Cuba e Estados Unidos: Esquadrinhando o futuro possível

Barack Obama telefona para Raúl Castro e retoma relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba. Foto: Pete Souza/ TWH (16/12/2014)/ Fotos Públicas
Barack Obama telefona para Raúl Castro e retoma relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba. Foto: Pete Souza/ TWH (16/12/2014)/ Fotos Públicas

 

Havana, Cuba, fevereiro/2014 – Todos os cubanos, de um lado ou de outro do estreito da Flórida, e também de Espanha, França ou Groenlândia (que lá também há um par de cubanos), sentimos que no dia 17 de dezembro, quando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a normalização das relações com Cuba, após mais de meio século de ruptura, estava se produzindo um momento histórico que, de alguma forma, incluía cada um de nós.

Os que vivem em Cuba, precisamente por viver na ilha, e aqueles na diáspora, pelas razões que, em diferentes momentos e por diversos motivos, os levaram a emigrar e reescrever suas vidas.

Uma grande maioria reagiu com júbilo e esperanças, uma porcentagem menor com sentimento de derrota e até de traição, e outra quantidade possível com poucas expectativas a respeito do que essa decisão pode provocar para o curso de suas existências.

Mas o que é indiscutível é que cada um de nós se sentiu tocado pelo anúncio que alguns meios de imprensa qualificaram como a “notícia do ano”, algo muito notável (mesmo considerando exagerado) tratando-se apenas da normalização de relações entre Estados Unidos e um pequeno território do Caribe que não decide a economia da região e, supõe-se, não influi nas grandes políticas mundiais.

Entretanto, a pequenez geográfica e econômica de Cuba há anos não corresponde à sua projeção internacional, e a chamada “notícia do ano” o foi (ou pode ter sido) por várias razões, além das sentimentais que afetam todos os cubanos.

Por seu caráter simbólico como ato de distensão e ponto final do dilatado epílogo da Guerra Fria, como reconhecimento de um erro político sustentado pelos Estados Unidos durante muito tempo, por seu peso nas relações interamericanas e por seu caráter humanista graças ao qual o primeiro passo do acordado foi uma troca de prisioneiros, algo sempre comovedor e humanitário.

E também o foi porque em um mundo cada vez mais carregado de más notícias, o fato de dois países que se enfrentam politicamente por meio século superarem diferenças e optarem pelo diálogo é algo reconfortante.

Três semanas depois, a maquinaria dessa nova relação foi posta para funcionar. À véspera da visita a Havana da secretária de Estado adjunta, Roberta Jacobson, para iniciar conversações de alto nível “face to face” com o governo de Havana, o presidente Obama anunciou a entrada em vigor de suas primeiras medidas de mudança.

Na lista se destacam as relacionadas com maior abertura de licenças para que os norte-americanos possam viajar a Cuba, aumento no valor das remessas de dinheiro para a ilha, reinício de intercâmbios financeiros e bancários, aumento das relações comerciais em diversos setores e pretensão de manter o crescimento da sociedade civil cubana por diferentes caminhos, entre eles da informação, das comunicações e o possível apoio econômico aos empreendedores.

Cuba, por sua vez, libertou prisioneiros pelos quais Washington havia demonstrado interesse.

As medidas recém-implantadas por Obama podem ter uma transcendência notável para Cuba. Primeiramente porque deixa a política de embargo como uma camisa de força que se encheu de rasgos e praticamente converte sua revogação em uma questão de tempo e, para começar, elimina muitos dos temores com que os investidores de outros países olhavam sua possível entrada na ilha.

Por seu lado, Cuba espera ser retirada da lista de nações patrocinadoras do terrorismo, na qual está incluída há anos e, de um e outro lado do estreito, os cidadãos cubanos olham com justificada incerteza o futuro da Lei de Ajuste Cubano, que garante a residência norte-americana a cada cidadão da ilha que coloque um pé em território norte-americano, não importando a via.

Mas, enquanto os acordos políticos seguem um ritmo que não deixa de surpreender, nós cubanos insistimos em perguntar como se viverá na ilha essa nova situação criada a partir de 17 de dezembro e hoje em marcha por diversas maneiras.

Porque as intenções de Obama de instrumentalizar uma mudança de política, que leve ao mesmo fim (a mudança de sistema em Cuba) e seu êxito, mediam as decisões que o governo cubano vai tomando para aproveitar o útil da nova relação e eliminar perigos potenciais.

A possível chegada em massa de norte-americanos a Cuba parece que poderia ser o primeiro efeito visível com vistas a um futuro que já começou a correr.

Se hoje a ilha recebe por ano três milhões de visitantes, essa quantidade poderá duplicar com as novas regulamentações anunciadas por Obama. Por isso, todos se perguntam se o país está preparado para semelhante circunstância e as respostas não são muito animadoras.

Depois de ter entrado em um longo período de crise com o desaparecimento da União Soviética e de suas generosas subvenções e com o recrudescimento do embargo norte-americano com as leis Torricelli e Helms-Burton (que inclusive alcançaram efeito extraterritorial), Cuba hoje é um país com sérios problemas de infraestrutura nas comunicações, no sistema viário, nos transportes e de moradia, entre outros setores.

A carência de recursos para fazer os necessários investimentos afeta também a compra de produtos que os supostos visitantes demandarão e gerará dificuldades ao consumo interno, já por si só bem encarecido e, em ocasiões, pouco abastecido.

Talvez os primeiros beneficiados com essa chegada de norte-americanos à costa cubana sejam os pequenos empresários da ilha que oferecem serviço de hospedagem e alojamento (e as outras milhares de pessoas que giram em sua órbita).

Atualmente, em uma cidade como Havana, não há quartos suficientes nos hotéis (propriedade do Estado ou de capital ou administração mista com empresas estrangeiras) e muito menos uma qualidade nos serviços gastronômicos estatais que os faça competitivos.

Assim, uma parte notável do dinheiro que circular passará por mãos dos empresários privados, um setor que mesmo tendo de pagar altos impostos ao Estado e elevadíssimos preços para compra de insumos no mercado varejista (ainda não existe o reclamado mercado atacadista que os beneficie), obterá importantes ganhos no cenário que hoje se desenha no horizonte próximo.

E esse fenômeno contribuirá para aumentar ainda mais o cada vez menos homogêneo tecido social da nação caribenha.

Outra grande expectativa nacional tem a ver com a possibilidade de os cubanos poderem viajar aos Estados Unidos pois, mesmo com a abertura maior nos anos recentes, para muitos cidadãos da ilha continua sendo um duro obstáculo a vencer o de obter o visto que lhes permita viajar para o país do norte. E, entre eles, há os que pretendem se radicar ali sob a Lei de Ajuste Cubano, agora com a possibilidade de não perder seus direitos civis na ilha, sob a proteção das leis migratórias aprovadas há dois anos pelo governo de Raúl Castro, que eliminaram a onerosa figura migratória da “saída definitiva do país”.

E, em um terreno menos concreto, mas não menos presente, cai o tema dos discursos e da retórica. Meio século de hostilidade em muitos territórios, incluída naturalmente a verbal, deve começar a ceder à luz das novas circunstâncias.

O “inimigo imperialista” e o “perigo comunista” estão sentados à mesma mesa, buscando soluções negociadas, e a linguagem deve se adequar a essa nova realidade para se conseguir a necessária compreensão e os esperados acordos políticos.

Por agora, os cubanos que vivem na ilha já sentem um notável primeiro beneficio dos acordos anunciados: sentimos como diminui a tensão política na qual vivemos por muitos anos e desde já podemos sentir que é possível refazer nossa relação com um vizinho extremamente poderoso e muito próximo, e, se não de um modo amistoso, ao menos nos relacionarmos de uma forma cordial, civilizada.

Por isso muitos – entre os quais me incluo – sentimos desde 17 de dezembro algo semelhante ao despertar de um pesadelo do qual quase nenhum de nós acreditava poder escapar. E com os olhos abertos, agora esquadrinhamos o futuro, tentando dar-lhe siluetas mais precisas. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua novela mais recente, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual.

Rumo à Cuba pós-embargo

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Milhares de norte-americanos visitarão a ilha, inclusive para tratamentos de saúde. País está pronto? Como a população se prepara?

Uma enorme marina, capaz de abrigar umas mil embarcações de recreio, foi construída no extremo da península de Hicacos, de onde domina a praia de Varadero e, graças a ela, o polo turístico mais importante de Cuba, pela quantidade de hotéis e de quartos que possui.

A uns 200 quilômetros a leste do balneário, na baía de Mariel, foi inaugurado um porto para supercargueiros e manejo de grandes contêineres, em cujo entorno se criou uma “Zona Especial de Desenvolvimento”, na qual espera-se que funcione uma zona franca que abrigará inclusive diversas indústrias.

Enquanto isso, um pouco mais ao norte, na redação do influente The New York Times, quase com uma frequência semanal, foram saindo editoriais – não artigos, mas editoriais – nos quais, de forma direta ou indireta, convincente ou contraditória, o grande tema é a necessidade de que se termine ou se flexibilize o embargo decretado pelos Estados Unidos a Cuba, inclusive convertido em lei desde a década de 1990. A reivindicação ao presidente Barack Obama, para que faça algo a respeito do velho instrumento de pressão criado para acabar com o projeto socialista cubano, tem um argumento fundamental: mais de 50 anos de bloqueio não lograram o objetivo de acabar com o sistema cubano e os estadunidenses deveriam ter o direito de visitar Cuba livremente.

Desde que assumiu a presidência, há seis anos, Obama anulou toda uma série de restrições que impediam relações pessoais e até econômicas mais fluidas entre as famílias cubanas localizadas num e noutro lado do Estreito da Flórida, e se incrementou o número de vistos concedidos aos moradores da ilha. Mas, ao mesmo tempo, durante seu governo certos instrumentos do embargo (alguns de caráter extraterritorial estadunidense) tornaram-se ainda mais ativos, especialmente no campo das finanças e dos bancos, com multas aplicadas e ameaças, inclusive aos comerciantes chineses, que estão entre os mais próximos a Cuba e entre os mais interessados em explorar as possibilidade que a ilha possa oferecer: agora e amanhã.

No mundo da opinião sobre as relações Cuba-EUA, todos têm suposições a respeito do que está ocorrendo e do que possa ocorrer. Mas as opiniões e especulações não mudam a realidade, muito embora na realidade já se advirtam sinais de que se espera que algo ocorra no processo de descongelamento dos laços comerciais e financeiros entre os dois países, inclusive entre os diplomatas. E, do lado cubano, aí está o porto de Mariel e sua Zona Especial de Desenvolvimento, mas, sobretudo, os ancoradouros ainda vazios da grande marina construída em Varadero, para receber quem?

Mesmo que o destino final do embargo pareça decretado – não é nada casual esta rajada de editoriais de The New York Times –, seu desmonte não será fácil para o o presidente estadunidense: a decisão final não é só sua, por se tratar de uma lei do país. Mas, dentro desse marco legal, se são suas determinadas prerrogativas que poderiam retirar alguns dos tijolos do muro, e por isso quase todos os analistas concordam que o primeiro passo poderia ser, precisamente, a retirada da proibição de viajar a Cuba que pesa sobre os cidadãos dos Estados Unidos – além de outras muito agressivas como a inclusão de Cuba na lista dos países promotores do terrorismo.

A partir do momento que essa decisão seja adotada por Obama, o fluxo de estadunidenses que viajem a Cuba por desejo, curiosidade e até doença deverá se contar em milhões. Além de toda a carga histórica, cultural e política que moveria essa avalanche, está o fato certo de que Cuba é, sem dúvida, o país mais seguro da América Latina para qualquer visitante e este é um valor turístico dos mais apreciados.

E Cuba está realmente preparada para um movimento assim? Nas últimas duas décadas o desenvolvimento das instalações turísticas cubanas foi exponencial quanto à quantidade de quartos e opções. Mas, ao mesmo tempo, a qualidade da oferta turística da ilha ainda está muito distante da que oferecem outros países da região e do que costumam exigir os estadunidenses (entre outras razões pelos 10-15% que como gorjeta adicionam ao pagamento dos serviços que recebem). E o problema não está no fator humano, pois o empregado de turismo cubano é, possivelmente, um dos mais instruídos do mundo, já que muitos profissionais emigraram a este setor atraídos pelos ganhos individuais que se mostram, sem dúvida, maiores que os oferecidos pelos salários oficiais cubanos. O cerne da questão parece estar na qualidade do material: alimentos, bebidas, comodidades (ar condicionado, elevadores, etc.) que muitas vezes estão muito abaixo dos padrões admissíveis.

Mas, como um exército silencioso, também o setor privado cubano, especialmente o relacionado com a gastronomia e a hospedagem, parece preparar-se para a possível avalanche. Por isso, nos lugares privilegiados de cidades como Havana crescem e se multiplicam restaurantes que, claramente, não estão projetados para os consumidores cubanos – em primeiro lugar em virtude de seus preços e, a olhos vistos, pelos investimentos que seus proprietários neles realizaram. Ao mesmo tempo preparam-se e abrem-se albergues ou apartamentos para aluguel. Esperam realizar sua grande colheita com uma multiplicação do número de visitantes a Cuba, que poderia ser provocada pela retirada das restrições estadunidenses às viagens de seus cidadãos.

Todos esses preparativos, todos esses editoriais, todas as reivindicações históricas do governo cubano e até da comunidade internacional terão afinal uma recompensa? O ar que se respira parece dizer que sim. O silêncio presidencial estadunidense – um governo que enfrenta outros muitos e bem complexos desafios – alimenta a dúvida. Por enquanto, o embargo/bloqueio segue em pé, embora não se detenham os preparativos nem se percam as esperanças de ver o fim de algo que, para os cubanos comuns, tem sido um de seus pesadelos mais dilatados no tempo.

* Leonardo Padura Fuentes é um escritor e jornalista cubano, vencedor do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Seus romances foram traduzidos para mais de quinze idiomas e sua obra mais recente, “El Hombre que Amaba a los Perros”, tem como personagens centrais Leon Trotsky e seu assassino, Ramón Mercader. Compre com desconto em nossa livraria essa preciosa obra./ Tradução: Maurício Ayer.

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

A cascavel e o gato

Leonardo Padura. Foto: Cortesia do autor
Leonardo Padura. Foto: Cortesia do autor

Havana, Cuba, abril/2014 – Há anos os cubanos formularam uma máxima para descrever sua relação trabalhista com o Estado: você (o Estado) faz de conta que me paga, e eu (o cidadão) faço de conta que trabalho.

Dessa forma tão sintética e precisa se resume a reciprocidade dos trabalhadores com os salários irrisórios, totalmente insuficientes, que recebem por sua condição de operários, técnicos e profissionais dependentes do principal empregador existente no país, ou seja, o Estado.

Mas, além disso, o ditado popular reflete algo mais profundo e grave do que uma questão de sobrevivência ou de defesa.

Seus resultados repercutem em assuntos tão vitais para a economia nacional como a baixa produtividade e a ineficiência trabalhista, o êxodo de determinados setores e do país, a baixa qualidade da produção e dos serviços, e até a corrupção e o “desvio” de recursos por muitos dos que podem levar algo (tempo, dinheiro, materiais) de seus locais de trabalho e melhorar com isso suas condições de vida.

Contudo, seguindo com a lógica das consequências do enunciado, haveria inclusive que ir um pouco mais além, porque as posições atribuídas, na sentença famosa, aos empregados e ao Estado também são o reflexo de uma forma de viver dos primeiros e de governar do segundo, na qual parece ter se imposto uma quebra da comunicação em um e outro sentido. Como se jogassem uma partida de futebol com duas bolas… ou com nenhuma.

Essa ruptura de comunicação, ou de falta de códigos de entendimento, não significa, naturalmente, falta de controle.

Pelo contrário: o Estado continua sendo todo poderoso enquanto forma um sólida trindade com o governo e o partido único e, por fim, tem em seu arbítrio quase todas as decisões, não só macro, mas inclusive muitas que afetam a vida pessoal dos indivíduos, entre elas sua capacidade econômica de consumo e seu nível de vida.

Para a maioria das pessoas que dependem de salários estatais, os valores fixados para a venda “liberada” de automóveis são como ver o filme Guerra nas Estrelas, em que seres estranhos falam de coisas incompreensíveis.

O Estado decide em Cuba quais atividades podem ser realizadas à margem de sua tutela e, com uma lei tributária de elevadas porcentagens, quase até o que pode ganhar os que não trabalham diretamente para ele, ou seja, os trabalhadores por conta própria.

Além disso, os preços de todos os produtos (incluídos os que não são vendidos na rede comercial oficial, que tomam como referência os preços oficiais) têm cotas fixadas pela direção econômica do país nos níveis que eles decidem ou necessitam, que em muitas ocasiões (às vezes até justificadas por preços internacionais de certos produtos) estão divorciados da realidade econômica do cidadão.

Nesse jogo estranho, que se converteu em alarmante e quase que permanente desde os anos da crise profunda da década de 1990, o nível de vida da maioria dos cidadãos do país caiu em queda livre toda vez que, mesmo com os salários em certas ocasiões duplicando ou triplicando, o custo de vida aumentava dez, vinte e até mais vezes.

Basta, como medida de todas as coisas, recordar que, enquanto o salário médio gira em torno de 500 pesos, o preço que um trabalhador deve pagar por uma libra de carne de porco (em certas ocasiões a única proteína animal à qual tem acesso) subiu de cinco pesos no mercado paralelo dos anos 1980, para os 30, 35, 40 em que é cotada hoje em dia, segundo sua qualidade. Algo como a décima parte de um salário apenas por meio quilo de carne de porco…

Tudo o que o Estado ou os mercados alternativos ofertam à população vem gravado com essas elevadas tarifas.

Por isso, para a maioria das pessoas que depende de salários estatais, a simples alta dos preços dos produtos de higiene pode se converter em uma tragédia mensal, enquanto os números fixados para a venda “liberada” de automóveis são como ver o filme o Guerra nas Estrelas, em que seres estranhos falam de coisas incompreensíveis.

O Estado cubano reconhece que os salários são insuficientes para pagar o custo de vida. Também repete que enquanto a produtividade e a eficiência da economia doméstica não aumentarem será impossível elevar as cifras salariais para toda a massa de empregados públicos e operários.

Mas a realidade dos dois reconhecimentos segue em carros opostos na circunferência da estrela do parque de diversões (que para nada resulta divertido): é impossível que um alcance o outro, a menos que se mude muito a estrutura fixada.

E, enquanto isso não ocorre, enquanto não houver a correspondência e o entendimento necessários, continuarão se manifestando a ineficiência, a baixa produtividade, a displicência e a indolência que se nota em diversas esferas da atividade trabalhista estatal cubana.

Muitos continuarão fingindo que trabalham sem trabalhar, roubando o que puderem ou emigrando atrás do dinheiro que lhes possa pagar outras tarefas… ou outros empregadores, dentro ou fora do país. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e seu mais recente romance, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual.

Cuba cresce ou não cresce?

Leonardo Padura. Foto: http://pt.wikipedia.org/
Leonardo Padura. Foto: http://pt.wikipedia.org/

Havana, Cuba, março/2014 – Os mais recentes vizinhos estabelecidos em meu bairro são beneficiários de uma das mudanças introduzidas pelo governo de Raúl Castro como parte da chamada “atualização do modelo econômico cubano”.

Eles eram uma das famílias que, por uma razão ou outra, viveram durante anos em albergues coletivos e por fim tiveram a sorte de receber um dos milhares de locais, onde antes funcionavam escritórios governamentais, e que foram transformados em moradias, como forma de diminuir o déficit de casas.

Esses vizinhos, que não pagaram, nem podiam pagar, nada pelo imóvel que lhes foi entregue, vivem de um dos ofícios mais modestos que se pratica na ilha: coleta de papel, papelão, vidro e alumínio, que depois vendem a centros coletores de matérias-primas recicláveis.

Como sua atividade trabalhista não é suficiente para se manterem, esses vizinhos beneficiados com a destinação de uma moradia digna e gratuita, agora estão dividindo a habitação para vender uma parte, amparados em outra mudança introduzida pelo governo: a da livre compra e venda de imóveis.

Dessas e de muitas outras maneiras os cubanos tentam melhorar sua vida, embora no fundo a estejam piorando, vendendo o pouco que têm ou realizando qualquer manejo econômico mais ou menos legal (ou ilegal) que lhes dê dividendos. A raiz mais visível do problema é que os cubanos, sobretudo se trabalham para o Estado, não ganham o suficiente para sobreviver.

Por isso, os que não têm um familiar no estrangeiro que os ajude com algum dinheiro, ou um membro do clã que de alguma forma tenha acesso a ganhos em moeda forte, cada dia de sua vida devem contar seus centavos para atender as necessidades básicas, como alimentação e higiene.

Mas o terreno no qual está incrustada a aparente raiz do problema não é, na realidade, o valor de mudança dos salários, ou seja, sua capacidade aquisitiva.

O mar de fundo está na macroeconomia que, apesar das mudanças introduzidas, não consegue decolar e se mantém em crescimentos anuais que se movem pouco acima dos 2%.

É um número que está abaixo do que se esperava, ao pôr em movimento o paralisado sistema econômico cubano, e que também está abaixo dos níveis capazes de garantir um crescimento em condições de reverter a tensa situação em que vivem os cidadãos.

Nem em quantidade nem em qualidade seus salários são suficientes para a satisfação dessas necessidades básicas… para não falar de luxos inconcebíveis para milhões de cubanos: ir a um restaurante, por exemplo.

A recente abertura da primeira fase da Zona Especial de Desenvolvimento de El Mariel, com seu terminal para supernavios e contêineres, é considerado o primeiro passo para se começar a sonhar com crescimentos que – segundo os economistas, só se ultrapassarem os 5% anuais – poderão iniciar uma mudança substancial na situação do país.

A esperada nova lei de Investimento Estrangeiro, que talvez coloque essas atividades em níveis similares aos criados para El Mariel, poderia também contribuir para uma melhoria da macroeconomia com a entrada de capitais frescos e produtivos no país, se as condições de investimento, segurança e propriedade, entre outras, realmente tornarem atraente montar em Cuba algum tipo de negócio, algo que hoje não ocorre.

Em Mariel funciona, em essência, uma zona franca com facilidades para investimento, pagamento de impostos, comercialização de produtos, etc.

Um sinal estranho de para onde poderiam ir as quantidades e qualidades dos investimentos estrangeiros em Cuba foi enviado pelo próprio governo, quando, em janeiro deste ano, decidiu abrir o mercado de venda de veículos automotores no país, fixando tarifas astronômicas e desproporcionais aos automóveis novos e de segunda (ou quarta mão) colocados no mercado.

Modelos de Peugeot de 60 mil euros tarifados em mais de um quarto de milhão de dólares não é precisamente uma demonstração de boa vontade com os potenciais investidores, além de ser um desdém pelos cubanos (quase sempre profissionais que com seu trabalho produzem importantes ganhos para o país), que por uma ou outra via haviam obtido o capital necessário para comprar carros que, antes da “abertura” do mercado, já eram suficientemente caros em comparação com os preços praticados em outras partes do mundo.

E o fato de que pouco se tenha vendido carros, ou a indignação expressa por muitas pessoas, não alterou seus preços, como se supõe deve ocorrer em qualquer mercado ou país.

Embora não seja economista nem pretenda sê-lo, creio que as contas econômicas em Cuba são tão obscuras que ao final conseguem ser muito claras: se não se encontra vias seguras e eficientes de crescimento, a situação do país e de seus cidadãos não mudará no essencial.

Ainda que uma pequena quantidade de cubanos convertidos em microempresários possa estar fazendo algum dinheiro, sua prosperidade é muito relativa e apenas significativa se comparada com a forma em que vivem e resolvem os problemas meus vizinhos do bairro e outras milhares de famílias como eles.

E o problema que se apresenta com relação ao futuro econômico e social do país seria saber como o capital estrangeiro atuará efetivamente no desenvolvimento do país e, sobretudo, o grande mistério: como os 11 milhões de residentes da ilha poderão se inserir em uma sociedade mais mercantilizada e competitiva.

Será vendendo o único que lhes resta, ou seja, sua força de trabalho, como alerta a filosofia marxista na qual se fundamenta a política oficial cubana? Por enquanto essa obscura perspectiva também parece clara. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura, escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual. 

Cuba, a integração e a normalidade

Cuba

Havana, Cuba, fevereiro/2014 – Recentemente Cuba testemunhou dois acontecimentos que aproximaram muito mais a ilha do contexto caribenho e latino-americano, do qual, por anos, se viu distanciada depois do triunfo revolucionário de 1959, uma mudança política que levaria o país à expulsão da organização dos Estados Americanos, ao bloqueio econômico e financeiro norte-americano e a um dramático isolamento continental.

A realização da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) em Havana, nos dias 28 e 29 de janeiro, foi um considerável apoio nesse processo de integração, quando 33 mandatários da região visitaram o país e se reuniram com seus dirigentes.

Alguns deles foram testemunhas da inauguração da primeira fase da zona econômica especial de El Mariel, dotada de um porto considerado o maior da área do Caribe e onde funcionará um enclave com leis de zona franca para o comércio e a indústria nacional e estrangeira.

No encontro da Celac falou-se de democracia e respeito pelos direitos humanos, segundo são entendidos por muitos países da região, que levaram seus conceitos a essa declaração final lida pelo presidente cubano, Raúl Castro: “Fortaleçamos nossas democracias e todos os direitos humanos para todos”, diz o texto.

Apenas concluída a reunião regional, uma equipe cubana de beisebol partiu para ilha Margarida, na Venezuela, para participar da histórica Série do Caribe, um torneio do qual os clubes cubanos foram fundadores e máximos animadores, lá pelas décadas de 1940 e 1950, e do qual foram excluídos a partir de 1961.

Para que Cuba voltasse a estes clássicos foi preciso contar inclusive com a anuência dos diretores da organização das Grandes Ligas do Beisebol dos Estados Unidos e até do Departamento do Tesouro, pois a maioria dos jogadores dos outros países participantes (México, Venezuela, Porto Rico e República Dominicana) pertence a franquias do poderoso circuito do beisebol norte-americano.

Estes dois marcos amenizaram a distância de Cuba em relação à região e inclusive o dilatado bloqueio norte-americano contra a ilha, politicamente ineficiente, economicamente desgastante para os cubanos e condenado há anos na Assembleia Geral das Nações Unidas.

Tudo isto dá um apoio político ao governo cubano. Obras como a de El Mariel, no entanto, trazem esperanças econômicas para um país cuja estrutura comercial teve de ser refundada há duas décadas, depois do desaparecimento da União Soviética.

Mais recentemente, a União Europeia (UE) anunciou uma possível mudança em sua relação política com a ilha, um novo acordo que melhorará os vínculos entre as partes e a cooperação do bloco, quase reduzida a zero, mas sempre com a condição europeia de que Cuba melhore a situação dos direitos humanos referentes à liberdade de expressão e associação, entre outros.

Embora o problema dos direitos humanos em Cuba sempre seja um ponto álgido em que cada parte (a estrangeira e a oficial cubana) esgrime seus próprios argumentos, no fundo, o mais grave e pesado dos problemas cubanos não se resolve com melhores relações políticas regionais ou globais, nem com jogos de beisebol carregados de simbolismo esportivo e político, mesmo quando declarações e aberturas diversas sempre ajudem.

Tampouco é solucionado com o pertencer a blocos político-econômicos como a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), por mais que estes também possam ajudar.

O problema é que a grande pendência da ilha caribenha está em seu funcionamento e desenvolvimento econômico internos, que nem mesmo a política de mudanças feitas ao calor da “atualização do modelo econômico”, como é chamado, conseguiu concretizar.

Com discretos crescimentos anuais de aproximadamente 2% devidos, sobretudo, à exportação de serviços (médicos, em sua maioria), mais o aumento na produção e na produtividade, fica difícil superar a dependência das importações (a de alimentos ronda os 80%) e concretizar a melhoria das condições de vida dos habitantes, agoniados ao longo de mais de duas décadas pelos embates de uma crise que teve seus fossos mais profundos nos anos 1990, mas que não deixa de assolar os cubanos.

Para o país é imprescindível sua integração à região e ao mundo.

Mas para os cidadãos é uma urgência que se consiga uma relação realista entre salários e custo de vida, que a luta cotidiana pela sobrevivência não consuma o grosso de suas energias e inteligência, e que o acesso à internet não seja uma concessão ou um luxo, mas um direito acessível.

Que se fomente um investimento estrangeiro capaz de modernizar a infraestrutura de uma nação tecnológica e industrialmente envelhecida, que sejam gerados empregos bem remunerados e que se torne efetiva uma abertura da opinião crítica capaz de analisar e julgar a partir de diversas perspectivas os problemas da sociedade.

Que não se quebre o realismo econômico com medidas como a de pretender vender carros a cinco, seis vezes o preço máximo que poderiam alcançar no mercado internacional (esses carros que quase não são comprados e que deveriam poder ser adquiridos, por exemplo, por esses necessários investidores estrangeiros e pelos profissionais cubanos, que com seus serviços em meio mundo geram os mais sólidos ganhos que o país recebe), etc., etc…

Enfim, que a integração se reverta em normalidade, produtividade, discussão e possível solução de problemas enquistados no modelo político cubano.

Porque, junto à necessária integração, essa normalidade que permite forjar programas de vida e olhar para o futuro (algo impossível na Cuba de hoje) poderia ser, e de fato é, o sonho de muitos cubanos: ter um país normal que, a partir desse estado de equilíbrio, consiga a aspiração de um desenvolvimento justo e sustentável e, sobretudo, de uma vida mais sossegada e próspera. Simplesmente normal. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual. 

Portal Envolverde, 16 anos de jornalismo

Envolverde

No dia 8 de janeiro de 1998 uma pequena equipe de jornalistas colocou no ar o site www.envolverde.com.br com o objetivo de mudar o foco das pautas tradicionais do jornalismo da grande mídia e oferecer um olhar mais social e ambiental sobre os diversos temas da realidade brasileira e mundial. Com profissionais especializados em economia e meio ambiente, a Envolverde nasceu como uma agência de notícias que distribuía diariamente cerca de quatro a cinco reportagens e artigos para um mailing de quase dois mil jornalistas de todo o Brasil.

Além de ser um dos mais antigos sites de notícias do Brasil, o modelo de distribuição de conteúdos da Envolverde também inovou à época, abrindo mão de direitos autorais a partir de um conceito então chamado de “Copyleft”, que permitia a livre reprodução dos conteúdos desde que preservados o nome do autor e a fonte. Os textos publicados na Envolverde estiveram entre os primeiros do Brasil a permitir essa livre utilização por outras publicações, eletrônica ou impressa.

A primeira grande parceria realizada pela equipe da Envolverde foi com a agência Inter Press Service (IPS), uma organização de jornalistas que mantém correspondentes em mais de cem países. Seus textos, traduzidos ao português, formam os primeiros materiais distribuídos através da site da Envolverde, e com eles chegou, também, o serviço de colunistas da IPS, que nos brindou com textos de grandes nomes como Eduardo Galeano, Mario Soares, Al Gore, Príncipe Charles, Hezel Henderson, Roberto Sávio, Leonardo Padura, Mikhail Gorbachev e muitos outros.

A parceria com a IPS trouxe, também, o Projeto Terramérica, um periódico que circula desde 1995 em países da América Latina e Caribe, e que foi criado com o apoio dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), e conta atualmente com o apoio do Banco Mundial. A IPS sempre foi o principal modelo seguido pela Envolverde, um jornalismo comprometido com a sustentabilidade e com o desenvolvimento humano, além de ampliar a cobertura de regiões e temas muitas vezes abandonados pela grande imprensa.

Muitas pessoas contribuíram nestes 16 anos para que a Envolverde chegasse a esse momento, uma referência no Brasil quando se fala em jornalismo e sustentabilidade, assim como muitas outras organizações e empresas que apoiaram e apoiam esse projeto premiado, vencedor por duas vezes do Prêmio Ethos de Jornalismo, em 2006 e 2008, e eleito pelo Ministério da Cultura como um “Ponto de Mídia Livre”.

Entre os muitos profissionais que passaram pela redação da Envolverde todos foram importantes para o crescimento e consolidação do projeto, mas creio que vale destacar os jornalistas Nanci Vieira, Wilson Bispo, Fernanda Lucena, Nelson Rocha, Avelino Alves, Tatiane Oliveira, Fátima Cardoso, Nádia Fossa, Efraim Neto, Mônica Paula, Neuza Àrbócz  e Celso Bacarji, além da atual equipe formada pela Juliana Guarexick, Alice Marcondes e Savio de Tarso. Certamente se comete injustiças ao não citar todos os profissionais que passaram pela redação da Envolverde, mas a lista seria imensa. Na área administrativa a Envolverde pode contar com o valioso apoio da Marlene Cunha, no início, e desde 2003 do atual diretor administrativo Fábio Salama, responsável pela estruturação e consolidação do projeto Envolverde. Também desde 2003 a direção de relacionamento está ocupada pela Ana Maria Vasconcellos, que trabalha na construção de parcerias e mantém contato com os leitores e públicos de interesse da Envolverde.

Há outros parceiros fundamentais nessa história, desde 2009 a revista CartaCapital, para quem a Envolverde produz conteúdos sobre sustentabilidade e neste ano de 2014 vai atuar como curadora de todos os eventos da série Diálogos Capitais. Ouros parceiros fundamentais são o Portal Mercado Ético, sua Publisher Christina Carvalho Pinto e o editor Henrique Camargo, a Rede Brasileira de Informação Ambiental (REBIA) e o jornalista Vilmar Berna, a Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, a revista Eco21, dirigida por René Capriles e Lúcia Chayb, o jornalista Rogério Ruschel e muitos outros companheiros de estrada, como o economista Ladislau Dowbor.

EnvolverdeA Envolverde segue sendo um dos principais meios de comunicação que cobre temas relacionados ao meio ambiente, educação, infância e juventude, economia e saúde no Brasil e continua pautando a grande imprensa em diversos desses assuntos através de nossos textos próprios e de centenas de colaboradores que diariamente emprestam ao site o brilhantismo de suas ideias e o árduo trabalho de reportagem.

Mas nada disso seria suficiente para garantir o sucesso desse projeto sem os leitores que sempre acompanham o Portal Envolverde e contribuem para o aprimoramento do jornalismo da Envolverde.

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Mudanças ao ritmo e estilo cubanos

Cuba

Havana, Cuba, janeiro/2014 – Desde que em 2008 o governo cubano passou efetivamente das mãos e do impulso tribunício de Fidel Castro ao estilo sucinto e pragmático de seu irmão Raúl, a economia e a sociedade acumulam uma série de mudanças mais ou menos notáveis que para muito segue em ritmo extremamente lento.

Para seus planejadores, incluído o próprio presidente, essas mudanças chegam com a cautela necessária para conseguir os que são proclamados como seus principais objetivos: atualizar e tornar eficiente a economia cubana sem aplicar políticas de choque de estilo neoliberal ou pacotes de medidas típicos de tempos de crise.

Os detratores do tempo imposto às mudanças têm como argumento fundamental o fato de poder esgotar o tempo real, histórico, para remodelar uma sociedade e economias paralisadas e deterioradas por longos anos de crise.

A justificativa das autoridades, no entanto, é que não há margem para improvisações e erros, por isso as transformações só devem ser implantadas no momento e na medida justos para que o sistema político não seja abalado com uma súbita alteração das estruturas econômicas.

Uma das especificidades desta política de “atualizações” realizadas em ritmo pausado foi o sigilo que as acompanha.

Na mais recente intervenção pública do presidente, durante o encerramento das atividades de 2013 no parlamento, aflorou essa tendência quando anunciou a esperada e necessária modificação da lei de investimento estrangeiro, sem deixar escapar uma só das características que terá o novo aparato legal que (se espera e se necessita) torne a ilha atraente para capitais estrangeiros indispensáveis para, entre outras carências, empreender a modernização da deteriorada infraestrutura de um país cujos recursos próprios são insuficientes para tal empenho.

Contudo, se em uns poucos meses o tema será discutido e a nova lei será adotada, por que não dar sinais de suas principais novidades?

Algo mais ou menos semelhante ocorre com o anunciado processo de unificação monetária do país (onde circulam dois tipos de peso, um cotado com relação ao dólar e a outras divisas), do qual se sabe apenas que afetará primeiro o setor mercantil e empresarial e em seguida os cidadãos, mas sem que se conheça muito sobre como nem quando chegarão as necessárias desvalorizações e revalorizações encaminhadas para a convergência das duas moedas, apesar de se tratar de um problema de máximo interesse público.

Mais recentemente, aconteceu com o anúncio da mudança na política de venda de automóveis, que será liberada após mais de meio século de restrições e ausências. Só se sabe que serão vendidos carros para quem puder comprá-los, com a informação adicional de que serão oferecidos a preços hoje estabelecidos pelo mercado entre particulares, ou seja, ao preço que poderia ter uma garrafa de água no ponto mais remoto do deserto do Saara.

Porque em um país no qual por meio século o mercado automobilístico esteve regido por proibições, vendas dirigidas e muito limitadas, além de preços já suficientemente altos, o automóvel se converteu no objeto de compra e venda mais cotado – mais ainda do que a moradia – encarecido justamente pela escassez e por dificuldades para obtê-lo.

Então, serão vendidos carros de segunda mão, explorados quase até o esgotamento, a preços similares aos que pode custar um automóvel novo em qualquer outro mercado do mundo? E, então, como será cotado um carro novo? Ninguém (dos interessados em adquiri-los) sabe com certeza, pois o tão esperado anúncio de que serão vendidos carros não esclarece a questão… porque se decidiu mantê-lo em segredo, até que chegue o momento em que o governo decidir torná-lo publico.

Em certas ocasiões essa falta de transparência funciona como um elemento que, de maneira muito evidente, desconhece os interesses dos cidadãos.

Como se sabe, há alguns anos – para continuar exemplificando – as autoridades lançaram uma campanha contra a corrupção administrativa e estatal. Porém, pouco se informa, por vias oficiais, sobre seus resultados, e menos ainda de seus episódios mais notáveis, ainda que – e essas mesmas autoridades não podem deixar de sabê-lo – esses resultados se filtram para a população por caminhos tortuosos.

É o caso de várias operações policiais e fiscais que, em dispositivos portáteis de armazenamento de dados, circulam de mão e mão com os casos, entre outros, do “personagem dos serviços comunitários” ou “dos dirigentes do supermercado da rua Carlos III”, como vão sendo chamados pelos cidadãos, que alternam a visão de materiais fílmicos das operações policiais com os da telenovela do momento.

Por que não informar mais sobre uma campanha que interessa e diz respeito a todos? A corrupção é apenas um problema de interesse policial ou também é uma ferida social que deve ser discutida entre os afetados?

E como funcionará a chamada Zona Especial de Desenvolvimento do Mariel (ZEDM), “chamada a ser um importante polo de atração de investimento estrangeiro e ao mesmo tempo em polígonos de experimentação de modernas tecnologias e métodos de gestão empresarial”, nas palavras de Raúl Castro, durante o encerramento da sessão parlamentar?

Quais passos se pode, se pensa, são dados para uma desejada normalização das relações entre Cuba e Estados Unidos com vistas a “restabelecer uma relação civilizada entre os dois países, como deseja nosso povo e a ampla maioria dos cidadãos norte-americanos e a emigração cubana?

O roteiro desta história parece incluir o suspense. No momento, só nos resta imaginar como se desenvolverá a trama que segue, até que sejam revelados os segredos, tal como nos ensinaram os velhos professores das radionovelas cubanas do século passado. Nós cubanos estamos treinados nesses exercícios. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas obras estão traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, Herejes, é uma reflexão sobre a liberdade individual.

Cuba, que planos tens para o Ano Novo?

Cuba

Havana, Cuba, dezembro/2013 – Depois de três décadas de socialismo supostamente planejado (1960-1990), ao longo das quais o que se “planejava” pelas estruturas de governo e Estado muitas vezes era cumprido pela metade, se perdia no esquecimento por falta de controle ou de realismo, ou, no melhor dos casos, era executado de qualquer forma só para cumprir o plano, os cubanos se acostumaram a viver esperando (ou sem esperar) que a direção política, financiada com potentes subvenções soviéticas, idealizasse um novo “planejamento”.

Esta reorganização ou projeto entrava em nossas vidas como uma tromba, embora depois pudesse desaparecer com a velocidade e consistência da fumaça.

Aquele planejamento idealista teve, no entanto, um resultado: as pessoas se acostumaram a receber ordens e orientações nas quais sua decisão individual tinha pouco ou nenhum peso. Se tinhas um telefone era porque o Estado o concedia; se viajavas, era porque permitiam… e assim até o infinito.

Os anos mais duros das crises e carências que se seguiram ao desaparecimento da União Soviética e de suas subvenções demonstraram com o país estava tão pouco preparado para cuidar de si mesmo, pois tantos planejamentos socialistas apenas haviam conseguido dotar a economia nacional de uma estrutura capaz de se sustentar sem apoios estrangeiros.

Nos últimos seis, sete anos, o Estado-governo-Partido único, dirigido pelo general Raúl Castro depois da saída efetiva do poder do até então máximo líder Fidel Castro, tratou de colocar ordem na estrutura econômica e social com um planejamento mais realista, e o referendou com a elucubração de umas Diretrizes da Política Econômica e Social, aprovadas como instrumento pragmático no Congresso do Partido Comunista de 2011.

Amparada nessas diretrizes, a direção introduziu numerosas e importantes mudanças na vida econômica e social da nação. Contudo, entre o programa e a vida real, cotidiana, individual dos moradores dessa ilha do Caribe há uma distância estressante que é a do desconhecimento de como, quando, em qual ordem serão concretizadas as “atualizações” planejadas…

Explico em duas palavras: para os cubanos continua sendo impossível, apesar dos planejamentos, criar seus projetos vitais, pois cada vez devem modificá-los, refazê-los ou esquecê-los, de acordo com o que desde as alturas de decisão política lhes chega no momento, a forma e com a intensidade que os reitores da atualização decidam, com seu elevado olhar macroeconômico ou macrossocial, esses planejamentos ou variações que muitas vezes chegam sem que os cidadãos tenham a possibilidade de fazer suas próprias atualizações e seus replanejamentos.

Agora mesmo os cubanos que por uma ou outra via conseguiram capitalizar algum dinheiro têm muito pouca certeza do que será o futuro monetário do país, pois haverá uma unificação das moedas circulantes, mas sem uma ideia precisa de como nem quando acontecerá, que valor terá o dinheiro, etc.

Os mais afortunados ainda que, por exemplo, aspiravam adquirir um automóvel novo ou de segunda mão vendido pelo Estado, agora tampouco sabem se alguma vez, e como, poderão ter acesso a esse sonho que, por ocultas razões, continua sendo controlado, limitado ou negado pelo Estado, mesmo quando a venda de um automóvel em Cuba seja um dos mais benéficos negócios com que poderia sonhar qualquer vendedor do universo (os carros novos estão, ou estavam, gravados com 100% de impostos, ou seja, custavam o dobro de seu preço de mercado).

Entretanto, esses afortunados são, como é fácil deduzir em um país empobrecido, uma porcentagem ínfima da população.

O maior número de cidadãos vive o dia (ou mais atrás do dia), em malabarismos econômicos domésticos de subsistência que são alterados constantemente por um processo de inflação que começou na década de 1990 e que não fez mais do que aumentar em uma proporção inalcançável para os salários que recebem os funcionários públicos, que são cerca de 80% dos que trabalham em Cuba.

Os artigos de primeira necessidade (alimentos, higiene), além da eletricidade, do transporte e de outros serviços encarecem constantemente, segundo o planejado centralmente, e dão as costas ao planejamento com que a duras penas foram se ajeitando centenas de milhares de famílias, milhões de indivíduos.

Enquanto se aproxima outro final de ano, a maioria dos cubanos sabe que nem as críticas e poéticas previsões que a cada mês de janeiro tornam públicas os sacerdotes de Ifá (o candomblé, a religião animista e de adivinhação de origem africana mais praticada em Cuba) poderiam dar uma verdadeira luz sobre seu futuro mais imediato, o que cada um deve planejar para viver sua vida pessoal, a única que a biologia (ou, talvez, algum deus), lhes concedeu.

Como será o próximo ano para os 11 milhões de cubanos? Creio que nem o oráculo de Ifá sabe com certeza.

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas, e sua obra mais recente, El hombre que amaba a los perros, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.

Cuba, uma janela que se abre para fora

Cuba. Foto: Reprodução/Internet
Cuba. Foto: Reprodução/Internet

Havana, Cuba, novembro/2013 – O ano de 2014 deverá começar para a economia cubana com a abertura das primeiras instalações da chamada Zona Especial de Desenvolvimento Econômico, no modernizado porto de Mariel, uma baía localizada 70 quilômetros a oeste de Havana.

Um porto para contêineres, grandes armazéns, uma zona franca, indústrias criadas com capitais estrangeiros e condições avançadas de infraestrutura, entre outros, serão os benefícios deste polo comercial e industrial, o mais importante do país, e desde já considerado como a principal janela cubana para o mundo das importações e exportações.

Desde o momento em que o porto de Mariel se tornar operacional começará a ser definitiva a desmontagem e renovação da histórica baía em Havana, que espera se converter em uma marina para iates e cruzeiros, sobretudo quando as restrições do bloqueio/embargo norte-americano, mantido por mais de meio século, permitirem a viajantes e embarcações do país vizinho atracar nas costas cubanas.

A modernização e montagem das instalações de Mariel são financiadas, no essencial (US$ 640 milhões dos US$ 900 milhões investidos), por um empréstimo obtido graças a um convênio intergovernamental assinado entre Brasília e Havana.

O fato de o Brasil e suas empresas terem decidido realizar a obra e o investimento, de alguma forma adianta seu interesse em ter um espaço comercial e produtivo nesse ponto privilegiado da geografia caribenha, na entrada do Golfo do México, frente à costa norte-americana e perto de se tornar efetiva a ampliação do calado do também próximo Canal do Panamá (2015), que passará a receber navios de maior tonelagem.

A grande dúvida quanto ao destino de Mariel está em saber quem e sob quais condições colocarão seus investimentos nessa Zona de Desenvolvimento, na qual, se espera, haja instalações não apenas portuárias ou de armazenagem, mas também industriais.

Muito se fala da necessidade de o governo cubano declarar o fim sem modificar suas relações legais com o capital estrangeiro. Já em julho de 2012 houve o anúncio oficial de que para o final daquele ano entraria em vigor uma nova Lei de Investimentos, que substituiria o instrumento legal aprovado em 1995 (Lei 77).

Mas a expectativa criada ainda não teve resposta definitiva, enquanto, em meados de 2013, na realidade operavam na ilha 190 negócios de capital misto entre governo cubano e entidades privadas estrangeiras, o que equivale a metade dos que existiam em 2000.

Segundo recente reportagem, da qual tomei os números anteriores, um vice-ministro cubano de Comércio Exterior afirmou que “está em processo a avaliação de uma política geral e setorial que acompanhe o fomento desse investimento estrangeiro e, embora não esteja prevista a modificação da lei, poderão ser atualizadas determinadas normas”.

Ou seja, no momento não haverá nova lei e a Zona Especial de Desenvolvimento Econômico de Mariel moverá seu destino e suas possibilidades sob uma regulamentação que nos últimos anos mais espantou do que atraiu investidores – segundo a mais simples das operações aritméticas.

Entretanto, por suas características especiais, Mariel poderia ser regido por alguns mecanismos legais diferentes, que, talvez, constem das normas que serão atualizadas.

As transformações econômicas empreendidas pelo governo de Raúl Castro, programadas nas chamadas Diretrizes da Política Econômica e Social aprovadas no VI Congresso do Partido Comunista (2011), modificaram certas estruturas e certos fundamentos da economia cubana.

Revitalizaram o trabalho por conta própria, a criação de cooperativas agropecuárias e de serviços, a abertura de pequenos negócios privados, o que melhorou alguns serviços, a gastronomia, um pouco do transporte coletivo e um pouco a produção de alimentos…

Entretanto, por seu minguado nível de incidência na macroeconomia, não conseguiram, nem conseguirão, se converter em um motor para acelerar o desenvolvimento de um país que precisa urgente de eficiência, produtividade, modernização de toda sua infraestrutura, liquidez e acesso a finanças, isto é, os elementos capazes de gerar riqueza palpável e, com ela, melhoria nos níveis de vida de uma população que há quase um quarto de século vive com salários deprimidos, que não lhe permitem satisfazer todas suas necessidades básicas, incluída a alimentação.

Em várias ocasiões, altos escalões do governo e do Estado cubano alertaram que as mais importantes modificações econômicas estão por chegar. Mas a promessa tem um conteúdo desconhecido e uma data de execução incerta.

Caso a anunciada nova lei de investimento estrangeiro não seja aprovada de um modo que lhe permita atrair o capital externo, será difícil imaginar quem estará interessado em investir em Cuba, inclusive na Zona de Mariel.

Além das empresas brasileiras, chinesas e russas que previsivelmente estão próximas desse investimento, apenas o fator geográfico e a esperança de mudanças futuras já não parecem ser suficientemente atraentes para alguns empresários que, chegando a Cuba, teriam problemas, inclusive para comprar um veículo leve para transporte de executivos e funcionários.

E, como algo pendente, restaria saber qual espaço terão, em toda essa estrutura que se abre, as pessoas naturais cubanas – isto é, os cubanos de Cuba –, para as quais novamente, segundo li, a Zona Especial de Desenvolvimento de Mariel poderia ser fonte de emprego… mas não de investimento. Envolverde/IPS

* Leonardo Padura é escritor e jornalista cubano, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura 2012. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, El Hombre Que Amaba a Los Perros tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader.