelo investimento, e a empresa de energia deveria comprar a energia economizada redistribuí-la, como nos outros países. O problema é que a gente ainda acha que grandes obras como o pré-sal são a nossa passagem para o primeiro mundo, mas não. O País tem muito vento, muito sol, muito biomassa da madeira, da cana de açúcar, muito recurso renovável que pode e deve ser aproveitado numa escala maior. Aproveitamos pouco as nossas energias renováveis modernas e precisamos priorizá-las em nossos investimentos.

Carlos Rittl: "O barco vai afundar e a nossa contribuição não foi suficiente".
Carlos Rittl: “O barco vai afundar e a nossa contribuição não foi suficiente”.

 

E: Você acha que o Brasil vai ser capaz de cumprir as NDCs que ele propôs no acordo de Paris? O que precisa mudar para conseguirmos realizar essas metas?

CR: A meta do Brasil, embora comparando com as de outros países possa parecer melhor, não é uma meta ambiciosa. Nunca foi. É uma meta possível, factível, e  a partir de políticas existentes a gente conseguiria atingi-la. A recessão econômica, infelizmente, vai impactar  na nossa trajetória de emissões e deve ajudar atingir as metas com uma maior facilidade. O grande risco está justamente aí: a gente se acomodar. Já estamos muito acomodados com tudo aquilo que foi feito, sem avançar nos investimentos, no caminho da energia renovável, da agricultura de baixo carbono, da restauração florestal, de acabar com o desmatamento, com a maior eficiência da indústria. A gente precisa mudar esse cenário. Atingir as metas das NDCs é fácil. Não vai existir, hoje, nenhum grande sacrifício, basta manter as políticas atuais com uma ou outra pequena intervenção, mas a gente tem que fazer mais, este é o ponto, podemos e devemos fazer mais.

E: Então você acha que essas metas foram metas confortáveis, não são um desafio atingi-las. O que seria esse “fazer mais”?

CR: Todos os países grandes emissores terão que fazer mais. A soma dos esforços de dos países signatários levam a um mundo que é no mínimo três graus acima da temperatura média do planeta e dos níveis pré-industriais. Isso é o dobro do objetivo do Acordo de Paris, que é limitar o aumento a um grau e meio. Acho que essa tem que ser a meta por questões morais, porque acima de um grau e meio você tem o risco de desaparecimento de países. O que precisa ser feito é construir novos cenários, considerando a realidade econômica do Brasil. Do nosso ponto de vista, as emissões brasileiras têm que ser bem abaixo de um bilhão de toneladas em 2030 para, minimamente, fazer a nossa parte. E, hoje, a gente chegaria em 2030 com muito mais que um bilhão de tonelada. Precisamos melhorar nos agregados, na nossa contribuição, e focar nas ações que vão entregar a redução de emissões. Parar de discutir desmatamento ilegal zero só em 2020 e discutir desmatamento zero e desmatamento residual pequeno agora. Ao invés de, digamos, trabalhar com a perspectiva de que desmatamento vai acontecer, porque que não se paga pelo benefício que aquela floresta em pé traz para o país e para o clima? Então, a gente precisa mudar a lógica. A agenda de desenvolvimento tem que ser a agenda de desenvolvimento da fiscalização do baixo carbono, da eliminação das emissões ao longo do tempo e com o aumento da nossa capacidade de adaptação e resiliência. A gente trata isso de uma maneira muito marginal. Fala de “PAC”, “infraestrutura”, “pré-sal”, e nada disso vem conversando com agenda de clima.

E: A agricultura realmente tem uma parcela importante na economia do Brasil, mas ela também tem uma parcela importante, se não a maior nas emissões. O que você acha que poderia mudar nessa questão da agropecuária para que ela se tornasse mais sustentável?

CR: A agricultura e a pecuária chamadas de “baixo carbono” são nada mais, nada menos, do que atividades baseadas em um modo de produção mais eficiente. Aumentar a eficiência da produção, como, por exemplo, o melhor manejo de pastagens. Um melhor uso de fertilizantes, que no Brasil usa fertilizantes em excesso. E medidas para recuperação de pastagens degradadas e solos para permitir a produção de alimentos, produzir melhor. Produzir melhor significa maior ganho para o produtor. Maior ganho para o produtor significa redução de emissões e melhor economia. É um “ganha-ganha”. Precisa muito ampliar a assistência técnica, para que as técnicas chamadas de “baixo carbono”, como integração lavoura-pecuária-floresta ou plantio direto sejam assimiladas pelos produtores pequeno, médio e grande. É necessário essa assistência técnica, mas isso não tem que ser visto como um custo, tem que ser visto como um investimento. Se ao longo do tempo o produtor está ganhando mais e estamos emitindo menos por que não fazer? Se a atividade agrícola e pecuária destrói a floresta que produz a água da qual ela depende, tem alguma coisa errada nessa equação. Nesse exato momento, temos áreas do Mato Grosso e do Pará onde produtores rurais estão sofrendo com a combinação do desmatamento e o aquecimento global. Está trazendo efeitos de queda da produtividade, quebra de safra em algumas regiões e é esse cenário que vai acontecer se não revertermos essa tendência agora. A gente desmata muito e não restaura. É parar de desmatar e restaurar muita floresta. E milhões e milhões de hectares precisam ser restaurados em áreas de preservação no Brasil.

E: Foi muito falado sobre aumentar ambição e sobre introduzir as metas de uma forma mais rápida. Vários estudos falam que 2020 é muito tarde pra fazer essas mudanças. Então, o que você acha que o Brasil deveria mudar nesse sentido, tanto de aumentar a ambição de diminuir emissões, quanto em agilizar esse processo?

CR: Está previsto aqui na Convenção de Clima o chamado “diálogo facilitado” sobre ambição a mais necessária para atingir os objetivos do Acordo de Paris. Isso deve acontecer em 2018. O que o Brasil deveria fazer ainda aqui em Marrakech, durante a COP22, é contribuir para que esse processo de 2018 não seja uma simples conversa, um simples encontro em que as pessoas se dão conta, mais uma vez, de que “olha, o que tem na mesa é muito pouco”. A gente tem uma margem muito pequena e, hoje, uma chance muito grande de não atingir os objetivos do Acordo de Paris. Então, contribuir para que haja um diálogo que traga resultados concretos. Mesmo que, legalmente, do ponto de vista do que foi acordado em Paris não exista obrigação de antes de 2020 aumentar a ambição, isso é moralmente necessário por causa dos impactos que acontecem hoje. Esses impactos tendem a crescer e vão afetar principalmente as populações mais pobres. Essa é a primeira contribuição. Segundo, é começar um diálogo dentro de casa sobre o que nós podemos fazer a mais, como nós podemos fazer mais até chegar em 2018, colocando isso na mesa e se preparar para, em 2020, entregar mais do que tem na nossa NDC. Quando a gente olha para o lado na mesa de negociação, a meta brasileira é um pouquinho melhor, uma direção, uma meta de redução absoluta de emissão. Mas todo mundo está no mesmo barco e se o nosso furo é um pouquinho menor do que o furo dos demais países, não importa. O barco vai afundar e a nossa contribuição não foi suficiente. (#Envolverde)

Brice Lalonde se diz otimista com o Acordo de Paris

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Brice Lalonde, French Ambassador for climate change, foto tirada do wikipedia

Por Gabriel Enrico e Marina Breanza, de Marrakesh – 

Político de carreira e um dos nomes mais fortes e de reconhecimento internacional na área ambiental, Brice Lalonde, ex-ministro do Meio Ambiente da França, no período de 1990 a 1992, fundador do partido Geração Verde Ecogreen e coordenador executivo da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), participa da COP22 com otimismo em relação ao futuro do Acordo de Paris.

Nesta entrevista concedida a Cásper na COP22, em Marrekesh, Lalonde, que é o representante internacional da França para as negociações do clima, imprimiu suas percepções sobre a ratificação do Acordo de Paris e os desafios e possibilidades de uma economia de baixa emissão de gases do efeito estufa.

Revista Negócios da Comunicação – Quais as suas impressões em relação à COP 22 e aos seus significados para o mundo?

Brice LalondePenso que nesta COP o mais importante é o que está em torno dos negociadores oficiais. Tem um movimento fantástico aqui, as pessoas estão muito envolvidas, há uma infinidade de iniciativas e ações. Os negociadores, na verdade, terminaram o trabalho no ano passado e agora vão arrumar os detalhes. As principais ações não são realizadas na COP, o que é chamado de “atores fora do Estado” (non estate actors). O que nós estamos vendo aqui é o grosso das atividades que envolvem os atores fora do Estado e as dificuldades de encontrar algo para negociar na sala ao lado.

Revista Negócios da Comunicação – Você acredita que os países que ratificam o Acordo vão cumprir com o que elas estão prometendo?

Brice Lalonde – Com o que está acontecendo nos EUA nós não sabemos ainda, mas o fato é que a economia de todo o mundo está indo para o caminho de baixa emissão, e essa é uma “moda” positiva.

E isso é possível, inclusive, porque os combustíveis renováveis estão ficando cada vez mais baratos. Nunca é um caminho simples, você vai e volta, vai e volta, mas o caminho é esse mesmo.

Revista Negócios da Comunicação – Você acha que um evento como este pode, de fato, impactar as pessoas?

Brice Lalonde – É importante se encontrar, as pessoas gostam de se encontrar. Aqui você pode trocar experiências e as pessoas ficam felizes em fazer isso. Mas claro que o maior trabalho é cada um de nós em nossos países. Em São Paulo o grande problema foi com a falta de água no ano passado, porém isso já está se reestabelecendo. Será que vocês conseguiram aprender a lição? (#Envolverde)

* Entrevista publicada originalmente na Revista Negócios da Comunicação.

COP 22: Hanna Gunnarsson comenta questões de igualdade de gênero

Foto: Carolina Gouveia
Foto: Carolina Gouveia

Por Pedro Henrique Nascimento e Carolina Gouveia, de Marrakesh, especial para Envolverde e para o Projeto Cásper Líbero na COP22 – 

Ativista sueca da WECF (Women in Europe for a Common Future), Hanna Gunnarsson está presente na COP22 que acontece em Marrakech, para apresentar projetos sociais relacionados às mudanças climáticas no stand da WGC (Women and Gender Constituency) instituição que existe desde 2009, formada por 16 líderes femininas que representam diferentes instituições que desenvolvem projetos e trabalham pelos direitos da mulher, da qual a WECF é parceira.

Em entrevista ao Jornal da Comunicação Corporativa, Hanna Gunnarsson comenta sobre suas percepções acerca da relação entre as mulheres e as mudanças climáticas.

Jornal da Comunicação Corporativa: Por que as mulheres são mais afetadas pelas mudanças climáticas e pelos desastres naturais?

Hanna Gunnarsson: Ao invés de dizer mais que elas são mais afetadas, eu diria que nós somos afetadas de maneiras diferentes. Existem estruturas sociais pré-determinadas que fazem com que nem todos estejam no mesmo patamar.Portanto, se nós temos desigualdade na nossa sociedade e os desastres naturais acontecem, as pessoas serão afetadas de maneiras diferentes. Por exemplo, as pessoas mais pobres são afetadas de maneira mais intensa, pelo fato de não possuírem recursos e não conseguirem sair da área prejudicada. E a maioria das pessoas que estão na pobreza são mulheres.

Foto: Pedro Henrique
Foto: Pedro Henrique

Jornal da Comunicação Corporativa: Quais as estratégias relacionadas com justiça climática que o mundo todo está usando para “empoderar” as mulheres?

Hanna: A temática das discussões de hoje (15/11) na COP22 é a igualdade de gênero.O foco está sendo as apresentações, por exemplo, de projetos que abrangem a questão do gênero para conseguir financiamento, mas não somente isso. Para que a igualdade seja plenamente alcançada, não adianta construir uma grande obra, como uma represa, e empregar uma significativa parcela de mulheres como construtoras. Os efeitos da construção vão atingir negativamente alguns grupos, por isso, é necessário refletir sobre todos os impactos envolvidos no processo e como eles podem modificar estruturas e organizações de poder. Para que a justiça climática seja de fato respeitada, é necessário incentivar as mulheres a saírem de casa e realizarem atividades econômicas, ao invés de reforçar que elas precisam realizar as tarefas domésticas.

Jornal da Comunicação Corporativa: Você acredita que a COP é um lugar que dá voz para as mulheres?

Hanna: Apesar de termos a WCG (Women Gender Constituency), não sei as estatísticas de quantas mulheres e quantos homens estão na COP22.É uma questão difícil, pois, como observadora, estou muito limitada para influenciar as negociações. Acredito que temos que educar as delegações e constantemente acompanhar essas discussões, para nos certificarmos de que as questões relacionadas ao gênero estão inseridas nos debates. Porém, no final, são os ministros que decidem. Ou seja, de uma certa forma, é muito limitado, mas estamos progredindo. (#Envolverde)

Apoio: Royal Air Maroc e JHL Viagens

* Publicada originalmente no Jornal da Comunicação Corporativa.

“Carvão não beneficia os pobres”

Por Simon Evans, do Carbon Brief –

O papel do carvão na redução da pobreza é controverso. O recente estudo Beyond Coal (Além do Carvão) do Overseas Development Institute argumenta que há melhores opções disponíveis, ou seja, que tem sido dado muito crédito ao carvão pelo progresso do passado e que mais carvão vai consolidar a pobreza, não diminuir.

Carbon Brief falou sobre os resultados com Daniel Kammen, um dos especialistas que participou do relatório. Kammen é professor de energia da Universidade da Califórnia, Berkeley, e enviado científico do Departamento de Estado dos EUA.

Kammen explicou como o relatório surgiu e qual a mensagem clara resultante:

“Tem havido uma série de relatórios acadêmicos analisando, com base no custo-benefício, como os diferentes projetos de carvão em todo o mundo – de Kosovo até o Paquistão, até a Mongólia – podem ou não ser mais baratos, melhores, do que as alternativas renováveis de energia. Em todos os casos que eu estudei, as energias renováveis se saíram melhores”.

“As lições dessas diferentes análises de carvão foram uma mensagem muito, muito forte de que os projetos de carvão estão essencialmente ultrapassados, em termos de quanto mais ou menos eles custariam. Em quase todos os casos, os projetos de carvão resultaram como mais caros, rasos. E então você tem os impactos ambientais, você tem os impactos sociais e o fato de que o carvão nem sequer entrega o resultado para o qual é realmente indicado, que é, tirar pessoas da pobreza porque, de alguma forma esta é a fonte de combustível fóssil de menor custo.

“Na verdade, o que vemos é que o carvão, se impactou em algo, manteve as pessoas em situação de pobreza, porque grandes projetos de carvão grandes em países pobres tendem a ser projetos que vão a favor de alguns grandes clientes da indústria. Eles realmente não afetam ou beneficiam os pobres”.

Jovens trabalhadores de minas na África do Sul (1988). Foto: © UN Photo/P Mugabane
Jovens trabalhadores de minas na África do Sul (1988). Foto: © UN Photo/P Mugabane

 

Kammen rejeitou o argumento de que o carvão é a solução para a extrema pobreza na África:

“Eu fico realmente um pouco desconfortável quando vejo pessoas divulgando mega projetos de combustíveis fósseis como óbvio, como a primeira coisa a se olhar. A energia distribuída limpa, por diversas vezes, tem provado ser melhor, mais barata, mais socialmente e ambientalmente positiva.

“Eu realmente sinto que, a menos que seja um caso totalmente único – e eu realmente não sei de qualquer agora – o mais simples é combater o carvão, com exceção de alguns analistas retrógrados que estão olhando o que a economia de energias renováveis era há uma década. Hoje, é uma história diferente.”

Kammen também explicou porque as fábricas de combustíveis fósseis devem responder ao Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas:

“No ponto no século estamos indo a necessidade de ir além tentou-e-verdade, porque maioria dos países do mundo têm penhor realmente muito significativas feitas em torno do acordo climático Paris.

“Qualquer usina de combustíveis fósseis construída hoje precisa estar sob um regime econômico totalmente diferente. Usinas de carvão não levam isto em conta. O construtor de usinas a gás de 2016, 2017 deve estar disposto a se aposentar em vinte anos décadas, para que os países fiquem dentro das promessas que estão fazendo. ”

A entrevista completa, em inglês, está disponível abaixo:

Daniel Kammen é professor de energia da Universidade da Califórnia, Berkeley. Também é diretor fundador do Laboratório de Energia Renovável e Apropriada, codiretor do Instituto de Meio Ambiente de Berkeley, diretor do Centro de Pesquisa de Transporte Sustentabilidade e atua no Comitê Consultivo para a Energia e Ambiente para a Fundação X-Prize. Em fevereiro 2016, foi nomeado como enviado da ciência para o Departamento de Estado dos EUA. (WWF Brasil/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no dia 4 de novembro de 2016 no site Carbon Brief e retirado do site WWF Brasil.