Um novo dia para as mulheres

Por Maria Helena Masquetti* 

“O que realmente querem as mulheres?”, “Dez passos para entender as mulheres”, “As mulheres nunca estão satisfeitas”. Presentes na literatura clássica ou especializada, nos programas de TV, na internet e nas mais superficiais revistas expostas nas bancas, geralmente estas perguntas continuam indo do nada a lugar nenhum por tentar convencer as mulheres de que suas já tão banalizadas insatisfações se resumem a questões triviais. Na verdade, a insatisfação é mais antiga. O dia 8 de março de 1857, que deu origem ao Dia Internacional da Mulher, não fala de glamour nem de flores como convém ao marketing, mas da repressão policial violenta a um movimento feito por trabalhadoras de uma indústria têxtil de Nova Iorque pela igualdade de direitos trabalhistas e pelo direito de voto.

Se a cultura da competição e a ignorância cristalizaram tal desigualdade de direitos entre os sexos, isso não quer dizer que a natureza tenha se adaptado à ideia. Entre as insatisfações atribuídas a cada mulher, nobre ou pobre, reside latente e ancestral a inconformação sobre os direitos que lhe têm sido roubados. Em números, eles estão representados pela diferença de quase 30% a menos nos salários¹ em relação a homens em função similar; pelos 63 mil relatos de violência doméstica registrados em menos de um ano²; pelas diversas formas de assédio sofridos cotidianamente e pela média sinistra de 500 mil mulheres estupradas no país por ano³, das quais cerca de 70% são crianças e adolescentes. E urge somar aí os interrogatórios constrangedores a que muitas são submetidas a ponto de se calarem pelo medo de denunciar o crime.

Como pode uma espécie, ainda mais a humana, discriminar justamente a outra (e única) parte responsável por sua própria continuidade? E como classificar de guerra dos sexos uma luta onde, há séculos, um lado perde continuamente por lutar praticamente sem armas, principalmente as legais? E sem entender porque deveria, enfim, guerrear. Diante disso, tentar responder sobre o que as mulheres realmente querem com argumentos frívolos e mensagens comerciais oportunistas chega a ser mais uma violência contra a dignidade feminina.

Foto: © DR

 

Desnecessário recorrer a pesquisas para constatar o quanto as mulheres são habitualmente a maioria onde o futuro da raça humana está em jogo. Que o digam as salas de aula do mundo onde, pelas mãos delas, exércitos de meninas e meninos constroem uma parte fundamental de suas historias! Que o digam as maternidades onde a cada segundo, uma mulher assegura a continuidade da vida! Que o digam os lares onde, sob o desvelo maternal, as crianças ensaiam seus primeiros passos! Que o digam a solidariedade, os colos acolhedores, as lágrimas de compaixão e a oposição inflexível às guerras, geralmente tão mais explícita na natureza materna! Como pode alguém tão imprescindível ser tão subestimado somente a estupidez e a ganância podem explicar.

Quando perguntada sobre o que era a mulher em seu tempo, a escritora Virginia Woolf respondeu: “Não acredito que alguém possa saber até que ela tenha se expressado em todas as artes e profissões abertas à habilidade humana”. Se ainda estivesse aqui, oitenta anos depois, Virginia provavelmente se espantaria por ver o quão pouco o mundo evoluiu na equiparação dos direitos entre mulheres e homens. Apesar disso, resta lembrar que esta desigualdade foi forjada pela vontade humana e, sendo assim, do mesmo modo, pode ser revogada por ela. A vontade da sociedade aliada à vontade política são decisivas para nos transformar, como diria Ghandi, na mudança que queremos ver no mundo. Que não esteja longe, portanto, o dia em que, em lugar de parabéns num dia 8 de março, as mulheres recebam de todas as partes do mundo um pedido histórico de desculpas por meio de uma consciência global renovada, acompanhado pelo ressarcimento, mesmo que apenas moral, de tudo o que a humanidade lhes deve. (#Envolverde)

Referências 

¹ http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/12/1837738-diferenca-de-salarios-entre-homens-e-mulheres-aumenta-em-cargos-de-chefia.shtml

² http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-1-denuncia-de-violencia-contra-a-mulher-a-cada-7-minutos,10000019981

³ http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/21/politica/1442871349_074158.html

 

* Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

A empatia transforma o mundo

Por Maria Helena Masquetti*

Sobre a notícia que circulou há poucos dias, denunciando pessoas que estariam se deitando numa via movimentada a fim de praticar assaltos, sabe-se, por ora, que nenhuma vítima se apresentou. De qualquer forma, é natural que uma situação assim gere medo e nos mantenha alertas à emboscada. No entanto, mais assustador do que esta notícia, foi o número de comentários sobre ela na internet, dizendo quase em uníssono coisas do tipo: “Agora sim ficou mais fácil passar por cima. E ainda dar marcha a ré”, enquanto outros até questionavam se haveria “jurisprudência” para o caso de darem a ré, repetindo o atropelamento.

Que crianças negligenciadas, brutalizadas e privadas de afeto venham a se tornar criminosas, chega a fazer algum sentido, mesmo que mórbido. O que não se explica, no entanto, é que pessoas que tiveram a sorte de nascer em realidades melhores, reajam ao fato com tantos requintes de crueldade: “Um rolo compressor resolveria o problema”, o que leva a pensar em como seriam então tais pessoas se tivessem sido criadas nas mesmas condições que os delinquentes que ora execram. Embora o conceito de se combater o horror com o horror não seja exclusivo das pessoas menos instruídas, somente a empatia pode gerar respostas mais promissoras sobre a questão da violência.

Quando nos interessamos em entender a origem da criminalidade, nos damos conta de que nenhum bebê chega ao mundo decidido a se tornar uma ameaça para a sociedade, fato confirmado pelos direitos das crianças, de todas elas, assegurados em nossa Constituição: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” (art. 227). Enquanto crianças estiverem sendo privadas destes direitos, significa que nós também, enquanto sociedade, estamos descumprindo nosso dever legal de protegê-las.

Um conflito, uma perda ou uma injustiça em casa ou no trabalho costumam ser suficientes para deprimir e abalar pessoas nascidas até em berços privilegiados. Por que, então, quando se trata daqueles que não tiveram, muitas vezes, acesso a cuidados mínimos e afetos que os humanizariam, o julgamento costuma ser tão implacável? Quantos executivos de formação acadêmica louvável e currículos atraentes já não caíram em desespero por passar meses na busca infrutífera de um emprego sem, no entanto, serem rotulados como vagabundos tal como acontece impensadamente em relação à qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade? Refletir sobre tudo isso nada tem a ver com “passar a mão na cabeça de bandido”, como se tornou evasivo e conveniente dizer, mas sim na própria consciência.

Seja de forma individual ou coletiva, ser empático é não generalizar e rotular sumariamente.  É não concordar que a fome e a miséria sejam um componente natural da história humana. Ser empático é defender e apoiar a implantação de políticas públicas eficazes e dizer não àquelas criadas apenas para maquiar problemas. Ser empático é olhar para as desigualdades com a coragem de perguntar: “Até onde eu também contribuo para isso?”. Carl Rogers, psicólogo pioneiro por focar sua atenção na tendência para a saúde em lugar da doença, concluiu, há mais de meio século, o que, para muitos, ainda hoje, falta compreender: “Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele”. (#Envolverde)

*  Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

Emoção é argumento de vida, não de vendas

Por Maria Helena Masquetti*

“Boa noite, aqui está um tênis que pode ser o ideal para seu filho, feito com este material resistente, além do design que respeita a anatomia dos pés infantis, dando-lhe mais segurança e equilíbrio ao caminhar”. Este não é, infelizmente, o texto de algum comercial conhecido, primeiro por abordar os pais em lugar de se dirigir diretamente às crianças e, segundo, por descrever os atributos do produto em lugar de simplesmente associá-lo a um brinde ou brinquedo, ou então afirmar que o tênis é o mesmo usado por algum ídolo do esporte admirado pela criança.

Bem diferente disso, as mensagens comerciais que nos chegam propõem a decisão de compra diretamente às crianças, abordando-as como consumidoras embora elas sejam consideradas incapazes, perante a lei, de praticar os chamados atos da vida civil. Até aí, trata-se de uma transgressão legal claramente pendente de uma determinação jurídica menos condescendente e mais efetiva. O problema talvez ainda maior são os efeitos da mercantilização da emoção na formação das crianças e, por que não, da própria raça humana.

Da experiência em publicidade, lembro-me do dia em que toda a agência se reuniu para ver, em primeira mão, uma campanha finalizada para câmeras fotográficas, prestes a ser veiculada. O tema foi simples e eficaz: uma sequência de imagens, envolvendo diferentes situações com crianças e apelos tocantes sobre a importância de se guardar momentos inesquecíveis da infância.

Apesar do uso de crianças para atrair a simpatia dos adultos para o produto anunciado, a campanha tinha a seu favor o fato de não ser uma mensagem para crianças, embora pudesse ser vista em qualquer horário (como volta a ocorrer agora com o fim da classificação indicativa que protegia as crianças de conteúdos inadequados à sua idade). As imagens eram realmente sensíveis, dessas que nos levam facilmente às lágrimas quando comparamos com os momentos únicos que vivemos (ou que perdemos) ao lado nossos filhos e crianças do nosso convívio.

No entanto, como reza o ditado, o diabo mora no detalhe e aquele ecoou quase em coro com as vozes da maioria dos publicitários presentes: “Vai vender que nem água!”. Em lugar de olhos marejados, uma explosão de risos e a empolgação geral pela preconização do recorde certeiro de vendas, tal como se verificou depois pelo saldo altamente positivo da campanha.

Foto: Shutterstock

 

Usar temas que tocam profundamente o coração das pessoas é uma das estratégias mais comuns da publicidade, uma vez que a emoção é como o cimento fresco sobre o qual a marca ficará impressa na mente do consumidor. Porém, se usar a emoção para multiplicar vendas é banalizar o que temos de mais humano, mais grave ainda é se endereçar uma mensagem ao consumidor por sabê-la profunda a ponto de induzi-lo a comprar, tal como um pescador à espera do peixe após atirar a isca. E se isso mobiliza (ou imobiliza?) tantos adultos, o que dizer quando o público-alvo são as crianças?

“No mundo realmente invertido, a verdade é um momento do que é falso”. Esta reflexão de Guy Debord, escritor francês e autor de A sociedade do Espetáculo, resume de forma aterradora essa manipulação de algo que nos justifica e caracteriza como humanos. Por outro ângulo, Oscar Wilde, cineasta e dramaturgo britânico também critica essa naturalidade fria com a qual o marketing provoca sentimentos que ele mesmo não sente para fazer dinheiro: “Um cínico é um homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada”.

Tomando como inspiração a capacidade infantil de dar vida à imaginação, resta desejar que a própria emoção leve a melhor sobre a ganância. Que ela traia os propósitos mesquinhos de um modo superior à pequenez da crença material, inundando os rostos de estrategistas, anunciantes, criadores e consumidores com as lágrimas sinceras do encantamento com a infância e da preocupação com o futuro das próximas gerações. Que o dinheiro tenha seu lugar no mundo para comprar as coisas do mundo e os sentimentos tenham seu lugar nos corações para preservar as coisas que não têm preço, perpetuando para as crianças a compreensão vital de que a emoção não se vende. (#Envolverde)

* Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

O presente que as crianças mais querem

Por Maria Helena Masquetti*

Quem já não participou de uma conversa animada entre amigos quando o assunto eram fatos vividos na infância? Volta e meia, essas recordações acontecem e raramente o que nos salta primeiro à lembrança são os presentes que ganhamos, exceto quando vinham carregados de alguma história ou significado especial.

No entanto, como em todos os anos, muitos pais e familiares estarão às voltas nestas festas com a busca de presentes para suas crianças. É claro que a intenção de fazê-las felizes é a maior razão de tantos sacrifícios de tempo ou dinheiro, porém, presenteá-las com algo valioso e inesquecível, gastando o mínimo e ainda gerando recordações que as acompanharão para sempre, também é perfeitamente possível. A questão é o quanto estamos determinados a resgatar das mãos do marketing o conceito de felicidade com o qual ele tenta revestir produtos e serviços diversos.

Diferentemente desta felicidade artificial que o marketing tanto propaga, as crianças, quando livres no seu brincar, encontram prazer e alegria em coisas que quase nem percebemos. Numa viagem rápida pela própria imaginação, elas mergulham em cenários cuja beleza nenhum brinquedo – ainda mais concebido e fabricado por adultos – pode reproduzir.

Diferentemente desta felicidade artificial que o marketing tanto propaga, as crianças, quando livres no seu brincar, encontram prazer e alegria em coisas que quase nem percebemos. Foto: Shuttestock
Diferentemente desta felicidade artificial que o marketing tanto propaga, as crianças, quando livres no seu brincar, encontram prazer e alegria em coisas que quase nem percebemos. Foto: Shuttestock

 

Forçando um pouco a memória, talvez nos recordemos de uma boneca de pano ou do carrinho de lata que alguém nos ajudou a fazer. Provavelmente nos volte à memória a euforia com a qual acordávamos para uma viagem de férias ou mesmo para a casa de um parente mais próximo. Ir encontrar os avós, fosse no aeroporto ou num ponto de ônibus, podia nos render horas de expectativa. Enfileirar cadeiras na sala para apresentar à família envolvida uma risonha e mambembe peça teatral era um espetáculo e tanto. Construir um brinquedo com o envolvimento de um adulto então, melhor que não ficasse pronto tão cedo a fim de prolongar um momento tão bom. Exemplos assim são fragmentos minúsculos do arsenal de ideias que podemos colocar em prática, usando o tempo que iremos gastar percorrendo lojas nos shoppings atrás de objetos que perderão a felicidade que prometem antes mesmo que a inclemente fatura do cartão de crédito nos seja entregue.

Se perguntarmos, hoje, a uma criança alvejada por comerciais sobre o que ela deseja ganhar, na maioria das vezes, sua resposta será automática, além de praticamente em coro com milhões de outras crianças que estarão pedindo por um mesmo produto, da mesma marca, do mesmo tamanho ou até da mesma cor. E isto sem que nos debrucemos a pensar sobre o quanto essa padronização do desejo pode afetar a construção da identidade dos pequenos e, mais tarde, suas próprias convicções adultas.

Ante a perspectiva de ver nossas crianças crescerem desejando o que o marketing deseja para elas, é de pasmar o contrassenso expresso nas assinaturas de tantos comerciais; “Para você que sabe o que quer” ou “Quem sabe o que quer, vai mais longe!”. Neste contexto contraditório das vendas, essas assinaturas são ocas de fundamento, ao passo que podem se tornar verdadeiras se estivermos com nossas crianças, nomeando suas características individuais e gerando condições para sua expressão própria.

Dado o bombardeio diário e das bem engendradas mensagens endereçadas aos pontos mais frágeis das crianças, provavelmente a maioria delas prefira os produtos anunciados muito mais do que os presentes marcados pelo afeto e pela correspondência com seus anseios legítimos. Cabe, no entanto, àqueles que realmente querem o melhor para elas, não abrir mão do que acreditam. Nada é mais convincente para uma criança do que ver nos adultos de quem elas dependem a convicção de que ser é melhor do que ter e a alegria de construir junto com elas uma felicidade possível e uma história de infância rica de inventividade e ternura que elas não se cansarão de lembrar e contar. (#Envolverde)

* Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

A metade que falta para as princesas

Por Maria Helena Masquetti* 

“Socorro, socorro, estou me afogando!”, grita a pequena Abigail, de 4 anos, para seu príncipe encantado, num trecho do livro “Em defesa do faz de conta”, da psiquiatra e ativista norte americana, Susan Linn. O resto, a própria Susan descreve, uma vez que participou pessoalmente da brincadeira: “Curiosa para ver o que Abgail faria, pulei no mar e logo comecei a gritar: ‘Socorro, não sei nadar!’. De repente, a história mudou. ‘Eu lembrei como se nada!’, exclamou a pequena, saindo em meu socorro, salvando-se a si mesma e ao príncipe.”

Esta citação de Susan remete imediatamente a dois fatos que clamam por uma reflexão. Por um lado, trata-se da chamada Escola de Princesas onde meninas, só meninas, imersas num ambiente absolutamente cor de rosa, aprendem, a partir dos quatro anos, sobre etiqueta, cosmética, culinária, arrumação da casa, participam de passeios de limusine e, conforme exalta uma das mães: “Acredito que ela não vai dividir grandes funções com o marido porque ela vai pedir que o marido compre aquela flor, ela vai pedir que o marido traga aquele detalhe que ela quer pra dentro de casa.”

Quanto ao outro fato, o próprio nome diz de sua contraposição ao primeiro: Curso de Deprincesamento, criado pela Oficina de Proteção dos direitos da Infância da cidade de Iquique, no Chile. O propósito é estimular a autonomia das meninas, de nove a quinze anos, para ampliar nelas as possibilidades do que é ser mulher a fim de se defenderem de abusos. E também para extinguir conceitos como a procura do príncipe encantado como forma de serem mantidas ou salvas por eles como retratam a maioria dos filmes baseados em versões praticamente comerciais dos contos de fada originais.

Se é de se lamentar que os abusos contra a mulher levaram a organização chilena a adotar um curso onde meninas tenham que aprender a se defender numa cultura machista, é surpreendente também que tantas mulheres apoiem a ideia de especializar suas filhas para bem servir em lugar de estimulá-las na busca da autonomia.

É urgente refletir, então, sobre o quanto a cultura da fragilidade coloca as mulheres cada vez mais para fora do cenário profissional e político. Em lugar de príncipes encantados, a verdadeira metade que falta para elas é, por exemplo, a ocupação igualitária nas tribunas e cargos públicos, a equiparação de seus salários com os de homens na mesma função, o fim da violência doméstica, a proibição de seu uso como mero objeto sexual tão impunemente visível até nos comerciais de cerveja e a erradicação dos estupros cuja culpa ainda recai muitas vezes sobre elas mesmas sob alegações cínicas, incluindo o tipo de roupa que estariam usando, principalmente se não for cor de rosa.

Escola de Princessas ensina culinária, etiqueta e dicas de beleza para meninas. Foto: Divulgação
Escola de Princessas ensina culinária, etiqueta e dicas de beleza para meninas. Foto: Divulgação

 

Vale imaginar o que devem entender os meninos que hoje veem meninas se embrenhando em cursos para melhor atendê-los no futuro enquanto o contrário é impensável para eles. Se criar os filhos e cuidar da vida doméstica são tidos como tarefas exclusivas da esposa, o que sobrará para estes meninos a não ser a constatação de que nasceram para governar enquanto elas nasceram para ser, quando muito, primeiras damas?

E como por trás de uma insensatez geralmente tem outra, o que dizer a respeito do encurtamento da infância causado por todo esse chamamento das crianças para questões do mundo adulto? O simples consenso geral de que as crianças devem brincar em lugar de se preparar para matrimônios ou aprender a se defender de abusos, já seria um indicativo forte de nossa evolução. Isto porque, brincando livres das competições adultas, meninas e meninos têm a oportunidade de construir sua identidade única, de se expressar com liberdade, de confirmar sua dependência mútua, de descobrir seus genuínos desejos e de crescerem para ser o que quiserem ser, num mundo nem rosa nem azul, mas da cor da igualdade de gênero e do respeito aos direitos. (#Envolverde)

Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

A chave do destino de cada criança

Foto: Divulgação/ http://www.brickshelf.com/
Foto: Divulgação/ http://www.brickshelf.com/

Por Maria Helena Masquetti*

Quem já observou um entroncamento de linhas de trem deve ter visto este equipamento simples da foto, mais conhecido como a chave do desvio que, num pequeno movimento da alavanca, realinha os trilhos do trem de modo que ele siga para o seu destino previsto. Cada um de nós, pais, parentes, amigos, mestres, governos e a sociedade como um todo, somos como esta chave que, às vezes, com um clique de nossa intervenção, podemos colocar num rumo mais promissor a vida de uma ou de muitas crianças.

Por mais devastadores que a indiferença e o abandono possam ser para a saúde psíquica de uma criança e até mesmo de adultos, são, felizmente, muitos os exemplos onde uma interferência individual ou social foi capaz de reverter prognósticos de futuro desoladores. Na maioria desses casos, bastou o lugar do maltrato ser ocupado por alguém empático, e com uma disponibilidade mínima, para mostrar que se importava sinceramente com a criança para reanimar-lhe a confiança em si mesma e no mundo.

Em sua versão construtiva, o uso humanizado deste lugar de poder é o que pode tornar o médico mais terapêutico que o remédio, o mestre mais instrutivo que o ensino, o padre mais milagroso que a religião, e os pais maiores que tudo isso ao se darem conta do quanto suas palavras e atitudes são decisivas para a forma como seus filhos irão lidar com os desafios e acreditar na viabilidade de seus sonhos.

Quem tiver à sua frente a missão de formar uma criança, deve levar em conta que, nos primeiros anos, o mundo para ela se refere àqueles de quem ela depende e ao modo como é acolhida por eles. É por esta ótica que, para muitas pessoas, mesmo lidando com adversidades, o mundo se apresenta amistoso e pleno de possibilidades enquanto, para outras, em condição até mais favorável, pode parecer limitador e hostil.

“Nossa, que desenho interessante!”, “Que história fascinante você está me contando!”, “Sim, concordo com você que os golfinhos deveriam ter asas”. São infinitas e inusitadas as expressões e ideias que gravitam no universo íntimo de cada criança, todas, porém, à espera da chancela de quem elas possam sentir como confiáveis. Como a cena imaginada que ganha vida quando o pintor a materializa na tela, assim também ganham vida, concretude e valor as ideias e sentimentos das crianças quando recebidos e legitimados por quem tenha construído junto a elas uma credencial afetiva para isso.

Se o bem-estar e o desenvolvimento das crianças não for prioridade para uma comunidade ou nação, nada mais poderá ser, uma vez que serão elas que tocarão em frente nossa busca de um mundo melhor. Na proporção do lugar que ocupamos em sociedade, nossas principais perguntas diante de uma criança ou das crianças em geral em situação vulnerável devem ser: “O que está ao meu alcance fazer para melhorar a vida desta criança?” ou “O que posso fazer para ajudar a tirar do abandono tantas crianças em minha cidade, em meu estado, em meu país?”.

“Minha mãe nunca me deu sequer um beijo e eu me sentia perdida no mundo, mas sempre que minha madrinha chegava, todos os seus beijos eram pra mim”, “Meu pai me desmerecia e humilhava, mas meu professor sempre me dizia que eu era capaz de fazer melhor e eu fazia”. Mesmo nos casos em que a autoridade dos pais foi justamente a que mais falhou, a presença empática e amorosa de um substituto, muitas vezes até fora da família, tem sido a chave que, acionada num momento oportuno, possibilitou colocar nos trilhos o trem de tantas vidas que, há muito, poderiam ter se descarrilhado.

Recordando Gandhi: “Temos que nos tornar a mudança que queremos ver no mundo”.  A chave está em nossas mãos e bastaria que todos juntos somássemos nossas pequenas ou grandes ações para salvaguardar e honrar o maior patrimônio de nossa humanidade que pulsa no encantamento e no brincar das crianças. Há uma infinidade delas esperando por uma intervenção única que seja de nossa parte para que os capítulos tristes de suas existências possam ser reescritos rumo a um final mais feliz. E se agirmos rápido, não figuraremos como os vilões na história. (#Envolverde)

Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

Quanto tempo temos de vida?

Por Maria Helena Masquetti*

“Como era, por exemplo, seu cotidiano na adolescência?”. É comum perguntar algo assim a um jovem de vinte e poucos anos e em busca de ajuda para um transtorno emocional. “Ah, sei lá, não lembro de nada, o que isso tem a ver com minha depressão?”

Espera daqui, encoraja dali até que, depois de um tempo, ou mesmo após muitos dias, algumas lembranças enfim aparecem: “Ah, lembro da minha primeira excursão na escola, de quando ganhei meu primeiro vídeo game, da minha formatura, da minha viagem pra Disney, da minha primeira balada…” . Aos poucos, vai sendo possível vislumbrar as prováveis razões para o mal estar desse e de tantos outros jovens que, cada vez mais, se queixam de angústias que tão pouco combinam com o brilho da juventude.

Como pode alguém estar feliz e percebendo-se pleno de sua própria existência quando seu conceito sobre felicidade vem sendo, desde cedo, atrelado somente a picos altos de contentamento motivados por ocasiões especiais, notadamente as de consumo? Sendo assim, temos que cuidar para que as crianças não cresçam constatando que a felicidade, tal como elas a entendem, só entra em casa quando entra uma TV nova, quando se troca de carro, quando uma festa glamourosa ocupa o melhor lugar nas conversas em família ou quando a viagem dos sonhos acontece, geralmente regada a compras e aventuras patrocinadas por marcas e personagens.

Sem a capacidade de abstração plenamente desenvolvida, as crianças não compreendem como felicidade, a segurança de um lar, a sorte de contar com quem as ame de fato e se preocupe verdadeiramente com elas, a previsibilidade dos cuidados adequados, a chance de estudar e aprender, a capacidade de resolver problemas, o respaldo de uma família, a cama quentinha, o alimento sempre presente na mesa, entre tantos outros aspectos que compõem o jeito maduro de reconhecer-se feliz.

Foto: Shuttestock
Foto: Shuttestock

 

Confundindo ainda mais os pequenos sobre esses valores, as mensagens comerciais – que, aliás, falam diretamente com eles – reforçam continuamente que a felicidade se resume em comprar os produtos e serviços anunciados. Difícil explicar a eles que, assim que saem das lojas, os produtos perdem o encanto da embalagem, o sentido da mensagem se esvai e a iluminação das vitrines se apaga. E que, por não terem vida, a felicidade que eles prometem é irreal, desaparecendo no momento de serem usados. Isso quando não deixam para os pais a infelicidade de uma conta pesada para pagar.

É desse modo, então, que, bem embaixo de nossos narizes, a felicidade de cada dia vai sendo desconsiderada ou entendida como nula, levando tantos jovens a tentar preencher com objetos, psicofarmacos ou substitutos diversos a sensação de “não vida” gerada pela insistente valorização do comprar e pela desvalorização das coisas simples que valem tanto.

Quando livres do assédio consumista, as crianças vivem intensamente cada segundo. Seja pesquisando a profundidade de um furo na parede, seguindo pacientemente um caracol ou construindo um brinquedo, elas vão se preenchendo de dados, de experiências e de pequenos prazeres que um dia somarão muitos, dando-lhes uma percepção mais nítida de quanto tempo vivido têm dentro de si. Cada minuto tem seu significado e cada lembrança conta para ajudar alguém a crescer construindo uma história e experimentando uma felicidade nem falsa nem eufórica, mas uma felicidade simples, mansa e continua como o correr de um rio. (#Envolverde)

* Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

Os primeiros dias do resto de nossas vidas

Fodo: Divulgação/ OCDV
Fodo: Divulgação/ OCDV

Por Maria Helena Masquetti*

“O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. Talvez esta simplicidade certeira do poeta Mário Quintana seja a mais credenciada para representar as conclusões de tantos observadores, pesquisadores, médicos, educadores e pensadores que, sob diferentes ângulos de visão, vêm alertando o mundo para a importância dos primeiros anos na vida de cada criança.

Não é necessário sermos engenheiros ou arquitetos para saber que a fase mais importante de qualquer edificação é seu alicerce. O que vier depois dependerá dessa base para ela se manter em equilíbrio e resistir à ação do tempo. As crianças também são assim, apenas a matéria da qual elas são feitas é infinitamente mais delicada e frágil. A argamassa que fixa com segurança os pés delas no chão é a alegria de serem amadas, a aventura de descobrir o mundo amparadas por mãos firmes e a confiança de se abandonarem no colo forte e protetor daqueles que a amam.

Por estarem em desenvolvimento, nos primeiros meses, as crianças pensam e sentem de uma forma espelhada seja em relação à figura materna ou de quem lhes faça as vezes. O mesmo se dá em relação às condições do ambiente no qual elas são concebidas e criadas. Por isso é tão fundamental que seus pais estejam bem ou amparados também, conforme o caso, e que o ambiente possa ser então essa referência acolhedora e amorosa que a criança poderá tomar, enfim, como um reflexo dela mesma.

Desde a concepção e até antes dela, cada experiência pode fazer a diferença na percepção que a criança terá sobre o mundo que a rodeia e na consequente construção de sua personalidade. Como um DNA dos destinos, a infância, da forma como for vivida, será determinante para o resto da vida de toda criança. Portanto, se algo não estiver indo bem, precisamos intervir rápido e com vigor, cada qual com suas atribuições, obrigações e possibilidades para fazer desse começo um dos melhores capítulos da vida delas.

No filme O Começo da Vida, de Estela Renner, várias situações tocantes mostram a importância desse cuidado e atenção com os filhos desde o momento em que foram concebidos. Ao mesmo tempo, porém, alerta a sociedade e o poder público sobre a urgência de políticas capazes de dar suporte a uma multidão de mães e pais que enfrentam, a duras penas, o desafio de garantir uma infância tranquila e feliz para seus filhos.

Contrariando a concepção antiga de criança como um ser inacabado, a infância é a melhor versão de cada ser humano pela capacidade que os pequenos têm de enxergar a beleza ou as saídas que muitos não podem ver, pela capacidade lúdica de reinventar a realidade, pela naturalidade com que praticam a inclusão entendendo que, com o outro, é tão mais gostoso brincar ou ainda pela magia de tocar o futuro com as mãos sem ter chegado lá. São tantas as maravilhas contidas em cada criança que é inadmissível ver muitas delas perdendo pelo caminho suas melhores razões para acreditar na vida em função de qualquer desamparo, seja ele de que ordem for.

“Se mudarmos o começo da história, mudamos a história toda” é uma das muitas falas presentes no filme e que nos ajuda a refletir sobre a infância como a matriz da existência que precisamos manter intacta para que se reproduza em plenitude de geração em geração. Cada ventre grávido carrega essa matriz, cada bebê que chora e cada criança que ri é o desabrochar delicado de alguém que chegou para fazer a diferença no mundo. Porém, para que assim aconteça, a infância deve ser nossa prioridade absoluta e, como tão oportunamente adverte a canção, “há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”. (#Envolverde)

Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

A esperança é a última a ser medicada

Foto: Shuttestock
Foto: Shuttestock

Até quando autoridades optarão pela solução mais higiênica em lugar de ouvir e proteger verdadeiramente as crianças? Até quando a tão lucrativa indústria farmacêutica seguirá preenchendo com comprimidos os vazios que só o contato afetivo, a vontade política e uma sociedade mais justa e igualitária podem de fato preencher?

Por Maria Helena Masquetti*

Como nos sentiríamos se, ao gritar de dor ou vociferar depois de ter levado uma martelada em pleno dedão do pé, as pessoas em volta estranhassem nosso comportamento, nos oferecendo um medicamento para acalmar e conter nossa reação? E se, por acaso, essa martelada se repetisse por muitos dias seguidos e, em função de nosso comportamento cada vez mais colérico, decidissem nos internar numa instituição psiquiátrica? Desespero, confusão, perplexidade seriam certamente alguns dos sentimentos que nos dominariam. Até porque, se cantássemos ou assoviássemos ao levar as marteladas, aí sim nossa saúde mental deveria ser posta em dúvida.

Aos sete anos, Edu (seu nome verdadeiro rima assim) vem levando marteladas tão doloridas ou mais do que as imaginadas acima. Uma delas foi quando presenciou a morte da tia, brutalmente assassinada numa retaliação por traficantes de drogas. Outra quando foi levado para uma instituição de acolhimento sob a justificativa legal de que estaria melhor protegido uma vez que o avô e a mãe, embora amorosos, não davam conta de lhe garantir a segurança e cuidar de seus vários outros irmãos.

Questionamentos à parte sobre tal decisão judicial, o que importa é que as marteladas têm sido duras demais para Edu. Considerando a quantidade de experiências amargas tão cedo vividas por ele, ter rompantes de agressividade, reagir com revolta às frustrações e negar-se a cumprir algumas regras, tudo isso deveria ser computado como bons sinais de saúde mental pela relação direta com as adversidades que ele tem enfrentado.

No entanto, em lugar de ser amparado por escola, familiares ou terapeutas – coisas impensáveis na vida de Edu – ele acabou sendo encaminhado para outra instituição, só que, dessa vez, psiquiátrica. É certo (e óbvio) que não se trata de uma criança dócil – como se tantas outras de condição até mais privilegiada o fossem. Porém, a partir dessa internação, resta imaginar quantos comprimidos diários serão necessários para comprovar que os comportamentos inadequados de Edu se resumem a disfunções psíquicas.

Descartar a validade de expressões genuínas apenas por não serem exemplares – leia-se passivas em uma infinidade de casos –, é tentar apagar a parte mais viva de uma criança. Medicar reações infantis com causas tão expostas e evidentes, é excluir mais ainda a criança e pretender sanar os problemas socioeducativos literalmente com um mesmo “remédio”, tornando coincidente e oportuna aqui a analogia de Abraham Maslow, psicólogo americano: “Para quem só sabe usar martelo, todo problema é um prego”.

Não bastasse isso, quem dera o debate sobre a medicalização da infância estivesse restrito à avaliação precipitada de crianças em situação de maior vulnerabilidade social. Há muito que a já famosa TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade) se tornou um diagnóstico quase sumário para as inquietações de crianças de todas as camadas sociais que relutam ser enquadradas em modelos padronizados de comportamento.

Desde o século passado, o renomado pediatra e psicanalista infantil Donald Winnicott já havia observado que: “Quando a criança não consegue mais chorar é porque já perdeu a esperança”. Assim, até quando as crianças deverão ser caladas e contidas justamente quando tentam mostrar onde dói? Até quando autoridades optarão pela solução mais higiênica em lugar de ouvir e proteger verdadeiramente as crianças? Até quando a tão lucrativa indústria farmacêutica seguirá preenchendo com comprimidos os vazios que só o contato afetivo, a vontade política e uma sociedade mais justa e igualitária podem de fato preencher? A falta de respostas lúcidas para tantas questões assim é o que realmente deve preocupar e demandar um tratamento eficaz e urgente. (#Envolverde)

* Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana. Também é colunista do site Envolverde, onde o artigo foi originalmente publicado.

O impacto profundo do marketing sobre a delicadeza do amor

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por Maria Helena Masquetti*

Pergunte-se de pronto a um jovem: “Quem é você?” e a resposta, na maioria das vezes, vem pronta: “Bem, eu gosto de videogame, adoro dançar, ir ao shopping, faço musculação, tenho muitos amigos no face, torço para o time tal..”. Refaça-se então a pergunta: “Quem é você e não o que você faz ou possui” e, com raras exceções, a resposta será um silêncio confuso. Como pode um jovem, nesse cenário atual, saber realmente quem é e reconhecer seus genuínos desejos quando o marketing já desejou por ele, muitas vezes antes que aprendesse a falar?

Meu filho, não fale com estranhos!” Do conselho ingênuo de outrora muito pouco restou. Paira agora nas ruas e na privacidade de nossas crianças e jovens uma onipresença de estranhos que, a todo momento, as assedia para comprar, pensar ou agir de algum modo ou as induzem concretamente ao erro, fazendo se passar por amigos nas salas de bate-papo e outros meios interativos. Isto sem falar nas muitas celebridades que, ao vivo e em cores, tanto deturpam-lhes a educação como chegam a confessar atos repudiáveis com a pretensão hedionda de fazer rir suas platéias.

Elencadas pela colunista Carol Wojtyla** (que tem nome de papa, mas não perdoa os pecados da massificação), as distorções do amor próprio ganham status de normalidade: pré-adolescentes revelando-se defasados em seus grupos por não terem ainda um relacionamento sexual; meninas aceitando sofrer violências físicas por parte de parceiros – quase crianças também – em nome de concepções estúpidas sobre prazer sexual, além de jovens que se deprimem por não terem recebido um número idealizado de likes para as selfies que postaram nas redes sociais.

Perdidos num bombardeio diário de conceitos equivocados e tomando por legítimos os conselhos de especialistas em coisa nenhuma, jovens mal saídos das fraldas dão-se por preparados para ter sucesso no amor. Ouvir, por exemplo, entre eles, que o segredo para cativar um parceiro amoroso é esperar que este se mostre apaixonado para, estrategicamente nesse momento, revelar-lhe que “não está mais tão fim” é de levar às lágrimas pela morte do sentido pleno do amor e da delicadeza que envolve tudo o que é motivado por ele.

Olhando esse cruel panorama, nos damos conta do quanto, no decorrer do tempo, o marketing foi longe demais e do quanto, acuados por ele, os pais e toda a sociedade reagiram de menos, sem prever que a avidez pelo lucro jamais teria limites e que sua fonte maior de alimento estaria justamente no vazio de afetos. Quem se distanciou de seus vínculos ternos, se vincula a objetos. Quem não sabe quem é, consome fórmulas prontas. Quem se acredita inferior na aparência, se torna refém da ditadura da moda e dos artifícios da estética, e quem não reconhece seus próprios recursos, multiplica os lucros da indústria farmacêutica ao lutar contra depressões e angústias que em nada combinam com a alegria da juventude.

Para nossa sorte, no entanto, a pressão do ter para ser não substitui a segurança do amor. E aí está nossa chance. Por mais que, para alguns, a oportunidade de agir com firmeza pareça já ter passado, sempre é tempo de abraçar nossos filhos, ajudá-los a descobrir quem realmente são, falar-lhes com autoridade e ternura, fazendo-os sentir o gosto, o cheiro e a maciez do contato sincero.

Não fosse o amor mais forte que o aço dos corações corrompidos pela ganância, a raça humana há muito estaria extinta. Se queremos resgatar nossas crianças com vida e desejos próprios, temos que rugir para o marketing como leões e leoas, salvaguardando para elas o direito de dizerem ao mundo a que vieram e não o que a manipulação comercial determinou que elas digam. (Envolverde)

**site Festival Marginal
(*) Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.