Birmânia abre as portas às transnacionais, mas com sombras

 Grandes empresas transnacionais começam a entrar na Birmânia, país com grandes carências em matéria de infraestrutura. Foto: F. A. Sheikh/IPS

Grandes empresas transnacionais começam a entrar na Birmânia, país com grandes carências em matéria de infraestrutura. Foto: F. A. Sheikh/IPS

 

Rangum, Birmânia, 21/1/2014 – A mesma ditadura militar que durante décadas deixou paralisar a economia da Birmânia agora abre de vez as portas ao investimento estrangeiro. Grandes empresas globais, como Coca-Cola, Unilever e Samsung, começam seu caminho no mercado deste país do sudeste asiático.

Os consórcios transnacionais parecem entusiasmados pelo potencial não explorado do país de 60 milhões de habitantes que, segundo a consultoria McKinsey & Company, esta na região de crescimento mais rápido do mundo. Porém, há altos e baixos no caminho dessa nova fronteira econômica, afirmam especialistas.

O governo da Birmânia propõe leis de investimentos, ambientais e trabalhistas por meio de “um parlamento escasso em recursos”, segundo Vicky Bowman, diretora do Myanmar Centre for Responsible Business, uma consultoria empresarial com sede em Rangum. “Muitas dessas leis não estão sendo processadas de maneira transparente”, afirmou, acrescentando que o governo está experimentando “problemas de dentição”.

Os investidores internacionais enfrentam outro fato preocupante. A maioria das empresas birmanesas “tem dois livros de balanço contábil” e “não tem certeza sobre quantos impostos devem pagar”, disse Bowman. “Os sócios estrangeiros chegam e querem ver as contas dos últimos cinco anos”, acrescentou. Por outro lado, o país sempre funcionou com “um forte clima de corrupção”, pelo qual o governo outorgou projetos e oportunidades de bens de raiz sem um processo de licitação transparente, destacou.

Em 2013, a organização independente Transparência Internacional qualificou a Birmânia com apenas 21 dos cem pontos que integram seu índice da corrupção no setor público. Quanto mais baixo o número maior o nível de irregularidade.

Até agora, a nova administração do presidente Thein Sein declarou sua intenção de incorporar o país à Iniciativa de Transparência das Indústrias de Extração, para demonstrar que o fornecimento de minerais e energia do país estão se desenvolvendo de maneira responsável. Mas, enquanto o parlamento aprovou uma lei contra a corrupção em agosto, há quem critique a iniciativa por sua ineficácia, em parte porque não criou um organismo de luta contra a corrupção.

A questão mais importante para alguns recém-chegados ao mundo dos negócios da Birmânia parece ser o acesso à terra. Persiste “uma grande confusão em torno da terra”, contou Bowman. Os agricultores que perderam suas propriedades pelo fato de o Estado tê-las entregue às empresas exigem uma indenização com base nos preços de mercado. Por causa dessa polêmica, os fabricantes internacionais de alimentos – por exemplo, os que se abastecem de açúcar da Birmânia – podem ter problemas jurídicos ou manchar sua reputação, alertou a consultora.

A Birmânia teve “protestos muito difundidos” em suas minas de ouro e cobre, e controvérsias que opõem os setores de “alimentos e energia”, afirmou Lynn Thiesmeyer, vice-presidente do Instituto de Pesquisa Ambiental e Econômica da Birmânia, com sede em Rangum, em referência à entrega pelo Estado de grandes extensões de terra fértil às empresas de energia.

As grandes represas construídas pela China ao longo do rio Salween, bem como outras projetadas na cidade de Sittwe, representam “perda de alimentos e perda de terras, o único ativo ao qual tem acesso a população rural pobre”, disse Thiesmeyer à IPS. Nesse contexto espinhoso, o Centre for Responsible Business, financiado por doadores europeus, ajuda as companhias estrangeiras em sua entrada no mercado, ao apresentar ao governo assuntos que são incômodos para os investidores internacionais.

A organização também busca capacitar as empresas locais em matéria de negócios e direitos humanos. Nos próximos dois anos, a equipe de Bowman avaliará os setores de turismo, petróleo e gás, agricultura, indústria da informação e tecnologias da comunicação. Um punhado de empresas ocidentais aproveitou a abertura, com a promessa de apresentar em troca uma grande quantidade de benefícios como empregos, desenvolvimento agrícola e programas de saúde e higiene para as crianças.

A atividade no setor energético aumentou graças à existência de vastas jazidas de petróleo e gás. O governo anunciou recentemente os ganhadores internacionais de uma licitação para extrair esses hidrocarbonos. Mas a entrega da área em questão ficará sujeita às empresas realizarem estudos de impacto ambiental e social no prazo de seis meses após a assinatura dos contratos.

Enquanto o governo experimentou problemas com a China com relação ao petróleo e ao gás, a líder opositora Aung San Suu Kyi declarou à imprensa em 2012 que não ia convencer as companhias Chevron ou Total a abandonar a Birmânia. Essa última é “sensível às questões de direitos humanos e ambientais”, afirmou.

Também chegou mais investimento estrangeiro no setor do turismo, com a incorporação de redes como a norte-americana Western International ou a francesa Accor. Ambas abrirão novos hotéis, enquanto aumenta o número de visitantes estrangeiros. A fabricante italiana de doces Ferrero e a alemã Haribo anunciaram em 2013 seu desembarque na Birmânia. A norte-americana PepsiCo também anunciou a ampliação de seus interesses comerciais nesse país.

A Nestlé, gigante suíça de alimentos e bebidas, também concretizou sua entrada no país. Contudo, seu porta-voz, Myat Thu Aye, disse que a empresa está “em uma fase muito precoce de instalação, sendo prematuro fazer comentários a respeito”. Outra grande multinacional, a anglo-alemã Unilever, anunciou em maio seu reingresso na Birmânia, com nova fábrica e sede em Rangum.

Nesse cenário se destaca o ressurgimento do grupo norte-americano Coca-Cola. Em 2013, a fabricante de bebidas abriu uma engarrafadora e anunciou investimento de US$ 200 milhões nos próximos quatro a cinco anos, segundo Rehan Khan, diretor-geral da empresa na Birmânia. A partir de 2009, o processo implicou “um estudo amplo do panorama político e econômico, incluindo o potencial de mercado e de riscos”, detalhou.

A Coca-Cola descobriu a prática de discriminação em relação a idade e gênero em duas unidades engarrafadoras associadas, que posteriormente procurou corrigir. A empresa espera gerar 22 mil postos de trabalho ao longo de toda sua cadeia produtiva, incluindo 2.500 empregos diretos, acrescentou Khan à IPS. Também destacou uma iniciativa comunitária da empresa, chamada Swan Yi, que incentiva a educação financeira, e a capacidade e gestão empresariais das mulheres e desde 2012 empoderou mais de 15 mil birmanesas.

Embora várias marcas internacionais procurem abrir espaço nesse mercado pujante, em sua maior parte “as grandes empresas são poucas. É um mito que estejam chegando aos montes. Supomos que tudo isso vai se acertar, mas no momento os problemas legais desanimam os investidores”, ressaltou Bowman. Envolverde/IPS

Tegucigalpa aprende a mitigar os riscos climáticos

As novas escadarias e corrimões no populoso bairro de La Villanueva, em Tegucigalpa, aliviam a vida de seus habitantes e servem de rota de evacuação diante das chuvas. Foto: Luis Elvir/IPS
As novas escadarias e corrimões no populoso bairro de La Villanueva, em Tegucigalpa, aliviam a vida de seus habitantes e servem de rota de evacuação diante das chuvas. Foto: Luis Elvir/IPS

 

Tegucigalpa, Honduras, 20/1/2014 – Para cerca de 250 mil habitantes da capital hondurenha, o medo de morrer por um evento climático diminuiu, graças a um plano de mitigação do aquecimento global, com pequenas obras realizadas em 180 bairros com vulnerabilidades ecológicas e sociais. O Plano 100×100, de cem obras em igual número de dias, é parte de um projeto de mitigação de riscos financiado pelo Banco Centro-Americano de Integração Econômica, mediante crédito de US$ 26 milhões.

“Antes dessa ponte, as chuvas deixavam este setor incomunicável, descíamos descalços para cruzar o riacho que no inverno aumenta muito e já levou várias casas”, contou à IPS uma moradora do bairro La Mololoa, Xiomara Castellanos, apontando orgulhosa para uma das novas obras. A centena de pequenas construções alcança todos os pontos cardeais de Tegucigalpa, cidade com 1,8 milhão de habitantes, dos 8,5 milhões que o país tem.

A vulnerabilidade da cidade, que junto com a vizinha Comayagüela constitui a capital do país, também chamada Distrito Central, se agravou em 1998 após a passagem do furacão Mitch, que deixou pelo menos 11 mil mortos e oito mil desaparecidos em Honduras, além de elevados danos na infraestrutura, entre outros. A capital hondurenha, localizada em uma cadeia de montanhas que chegam a até 1.300 metros de altura, foi das mais afetadas e 15 anos depois da catástrofe deixada pelo Mitch ainda há áreas onde o tempo parou, com moradias inabitáveis que mostram seus danos intocados.

Nesses 180 bairros selecionados vivem os setores mais desfavorecidos da capital, em ladeiras que, com apenas uma hora de chuva forte, antes registravam deslizamentos e transbordamento de riachos. Julio Quiñonez, subgerente do Comitê de Emergência Municipal hondurenho, disse à IPS que a vulnerabilidade ambiental é alta em muitos setores de Tegucigalpa, mas foram executadas “obras de mitigação, grandes e pequenas, que atualmente fazem com que baixem os níveis de risco”.

Uma das obras é uma pequena ponte e o reforço do riacho sobre a qual foi construída, no bairro pobre de Mololoa, nordeste da capital, que dá aos seus moradores uma via de trânsito e uma rota de evacuação em caso de tempestade. La Mololoa, onde vivem cerca de cinco mil pessoas, é uma área de risco não só pela vulnerabilidade, mas também pela insegurança. As “maras” (gangues) controlam o território diante da falta da autoridade formal.

“Até fungos nos pés apareciam por entrarmos na água, porque os carros que vendem produtos não subiam e quando nossos filhos ficavam doentes descíamos com eles no colo, chapinhando na água”, contou Castellanos, de 35 anos. “Agora, até os carros que vendem água sobem sem problemas, bem como o transporte público e inclusive temos uma rota de evacuação em caso de desastres”, acrescentou, detalhando o isolamento que viviam em La Mololoa.

Johan Meza, responsável pelos projetos de mitigação do Plano 100×100, disse à IPS que as pequenas obras executadas incluem a construção de valas, escadarias, rotas de evacuação, caminhos para veículos, pontes de pedestres, drenagens de água pluvial ou muros de alvenaria, entre outras. Os trabalhos obedecem a um diagnóstico sobre a vulnerabilidade da cidade feito pela Agência Japonesa de Cooperação Internacional e também por outras entidades, como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

A poucos metros de uma das principais artérias viárias da cidade, no leste da capital, está outro bairro de moradias precárias, La Villanueva, cheia de passagens sinuosas que são uma odisseia para poder subir até o alto do morro. Aqui os trabalhos de mitigação vão desde zonas de amortização para evitar deslizamentos, pavimentação de ruas, valetas para escoar água da chuva, até construção de escadarias e corrimões em áreas que antes eram intransitáveis. La Villanueva é um dos bairros mais populosos de Tegucigalpa, com 120 mil habitantes e dividido em oito setores. É muito propenso aos deslizamentos de suas ladeiras.

Enquanto mostrava a construção das escadarias pelas quais esperaram por três décadas, María Elena Benítez, dirigente comunitária, contou à IPS que “aqui engatinhávamos para descer esse morro e chegar ao ponto de ônibus, e, quando chovia, era só barro, não imagina o que passamos”. Benítez acrescentou que “era comum ver gente fraturada, especialmente crianças e idosos, mas isso que fizeram, segundo as autoridades, é o começo e La Villanueva deixará de ser uma zona de alto risco e agora vem um plano de capacitação para sabermos preservar as obras de mitigação”.

“Saber isso, embora pareça pouco, é um benefício para o povo. Os desmoronamentos não serão como antes e com essas obras estamos evitando que a água vaze para outros setores e que o riacho transborde sem ter algo que o evite”, pontuou Yovany Tróchez, presidente do Conselho de La Villanueva, que acompanhou a IPS durante a visita. O prefeito de Tegucigalpa, Ricardo Álvarez, garantiu à IPS que “uma simples chuva pode fazer a diferença entre a vida e a morte diante dos desastres naturais que demonstram a vulnerabilidade de nossa cidade”.

Álvarez e sua equipe não escondem a satisfação pelas obras de mitigação que realizam, ao mostrarem estatísticas indicando que, de 12 mortes registradas por chuvas e deslizamentos em 2010, passou-se para apenas uma no ano passado. O objetivo é que ninguém morra por incidentes derivados das inclemências climáticas, enfatizou Álvarez. Contudo, enquanto se consegue isso, assegurou que a capital é menos vulnerável do que há 15 anos, também graças ao fato de seus habitantes terem aprendido a conviver com o risco. O prefeito destacou que Tegucigalpa é a municipalidade de Honduras mais preparada diante dos riscos da mudança climática.

A outra fase do Plano 100×100 está no que chamam adaptação à mudança climática, que inclui intenso programa de capacitação e dotação de equipes nas áreas assistidas, para que a pessoas estejam preparadas e usem as rotas de evacuação em caso de desastres. Bairros pobres e de construções frágeis, com El Pastel, La Concordia, Campo Cielo, Flor del Campo, Brisas del Norte, Nueva Suyapa, Venezuela, Los Pinos, San Juan del Norte e outros dessa capital são lugares onde o medo de perder o que se tem, começando pela vida, diminuiu. Envolverde/IPS

Alto Maipo, o projeto que ameaça a água de Santiago

Ativistas chilenos protestam no centro de Santiago contra o projeto hidrelétrico do Alto Maipo. Foto: Coordenadoria Ríos del Maipo
Ativistas chilenos protestam no centro de Santiago contra o projeto hidrelétrico do Alto Maipo. Foto: Coordenadoria Ríos del Maipo

 

Santiago, Chile, 20/1/2014 – Um projeto hidrelétrico que está sendo construído nas proximidades da capital do Chile ameaça o abastecimento de água potável de mais de seis milhões de pessoas que vivem na região metropolitana. A Central de Pasada Alto Maipo será composta por duas unidades que em conjunto vão gerar 531 megawatts (MW) de potência instalada e 2.465 gigawatts/hora de energia média anual.

Para essa produção, a central utilizará parte das águas dos rios Volcán, Yeso e Colorado, que compõem a Bacia do Rio Maipo, que possui uma vasta biodiversidade e abastece mais de 60% da água potável da região metropolitana, onde fica Santiago. O projeto é controlado por duas empresas chilenas: AES Gener, com 60% de participação, e Antofagasta Minerals, do Grupo Luksic, o mais rico do país. Essa aliança é, para grupos ambientalistas, a prova de que a geração elétrica tem o objetivo de abastecer a grande mineradora do norte do Chile, sedenta por energia, e não à população.

O rio Maipo cruza o cânion de mesmo nome, na Cordilheira dos Andes, a 46 quilômetros de Santiago, onde crescem florestas de peumos (Cryptocarya alba), litres (Lithraea caustica) e quilaias (Quillaja saponaria), onde interagem pumas, raposas e condores andinos, entre outros. “A bacia do rio Maipo está superexplorada pelos diferentes tipos de usuários estabelecidos nos rios do Cânion do Maipo, entre eles AES Gener, que possui quatro hidrelétricas na área”, detalhou à IPS a porta-voz da Coordenadoria Ríos del Maipo, Marcela Mella. “Em países desenvolvidos, todas as bacias que abastecem de água potável as capitais, importantes ou estratégicas do ponto de vista demográfico, estão protegidas”, acrescentou .

Santiago tem 40% da população total desse país de 17 milhões de habitantes. Segundo especialistas em ambiente, há riscos sérios de essa cidade ficar sem água potável caso ocorram alguns fatores. O acadêmico Roberto Román, especialista em Energias Renováveis da Universidade do Chile, disse à IPS que, se a Alto Maipo manejar mal o sistema, “poderá haver efeitos negativos” para o fornecimento de água à capital.

Um risco real é um acordo obtido entre a AES Gener e a Águas Andinas, a principal abastecedora de água potável da capital, que consiste na utilização das reservas de água da região metropolitana para a geração elétrica. Román recordou que isto “não é só teoria”, pois já ocorreu no final da década de 1990, quando a empresa Endesa, atualmente filial da italiana Enel, construiu uma central com turbina a gás nas proximidades de Quintero, 180 quilômetros ao norte de Santiago.

“O projeto atrasou e, como a empresa tinha contratos vigentes para entrega de energia, simplesmente consumiu as reservas da Laguna del Laja (maior represa natural do país) apostando que naquele ano o outono seria normal”, recordou Román. Porém, 1998 foi um ano muito seco e a Endesa não teve com gerar energia. Em consequência, houve apagões em todo o país, primeiro espontâneos e depois programados. Além da teoria, “a prática mostra que, quando a algum engenheiro comercial ocorre maximizar lucros, se esquece dos efeitos secundários de suas medidas”.

A empresa garante em seu site que as águas utilizadas “serão integralmente devolvidas ao rio Maipo, cinco quilômetros águas acima da tomada de água da empresa Águas Andinas, não afetando o abastecimento de água potável para Santiago, seu uso para irrigação e as atividades esportivas que acontecem em torno do rio Maipo”. A Central, que entrará em operação em 2018 e cujo custo supera os US$ 2 bilhões, movimentará turbinas mediante a “passagem” da água natural do rio, sem necessidade de represamento.

A informação oficial é que sua energia abastecerá o Sistema Interligado Central, que fornecerá a eletricidade para quase todo o país. Román lembrou que o abastecimento hídrico do Cânion do Maipo é muito precário, o que se traduz em “várias localidades sem sistemas de água potável e dependendo de redes de tubulação que se nutrem de pequenos charcos. Também há grande quantidade de usos da água de fato, o que faz demorar muito para estabelecer os verdadeiros direitos”, ressaltou.

Román se refere ao Código de Águas de 1981, da época da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), que transformou a água em propriedade privada e conferiu ao Estado a faculdade de conceder a privados direitos de aproveitamento de águas de forma gratuita e perpétua. Além disso, permite comprar, vender ou arrendar esses direitos sem considerar prioridades de uso. “Por isso, embora teoricamente o projeto da Alto Maipo não afete o abastecimento de água do Cânion do Maipo, na prática, uma situação que já é precária poderia piorar”, destacou.

Atualmente, a população do Cânion do Maipo está dividida em relação ao projeto. “Há um setor, que majoritariamente trabalha ou tem seus meios de vida fora do Cânion, que, em geral, se opõe. E também há um setor – especialmente de gente com renda menor e variável – que o vê como uma oportunidade de trabalho direto ou indireto”, pontuou o especialista.

Adolfo Astorga, presidente da Junta de Moradores de San José de Maipo, passeia com frequência pela praça do povoado, local pouco agradável, apesar da alta afluência turística da região. Em seu duplo papel de cidadão e dirigente local, Astorga mostra uma postura ambígua sobre o projeto. “Pessoalmente não concordo, porque obteremos benefícios mínimos, versus o impacto que o projeto causará”, declarou à IPS. Mas garante que defende os moradores que apoiam a Alto Maipo e até os compreende, porque representa uma oportunidade de trabalho “ainda que por pouco tempo”, afirmou.

Para Marcela Mella, a oposição ao projeto soma mais e mais argumentos porque, além do risco de destruição da biodiversidade e do abastecimento seguro de água potável, “há a possibilidade de no curto prazo se causar a desertificação de mais de cem mil hectares do Cânion do Maipo”, pela construção das duas centrais e do túnel de água, que se estenderá por 70 quilômetros.

No momento, apenas algumas centenas de opositores tentam deter o avanço silencioso da Alto Maipo, com mobilizações que não contam com poder de comunicação, ao contrário da empresa. Enquanto isso, os habitantes de Santiago parecem não se dar conta da ameaça. Envolverde/IPS

Arranca o espinhoso processo de paz da Síria

Os civis sírios, como estes de Maa’rrat An-Numan, na província de Idlib, suportam todo tipo de penúria pela guerra começada há quase três anos. Foto: Shelly Kittleson/IPS
Os civis sírios, como estes de Maa’rrat An-Numan, na província de Idlib, suportam todo tipo de penúria pela guerra começada há quase três anos. Foto: Shelly Kittleson/IPS

 

Genebra, Suíça, 20/1/2014 – A sorte do complexo conflito armado da Síria, no qual confluem fatores religiosos e étnicos, junto a pressões dos países vizinhos e interesses estratégicos de grandes potências, começará a ser definida a partir desta semana, na conferência denominada Genebra II. No dia 24, se saberá se as partes que se enfrentam na guerra da Síria aceitam uma saída negociada para o conflito de quase três anos, que já causou mais de cem mil mortes e 2,3 milhões de refugiados, enquanto outros 9,3 milhões de habitantes sobrevivem em estado de extrema falta de proteção humanitária.

Nesse dia deverão se reunir na cidade suíça os representantes do governo do presidente Bashar al Assad e as delegações das forças rebeldes que o combatem desde março de 2011. Até agora, nenhuma das duas partes deu sinais claros de sua disposição de participar das conversações, em uma dilação destinada, aparentemente, a obter a melhor posição na mesa de negociação. As perspectivas da negociação parecem ter sofrido alterações nas últimas semanas, nas quais houve combates entre essas forças opositoras e o governo.

Uma fonte, íntima conhecedora da situação interna na Síria, disse à IPS que alguns grupos de oposição pretendem obter a concessão de liberdade para combater outras forças, que também enfrentam Assad. Neste momento, parece que os rebeldes “mais moderados  estão se impondo nas operações militares contra os grupos mais radicais da Al Qaeda”, que se negam a qualquer possibilidade de um cessar-fogo, afirmou a fonte.

De todo modo, a conferência de Genebra II, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), começará de maneira formal no dia 22, na cidade de Montreux, na região do lago Leman, o mesmo que banha Genebra no extremo oposto. Da sessão de Montreux participarão os governos de 30 países e delegados de organizações internacionais, além da ONU, com o secretário-geral, Ban Ki-moon, à frente. São esperados discursos com exortações à paz e em sua maioria críticos do regime de Assad.

Estados Unidos e Rússia intensificaram nas últimas semanas suas iniciativas para encaminhar a negociação com dois objetivos primordiais para a primeira etapa: alcançar o cessar-fogo e habilitar corredores para envio de assistência às populações mais necessitadas. David Harland, diretor-executivo do Centro para o Diálogo Humanitário (HD), organização privada com sede em Genebra, estima que a melhor solução para enfrentar as dificuldades humanitárias é distribuir a ajuda com a cooperação do governo e de todas as partes. “Isso não ocorre atualmente, quando numerosos comboios transportando ajuda são bloqueados”, lamentou.

A maioria foi detida por não contar com autorização do governo de Damasco, porque foram interceptadas pelos combatentes, por grupos criminosos ou por extremistas, acrescentou Harland. “Atualmente é muito difícil trabalhar em questões humanitárias dentro das zonas controladas pela oposição”, explicou.

Na antessala da conferência, considera-se que o cessar-fogo é muito possível em áreas onde a oposição está cercada, como na região de Hula e na cidade de Homs, na província de mesmo nome, oeste do país. também é factível em pontos onde o governo retém posições dentro de território controlado pela oposição, como ocorre em lugares como Dar’a e Dayr Az Zawr, a nordeste, e Idlib, ao norte.

O Centro HD é uma organização de baixo perfil público que presta com êxito serviços de mediação e se especializa em conflitos armados. No caso da Síria, Harland, ex-diplomata neozelandês, manteve reuniões com Assad e com dirigentes da oposição armada. Com esses antecedentes, afirmou que “Genebra II não porá fim à guerra”, enfatizando que “não pode”.

O processo de Genebra dá como certo que Estados Unidos e Rússia têm suficientes credenciais no caso sírio para levar as coisas adiante. Mas esse entendimento não ficou evidente durante um período em que morreram mais de cem mil pessoas em razão do conflito, ressaltou Harland. O problema está no processo de Genebra, que não encontra uma forma de dar voz aos sírios que desenvolvem sua atividade na oposição interna. Isso “precisa mudar caso se deseje que o processo de paz seja posto em andamento”, alertou.

Genebra II terá êxito “se abrir as portas para um novo tipo de processo de paz”, afirmou Harland. Um processo pacificador de sucesso teria que ser alimentado pelo próprio povo sírio, embora aplicado com ajuda externa. Seria como uma dança: consultas com os sírios no terreno e depois decisões no Conselho de Segurança da ONU, baseadas naquelas conclusões, ressaltou.

Quanto ao convite ao Irã para assistir a reunião de Montreux, que Moscou incentiva enquanto Washington é contra, Harland disse que essa participação “pode ser muito proveitosa. Creio que precisamos de um mecanismo em que todos os protagonistas que dão forma à realidade da Síria estejam presentes nas discussões e assumam suas responsabilidades”.

Para Harland, o conflito da Síria mantém semelhanças com a Guerra da Bósnia, entre 1992 e 1995, que derivou do desmembramento da antiga Iugoslávia. Com na Bósnia, aparecem na Síria assuntos políticos internos junto a questões étnicas e religiosas, igualmente locais, afirmou. Depois aparece um segundo círculo, com protagonistas regionais que apoiam determinadas comunidades étnicas e religiosas. Por fim, um terceiro círculo de potências mundiais, principalmente Estados Unidos e Rússia, mas sem excluir a China.

Diante deste quadro, afirmou Harland, a maior dificuldade que enfrenta o diplomata argelino Lakhdar Brahimi, que coordena as negociações na qualidade de representante especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, “é alinhar os três círculos para conseguir uma perspectiva séria de paz”. Isto é, deve haver alguns acordos entre as partes sírias, outros entre os protagonistas regionais e, também, outros entre Estados Unidos, Rússia e os demais membros permanentes do Conselho de Segurança.

Harland concorda que no caso da Bósnia a pacificação chegou depois de arrasadores bombardeios sobre alvos sérvios por parte das esquadrilhas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “No caso da Síria, creio que é muito improvável uma intervenção estrangeira decisiva”, afirmou.

Além disso, os casos bósnio e sírio apresentam diferenças de escala. A Bósnia, com apenas quatro milhões de habitantes, é um país próximo à Europa e ao Ocidente, na geografia e nos interesses. A Síria, que tem seis vezes mais habitantes, está distante, afirmou o diretor do Centro HD. Uma última diferença é que o poder relativo dos Estados Unidos atualmente é “menor do que o que tinha em 1995, quando interveio militarmente na Bósnia”, concluiu Harland. Envolverde/IPS

Caem investimentos mundiais em energias alternativas

Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC). Foto: Lusha Chen /IPS
Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC). Foto: Lusha Chen /IPS

Nações Unidas, 20/1/2014 – Apesar da redescoberta pelos que ditam a tendência em Wall Street da importância dos mercados “verdes”, os investimentos mundiais em energias alternativas caíram 12% no ano passado. Um relatório da empresa de dados Bloomberg New Energy Finance mostra que os investimentos caíram tanto nos Estados Unidos quanto na China. Na verdade, para este país asiático foi o primeiro ano em uma década em que não houve crescimento nesse setor. Também caíram quase pela metade na Europa devido às medidas de austeridade.

O setor solar liderou a queda. Os preços dos painéis fotovoltaicos desmoronaram, provocando uma contração de 20% em toda a indústria. Entretanto, houve aumento na demanda por instalações solares em terraços, e os investidores se voltaram ao financiamento das companhias que as fabricam, dessa forma duplicando o valor do Índice global de Energia Solar MAC. Em maio, o grupo de investimentos Goldman Sachs acordou aportar mais de US$ 500 milhões em painéis solares fabricados pela empresa norte-americana SolarCity Corp.

“Por que a Goldman Sachs está investindo? Por que Warren Buffet investe? A resposta é que não são bobos. Há muito dinheiro a ser ganho aí” no futuro, explicou Michael Liebrich, chefe-executivo da Bloomberg New Energy Finance. “Para cada painel solar que se venda abaixo do custo, alguém está recebendo um painel solar barato. Estamos vendo o início de uma nova era nas tecnologias da energia, e as finanças estão fluindo. Esses chamativos acordos permitirão que seja muito mais fácil para o lote seguinte”, afirmou Liebrich.

O executivo conversou com a IPS por ocasião da sexta Cúpula de Investimentos sobre Riscos Climáticos, realizada no dia 14 na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. O encontro reuniu quase 500 investidores privados, administradores de fundos de pensão e banqueiros, que chegaram a duas conclusões fundamentais: a mudança climática deve ser enfrentada e há dinheiro suficiente para isso. Contudo, enquanto o setor das energias se consolida e amadurece, o ambiente de investimentos não dá respiro aos moradores em países de risco. No ano passado, houve um recorde de temperaturas altas na Austrália, houve inundações no Sudão do Sul e as Filipinas sofreram o pior tufão de sua história.

“Se não houvesse a mudança climática, de toda forma estaríamos avançando para matrizes de energia baixa em carbono”, afirmou Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC). “Mas o clima supõe um fator de urgência. Agora sabemos que se demorarmos para equilibrar a matriz mundial de energia poderemos enfrentar gravíssimas ameaças à economia mundial”, alertou.

Na 19ª Conferência das Partes da CMNUCC, realizada em novembro na capital da Polônia, foi criado o Mecanismo de Varsóvia para enfrentar as perdas e os danos associados à mudança climática. Acordado apenas alguns dias depois que o tufão Haiyan açoitou as Filipinas, o mecanismo é um veículo para destinar fundos aos países mais pobres que sofrem a carga dos desastres naturais associados com as crescentes emissões de carbono. Mas ainda não está claro como será financiado.

“Temos um período para fazer isso, e basicamente são os próximos dez anos”, ressaltou Figueres à IPS. Na próxima década “teremos que ser capazes de estabelecer um teto mundial para as emissões”, acrescentou. Apesar do consenso científico sobre as causas do aquecimento global, muitos países continuam subsidiando os combustíveis fósseis, que geram as principais emissões contaminantes, muitas vezes colocando em desvantagem as energias limpas quando estas poderiam competir em um mercado livre.

“Certas energias renováveis já são mais baratas do que os combustíveis fósseis, apesar de estes serem beneficiados com subsídios”, pontuou Figueres. “Assim, na verdade, são verdadeiramente competitivos. Mas o ponto é que não devemos deixar que sejam casos isolados em certos países”, acrescentou.

Em 2011, a Agência Internacional de Energia informou que os subsídios para fontes renováveis somaram naquele ano US$ 88 bilhões, contra US$ 500 bilhões para os combustíveis fósseis. E em 2013 o Fundo Monetário Internacional informou que “as subvenções para a energia alcançaram a impressionante cifra de US$ 1,9 trilhão em todo o mundo”, em sua maior parte destinados a combustíveis fósseis.

“A política é extremamente importante, porque justamente agora carecemos de um campo de jogo parelho entre energia limpa, uma indústria emergente com grandes benefícios sociais, e a dos combustíveis fósseis, altamente subsidiada e com impactos negativos”, opinou Mindy Lubber, presidente da não governamental Ceres, coorganizadora da conferência. “Políticas de governo completas que incentivem melhor as energias limpas e avaliem adequadamente os impactos dos combustíveis fósseis seriam de enorme utilidade para promover mais investimentos na energia limpa”, afirmou.

Vários bancos importantes dos Estados Unidos e da Europa, incluindo Bank of America, JP Morgan e Credit Agricole Corporate, adotaram voluntariamente pautas sobre a emissão dos chamados “bônus verdes” destinados a esforços de mitigação do aquecimento global. Fundos públicos de pensões no Estado da Califórnia e na Suécia já investiram em bônus semelhantes.

“As políticas de governo têm um papel fundamental, mas os próprios investidores devem trabalhar mais duro para priorizar os investimentos em energia limpa em todo tipo de ativos, incluindo o mercado de bônus e em projetos de investimentos diretos”, disse Lubber à IPS. “O estabelecimento de metas específicas para um portfólio de investimentos em energia limpa enviaria um forte sinal aos mercados”, ressaltou. Envolverde/IPS

A nota certa contra o Talibã

Uma obra musical em Peshawar. Isto seria impensável sob o domínio anterior do Talibã. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS
Uma obra musical em Peshawar. Isto seria impensável sob o domínio anterior do Talibã. Foto: Ashfaq Yusufzai/IPS

 

Peshawar, Paquistão, 17/1/2014 – Durante muitos anos não puderam cantar, dançar ou tocar seus instrumentos favoritos. Os artistas de Jyber Pajtunjwa perderam sua voz enquanto o movimento extremista Talibã cometia ataques terroristas e proibia a música, qualificando-a de anti-islâmica. Após vários meses de tentativas de avanços, esta província paquistanesa revive ao som de seus acordes.

Ao reiniciar a venda aberta de produtos musicais, bem como as ocasionais obras em teatro, os sons voltam em todo seu esplendor em muitas áreas, se não em todas. A grande mudança ocorreu nos meses posteriores às eleições de maio de 2013. “Os últimos cinco anos foram muito difíceis para os músicos por culpa dos rebeldes talibãs. Agora respiramos aliviados porque os atos terroristas diminuíram”, disse à IPS o cantor Gul Panra.

O povo pashtun, que habita a região, era tradicionalmente entusiasta da música. Contudo, entre 2008 e 2013, os músicos enfrentaram tempos difíceis, pois Jyber Pajtunjwa estava sob o domínio do Partido Nacional Awami, contrário ao Talibã, e os insurgentes cometiam constantes explosões e ataques suicidas. Foi dessa forma que o Talibã impediu os músicos de se apresentarem.

Entretanto, ao diminuir a influência desse movimento fundamentalista na região, e com o novo governo provincial incentivando ativamente os artistas desde que chegou ao poder, agora a música está voltando. “Graças ao novo governo, a maioria dos cantores e músicos voltou a trabalhar”, contou Panra, que estuda na Universidade de Peshawar, mas está ocupado com suas apresentações em shows e casamentos, além de fazer canções para filmes.

Swat, um distrito de Jyber Pajtunjwa, foi outrora conhecido por seus cantores e bailarinos. A região, montanhosa e pitoresca, tem muitas correntes e rios que foram usados como cenário para cenas musicais em filmes. Mas a área ficou sem artistas entre 2007 e 2010, devido aos castigos infligidos pelo Talibã.

Em janeiro de 2009, insurgentes talibãs mataram a famosa bailarina Shabana, em Swat, fazendo um arrepio percorrer as costas da comunidade artística. Muitos fugiram ou abandonaram sua profissão para evitar serem alvos do Talibã. Mas atualmente pode-se ouvir música nas colinas e nos vales de Swat. O Talibã foi expulso desse distrito mediante uma operação militar em 2010.

“Estamos de volta. Todas as noites há funções musicais que levam entretenimento às pessoas do lugar, e há muitos entusiastas do resto do país”, afirmou Mohammad Suleiman, que toca harmônica em Swat. Suleiman disse que suas duas filhas bailarinas eram o único sustento econômico de sua família de 12 membros e que, enquanto o Talibã dominou a região, ficou difícil colocar duas refeições por dia na mesa.

Sua filha de 18 anos, Noreen Begum, contou que “agora voltamos a receber ofertas para nos apresentarmos em casamentos”. Dançar sempre foi sua paixão. “Desfruto da música e da dança. E com o que ganho meus irmãos podem continuar seus estudos”, afirmou.

A música também está de volta em Peshawar, capital de Jyber Pajtunjwa. Após a chegada ao poder na província do partido Pakistan Tehreek Insaf, do jogador de críquete Imran Kan, o cenário musical se transformou. “As pessoas nos convidam para atuar em programas privados, e nos pagam bem. Os pashtunes tradicionalmente amam a música, e jogam dinheiro para os intérpretes em sinal de apreço”, disse à IPS o cantor Shah Sawar. Este jovem de 25 anos contou que nos últimos tempos se apresentou para Imran Kan, que o elogiou. “Foi animador receber um tapinha seu nas costas”, afirmou.

O Nishtar Hall, único teatro em Peshawar, voltou à vida e agora já realiza funções musicais quase diariamente. “Todos os dias recebemos telefonemas de patrocinadores. Além dos artistas locais, cantores de outras partes do país também se apresentam aqui”, explicou à IPS Karam Kan, funcionário desse teatro do governo.

Cada apresentação na sala de 600 lugares reúne centenas de entusiastas que chegam em grupos bem antes do início, disse Kan. “Acabaram os dias em que o Nishtar Hall permanecia fechado pelas ameaças do Talibã. A situação voltou à normalidade e as atividades culturais ganham impulso’, acrescentou.

Mashooq Sultan, uma diva do passado, também está feliz com o partido de Imran Kan. “Ele demonstrou ser uma benção para mais de dez mil artistas que praticamente estiveram desempregados antes que seu partido chegasse ao poder. Para mim estava muito difícil manter a família, porque havia poucas apresentações musicais. Apreciamos Imran por melhorar a situação da lei e da ordem”, afirmou. “Os últimos seis meses foram muito bons para nós. Atuamos no Nishtar Hall e em apresentações privadas”, disse Sultan, que garantiu à IPS ter interpretado cinco mil canções na televisão e no rádio.

As Áreas Tribais Administradas Federalmente (Fata), perto da fronteira com o Afeganistão, ainda estão repletas de insurgentes, que privam a população local de danças e músicas. Algumas áreas de Jyber Pajtunjwa, onde o Talibã ainda exerce influência, podem sentir as restrições ainda hoje. Porém, Sultan argumentou que ninguém poderá parar a música nesta parte do mundo. “Os casamentos e outras cerimônias festivas são consideradas incompletas sem música, e o Talibã não pode proibi-la para sempre”, ressaltou. Envolverde/IPS

Kuwait lidera ajuda humanitária à Síria

O lixo acumula nas ruas da cidade síria de Homs. Foto: Freedom House/cc by 2.0
O lixo acumula nas ruas da cidade síria de Homs. Foto: Freedom House/cc by 2.0

 

Cidade do Kuwait, Kuwait, 17/1/2014 – Diante do agravamento da crise humanitária na Síria, a comunidade internacional prometeu esta semana US$ 2,4 bilhões para ajudar os afetados pelo conflito nesse país. Na segunda conferência de doadores para a Síria, o emir do Kuwait, xeque Jaber al Ahmad al Jaber al Sabah, liderou a comunidade internacional com a contribuição de US$ 500 milhões, superando os US$ 380 milhões prometidos pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

Arábia Saudita e Catar, duas monarquias do Oriente Médio ricas em petróleo, deram US$ 60 milhões cada uma, enquanto a Alemanha contribuiu com US$ 109 milhões, todos bem atrás do Kuwait. Além disso, organizações não governamentais e instituições benemerentes contribuíram com mais de US$ 400 milhões na conferência patrocinada pelo governo kuwaitiano. O total arrecadado superou os US$ 2,4 bilhões.

A quantia exata será anunciada em breve, disse o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, expressando sua satisfação pelos números. Porém, não se conseguiu reunir os US$ 6,5 bilhões que o fórum mundial havia solicitado.

Consultada sobre esse déficit, a secretária-geral adjunta de Assuntos Humanitários, Valerie Amos, afirmou aos jornalistas que a quantia de US$ 6,5 bilhões não era a meta na conferência do Kuwait. “Esse é o montante requerido para todo o ano”, afirmou, qualificando de “grande sucesso” o resultado da conferência.

No encontro do Kuwait foi pintado um retrato catastrófico da Síria, onde 9,3 milhões de pessoas, quase metade da população do país, precisam de urgente ajuda humanitária. As últimas estatísticas são terríveis: mais de dois milhões de crianças sírias não vão à escola, dois em cada cinco hospitais já não funcionam e quase metade das ambulâncias foram roubadas, incendiadas ou danificadas.

Além disso, quase metade dos médicos foram obrigados a abandonar o país, e cresce a ameaça da poliomielite. “Algumas partes do país têm apenas uma hora de eletricidade por dia, e muitas pessoas não têm acesso seguro a água potável”, disse Ban aos doadores. O secretário-geral destacou que qualquer recuperação política deverá ser construída com base em uma ajuda humanitária sustentada.

A primeira conferência, realizada em janeiro do ano passado também no Kuwait, conseguiu US$ 1,5 bilhão por parte de 43 doadores, incluindo os US$ 300 milhões oferecidos por esse país do Golfo. Cerca de 90% dessas promessas se concretizaram, informou Amos em entrevista coletiva. Esses fundos ajudaram no ano passado a fornecer água potável a dez milhões de pessoas na Síria, e permitiram que organizações de saúde prestassem serviços para mais de 3,5 milhões de sírios, entre eles mais de um milhão de crianças que receberam vacinas, segundo a ONU.

Amos relatou aos doadores que, quando visitou a Síria há quase dois anos, só um milhão de pessoas precisavam de assistência humanitária. Agora, somam 9,3 milhões, lamentou, “quase a população do Chade, da Suécia ou da Bolívia”, e há quase seis milhões de refugiados. “O próprio tecido social está destruído, e o sectarismo se arraigou, com numerosos exemplos de comunidades vítimas de ataques em razão de sua religião”, afirmou a secretária-geral adjunta. Também disse estar preocupada pelos persistentes informes sobre pessoas que não têm o que comer em algumas comunidades sitiadas.

Por sua vez, John Kerry, após anunciar sua contribuição de US$ 380 milhões, disse aos doadores: “Não consideramos que nossa tarefa, nem a de ninguém aqui, seja simplesmente assinar um cheque”. O secretário de Estado acusou o regime de Bashar al Assad de usar a fome como arma de guerra e negar aos trabalhadores humanitários acesso às populações civis presas no fogo cruzado.

“Se o regime permite o acesso de inspetores de armas internacionais e da ONU, certamente pode fazer o mesmo para a ajuda humanitária neutra”, afirmou Kerry. Desde o começo do conflito, em março de 2011, os Estados Unidos têm sido o maior doador, com US$ 1,7 bilhão em ajuda humanitária.

O porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha), Jens Laerke, explicou à IPS que parte das doações é concedida sob a condição de ser destinada a atender emergências específicas ou a apoiar setores ou atividades determinadas. Mas “alguns doadores preferem dar dinheiro de forma mais flexível, para que seus sócios na ajuda humanitária possam decidir onde é mais necessário”, acrescentou.

Além disso, Laerke explicou que “todos os fundos prometidos na conferência serão destinados a financiar ações de ajuda na Síria ou em países vizinhos”. Na Jordânia, Líbano, Turquia, Iraque e Egito há mais de três milhões de refugiados sírios. Laerke disse que sempre há uma demora entre o anúncio da doação e sua concretização efetiva. “Em última instância, depende do doador cumprir essas promessas”, ressaltou.

Ban Ki-moon disse na conferência que as famílias sírias sabem bem que a ajuda humanitária pode salvar vidas, mas não resolver a crise. A ONU é um dos patrocinadores de um encontro internacional sobre o conflito sírio que acontecerá no dia 22, na cidade suíça de Montreaux, e que procurará reunir na mesa de negociações representantes do regime de Assad e da oposição. “Espero que marque o início de um processo político, estabeleça um organismo de governo de transição com pleno poder executivo e, o mais importante, acabe com a violência”, ressaltou Ban. Envolverde/IPS

A sombra do fracasso em Ruanda, 20 anos depois

Sobreviventes do genocídio ruandês exumam os cadáveres de seus parentes assassinados durante o massacre de cem dias, em 1994. Foto: Edwin Musoni/IPS
Sobreviventes do genocídio ruandês exumam os cadáveres de seus parentes assassinados durante o massacre de cem dias, em 1994. Foto: Edwin Musoni/IPS

 

Nações Unidas, 17/1/2014 – Em 11 de janeiro de 1994, Romeo Dallaire, comandante da Missão de Assistência das Nações Unidas em Ruanda, enviou um fax à sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York para informar que uma fonte próxima ao governo do país africano lhe confiara que os tutsis estavam sendo obrigados a se registrar em Kigali. “Ele suspeita que é para seu extermínio”, escreveu Dallaire.

Em cinco meses, um milhão de ruandeses, de maioria tutsis, foram vítimas de um genocídio meticulosamente planejado e lançado por extremistas hutu. As tensões étnicas começaram depois que o avião em que viajava o presidente Juvénal Habyarimana foi derrubado por um míssil para impedir que ele assinasse um acordo de paz. A autoria do genocídio até agora não foi esclarecida.

Nestes dias, a Organização das Nações Unidas (ONU) relembra o sombrio 20º aniversário do que muitos consideram seu maior fracasso, uma oportunidade para refletir sobre o papel das forças de manutenção da paz no século 21. “Há 20 anos, a humanidade se viu abalada”, afirmou Dallaire a jornalistas no dia 14, em Nova York. “A comunidade internacional fez todo o possível para ignorar Ruanda. Não estava em seu radar, não era de seu interesse, não tinha valor estratégico”, ressaltou.

Simon Adams, diretor-executivo do Centro Mundial para a Responsabilidade de Proteger, que participou da entrevista coletiva junto com Dallaire e o embaixador de Ruanda, Eugene-Richard Gasana, disse que o genocídio nesse país e a “limpeza étnica” nos Bálcãs na década de 1990 constituíram um ponto de ruptura para as Nações Unidas.

Onze anos depois do genocídio, em 2005, a ONU lançou a iniciativa Responsabilidade de Proteger (R2P), que exorta os Estados a resguardarem sua própria população de assassinatos em massa e pede à comunidade internacional que adote ações coletivas para prevenir genocídios. “Sem a tragédia de Ruanda não teríamos a R2P”, afirmou Adams à IPS. “Não haveria forma de isso acontecer sem o processo de triste reflexão posterior e o fracasso total da ONU em 1994”, acrescentou.

Entretanto, em 2009, a ONU foi alvo de duras críticas por não ter feito mais durante os meses finais da guerra civil no Sri Lanka, na qual morreram mais de 40 mil civis. Um relatório interno das Nações Unidas de 2012 repercutia várias investigações feitas nos anos 1990 indicando que “o fracasso da ONU na hora de responder de forma adequada aos fatos como os ocorridos no Sri Lanka não devem se repetir”. E acrescenta que “diante de situações similares a ONU deve ser capaz de cumprir padrões muito mais altos no cumprimento de suas responsabilidades humanitárias e de proteção”.

Agora as missões de paz da ONU priorizam a proteção de civis, e a soberania já não tem precedente quando estes são atacados. Hoje espera-se que as operações de paz, como as últimas intervenções no Sudão do Sul e na República Centro-Africana, recebam autorização para usar a força a fim de impedir a morte de não combatentes.

Mas a missão de Dallaire não tinha esse mandato. Um ano depois da desastrosa missão na Somália, os países duvidavam em enviar tropas para Ruanda. Mesmo quando Dallaire pediu aos Estados Unidos que interceptasse as transmissões de rádio nas quais eram dadas instruções para matar, Washington se negou, temendo que isso implicasse violar a soberania ruandesa.

“A obrigação recai sobre cada Estado soberano que forma a ONU”, opinou Dallaire. “Todos os Estados soberanos lavaram as mãos, não quiseram se envolver. Viram aproximar-se outra catástrofe como a de Mogadíscio e fizeram todo o esforço para não se envolverem. Portanto, não houve prevenção. Houve palavras, mas não prevenção”, ressaltou.

Não só a ONU ignorou os pedidos de Dallaire, como durante o pior genocídio, quando a cada minuto eram assassinados sete ruandeses, seu Conselho de Segurança votou a favor de reduzir em 90% sua missão de manutenção de paz nesse país africano. Dallaire e várias centenas de soldados receberam ordem para abandonar Ruanda, mas se negaram. Tentaram desesperadamente proteger os civis, mas a matança superou os capacetes azuis, mal equipados.

Apenas três semanas antes de os rebeldes tutsi tomarem a capital e acabarem com o genocídio, o Conselho de Segurança finalmente aprovou uma intervenção francesa, mas os três mil soldados desse país permitiram que os hutu e o grupo paramilitar Interahamwe continuassem de posse de suas armas. A busca pelos responsáveis pelo genocídio continua até hoje. “A história julgou a ONU de forma muito severa por sua falta de ação em Ruanda, e devemos aprender as lições do passado”, pontuou Adams.

Em março de 2013, o Conselho de Segurança autorizou a criação de uma Brigada de Intervenção, força de resposta rápida que controlou com êxito os rebeldes do Movimento 23 de Março na República Democrática do Congo. “A nova força, com capacidade ofensiva, é um significativo progresso em relação aos mandatos anteriores, que eram tão restritivos”, destacou Dallaire.

“A manutenção da paz sempre sofre uma falta de reação rápida”, afirmou à IPS David Curran, conferencista sobre paz e resolução de conflitos na Universidade de Bradford, na Grã-Bretanha. “Há uma grande necessidade de examinar os conceitos de deslocamento rápido”, acrescentou.

Curran disse que os países ainda se queixam dos ambíguos mandatos que recebem as missões de paz, e muitos Estados membros, sobretudo do Sul em desenvolvimento, são reticentes em enviar tropas e seguir ordens do Conselho de Segurança, cujos integrantes em geral fornecem poucos soldados, ou nenhum.

“Certos Estados, principalmente do Movimento dos Países Não Alinhados, se sentem pressionados a fornecer soldados em situações onde há pouca paz a ser mantida”, afirmou Curran “Dizem receber mandatos muito vagos, relativos à proteção de civis, por parte do Conselho de Segurança, que, sem dúvida, tem uma maioria de Estados que não fornecem tropas para as operações de manutenção de paz”, acrescentou. Envolverde/IPS

Narcotráfico engole produtores de milho no México

milho
O milho, principal cultivo do México e base de sua dieta, enfrenta ameaças como sua substituição por plantação de entorpecentes. Foto: Emilio Godoy/IPS

Cidade do México, México, 17/1/2014 – A completar 20 anos do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN), o México sofre a substituição de cultivos como o milho pelos de maconha e papoula, diante da queda dos preços do mais importante item agrícola do país.

Desde que o TLCAN – entre Canadá, Estados Unidos e México – entrou em vigor, em janeiro de 1994, os preços do milho e de outros produtos agrícolas começaram a cair acentuadamente, em detrimento da renda dos agricultores com menos terra e menor colheita, o que os colocou na mira das máfias do tráfico de drogas.

“A situação ocorre em regiões de agricultores pobres, onde o preço caiu e a produtividade é baixa. Precisam recorrer aos narcotraficantes, que lhes emprestam dinheiro ou arrendam terras”, disse Víctor Quintana, assessor da não governamental Frente Democrática Camponesa no Estado de Chihuahua, norte do país.

Quintana contou à IPS o caso dos indígenas pimas, que habitam em Chihuahua e o vizinho Estado de Sonora, que se converteram, segundo seus dados, em fornecedores de matéria-prima para os grupos criminosos que disputam violentamente entre si as rotas de distribuição para o vizinho e lucrativo mercado norte-americano.

“O processo começou na década de 1980, mas com a penetração dos cartéis de Sinaloa e Juárez vem aumentando desde 2006”, explicou Quintana se referindo à disputa entre as duas máfias da droga pelo controle dessa região fronteiriça.

O milho tem especial simbolismo para o México, considerado como o local de origem desse cereal com 59 tipos autóctones e 209 variedades, que constituem um componente essencial da dieta de sua população. O país produz cerca de 22 milhões de toneladas, mas precisa importar outros dez milhões para atender a demanda, segundo o Ministério da Agricultura e organizações de produtores. Cerca de três milhões de agricultores semeiam aproximadamente oito milhões de hectares de milho, mas dois milhões deles destinam sua colheita unicamente para o consumo familiar.

Omar García Ponce, acadêmico do Departamento de Política da Universidade de Nova York, disse à IPS que “a deterioração da economia dos municípios produtores de milho está vinculada de forma muito estreita ao cultivo de drogas”. A seu ver, essa deterioração explica o motivo de o país ter se convertido em um dos produtores mais importantes de maconha e papoula.

Ponce, Oeindrila Dube e Kevin Thom, também da universidade norte-americana, publicaram em agosto o estudo From Maize to Haze: Agricultural Shocks and the Growth of the Mexican Drug Sector (Do Milho à Névoa: Choques Agrícolas e o Crescimento do Setor Mexicano de Drogas), que conclui que a queda dos preços fez aumentar os cultivos proibidos nos municípios climaticamente mais aptos para a plantação de milho.

Os autores analisaram dados de mais de 2.200 municípios durante o período 1990-2010, sobre produção, emprego agrícola e renda. Também mediram o impacto do vai e vem no preço no preço do milho sobre o cultivo de drogas e a violência desatada pela atividade ilegal. O estudo destaca que o TLCAN forçou a liberalização do setor, expandindo as cotas de exportação do grão e reduzindo tarifas alfandegárias, além de precipitar uma grande queda no preço do milho no México.

A cotação do cereal caiu 59% entre 1990 e 2005, o que se traduziu em uma redução de 25% na renda dos produtores de milho. Em paralelo, os assassinatos relacionados com o tráfico de drogas aumentaram, em média, 62% nos municípios com condições adequadas para o cultivo, afirma o estudo.

Com a crise mundial de alimentos de 2007, o preço do milho subiu 8% entre esse ano e o seguinte, enquanto os homicídios ligados ao narcotráfico caíram 12% nos municípios produtores de milho. A apreensão de drogas aumentou 16% e a erradicação de plantios 8%, ao contrário do ocorrido em zonas não produtoras de milho, cuja produção também enfrenta o fantasma da autorização de plantação comercial de grão transgênico.

“A queda no preço do milho contribuiu para a bonança do narcotráfico no México”, diz o documento, o primeiro a vincular a crise rural com o desenvolvimento do tráfico de drogas no México. A pesquisa mapeou zonas dos Estados de Sinaloa, Guerrero, Michoacán, Chiapas, Oaxaca, Tamaulipas, Yucatán e Campeche, que experimentaram a substituição do cultivo. A erradicação da droga se concentra ao longo das faixas ocidental e sul de Sierra Madre e áreas adjacentes.

Dados do Ministério da Defesa Nacional indicam que a erradicação do plantio de maconha aumentou entre 1990 e 2003, quando passou de 5.400 hectares para 34 mil, depois caiu até ficar em 17.900, em 2010. Entre dezembro de 2006 e novembro de 2012, o período de governo do conservador Felipe Calderón, as forças armadas arrasaram 98.354 hectares, enquanto em 2013, primeiro ano da gestão do também conservador Enrique Peña Nieto, essa quantidade foi de 5.096.

A erradicação de papoula começou com 5.950 hectares em 1990, subiu para 20.200 em 2005, e caiu para 15.331 em 2010. Entre dezembro de 2006 e novembro de 2012 os militares arrasaram 86.428 hectares. No ano passado chegou a 14.419 hectares.

O tema é tabu nas zonas de milho, onde são muitos os boatos de que os agricultores dissimulam plantios ilícitos entre outros em suas terras e ninguém reconhece abertamente que está vinculado a essa atividade. “Ouve-se que este ou aquele produtor semeia droga, há muito medo de falar disso”, disseram à IPS colhedores dos Estados de Jalisco e Guerrero, que pediram para não serem identificados. Desde 2011, os meios de comunicação mexicanos e a Procuradoria Geral difundiram ao menos dois casos de camponeses presos por cultivarem drogas, nos Estados de Puebla e Guerrero.

Peña Nieto anunciou para este ano orçamento de US$ 26 bilhões para o campo e “uma reforma profunda do setor”. Mas os especialistas duvidam que essas medidas alterem a situação dos pequenos produtores. “Se se concentram em um punhado de estados e não mudam a estrutura de distribuição de recursos, continuará a mesma situação no campo”, e em particular com os cultivos de drogas, opinou Quintana.

Por outro lado, “se aproveitarem terras ociosas, aumentarem a capacidade produtiva, apoiarem tecnicamente camponeses pobres e indígenas, o problema diminuirá”, enfatizou Quintana, assessor de produtores de milho, que sugere preço mínimo de garantia para o milho a fim de enfrentar o desmantelamento dos apoios à produção local, por causa do TLCAN.

Ponce aconselha “maior ênfase na ajuda aos agricultores que são mais suscetíveis. A situação do campo e os incentivos que fizeram os agricultores se voltarem para os cultivos ilícitos são ignorados pelas políticas públicas”. A pesquisa concluiu também que a queda do preço do milho redunda em aumento de 5% na possibilidade de aparecer um cartel em um município. Envolverde/IPS

Mafiosos contra empresários chineses no Quirguistão

Quirguistao

Bisqueque, Quirguistão, 16/1/2014 (EurasiaNet) – O Ano da Serpente esteve repleto de surpresas ingratas para os chineses que vivem no Quirguistão. Em um contexto de crescente nacionalismo econômico e escassa aplicação da lei, os imigrantes de origem chinesa se queixam de serem vítimas de roubos e extorsões, especialmente por parte de funcionários que deveriam protegê-los.

Em dezembro, meios de comunicação estatais chineses denunciaram uma “onda” de ataques contra empresários e estudantes da China em Bisqueque, capital do Quirguistão, e seus arredores. O informe, publicado no Global Times, com sede em Pequim, dizia que muitas vítimas se sentiam alvo de discriminação étnica, e que a polícia local era cúmplice de ataques violentos.

No mesmo mês, a embaixada da China em Bisqueque tomou a incomum medida de emitir um “alerta de segurança de emergência”, advertindo seus cidadãos a ficarem atentos. Outro comunicado divulgado pela embaixada repreendeu as autoridades do Quirguistão por não protegerem os cidadãos chineses.

Em entrevista à EurasiaNet, um cuidadoso chinês radicado em Bisqueque, onde é proprietário de um restaurante, contou a delicada situação vivida por muitos como ele. As máfias, comumente protegidas pela polícia, veem os comércios chineses como de pouca importância, como “máquinas de dinheiro”, disse a fonte, pedindo para não ter o nome revelado. “Vivemos com simplicidade e tentamos economizar dinheiro como todo mundo. Mas as gangues pensam que, como a China tem dinheiro, nós também temos”, acrescentou.

Por outro lado, grupos de operários chineses, que frequentemente trabalham em projetos de construção administrados por empresas estatais de seu país, são submetidos a repentinas revisões de documentos por parte de grupos nacionalistas. Estes, que consideram os imigrantes chineses uma ameaça à segurança nacional, prosperam com base no ressentimento: muitos quirguistaneses não entendem porque os chineses ficam com empregos escassos e desejados, enquanto centenas de nacionais são obrigados a trabalhar na Rússia.

Um dos grupos, o Erkin El, afirma que cerca de 300 mil chineses já vivem no Quirguistão, país com cerca de 5,5 milhões de habitantes. O Global Times estima que esse número está mais para 80 mil. A Coalizão de Uma Nova Geração é outro grupo juvenil que atua como inspetor autodesignado dos documentos dos trabalhadores chineses. As revisões, algumas filmadas e divulgadas na internet, são semelhantes às que os grupos nacionalistas russos realizam contra imigrantes da Ásia central. Os representantes da coalizão não responderam aos reiterados pedidos de entrevista feitos pela EurasiaNet.

Os meios de comunicação em idioma quirguistanês têm o costume de fazer comentários racistas e utilizar hipérboles de inspiração nacionalista. Muitos deles ajudam a avivar o sentimento antichinês. Em julho, por exemplo, o jornal Alibi buscou culpar a China pela instabilidade crônica do Quirguistão, em um artigo intitulado Migrantes Chineses Podem Realizar a Terceira Revolução.

Aigul Ryskulova, ex-ministra do Trabalho, que lidera um grupo sobre migrações no governo do presidente Almazbek Atambayev, disse à EurasiaNet que as migrações chinesas não são “tão catastróficas” como os grupos nacionalistas as descrevem. Em novembro do ano passado, funcionários do Ministério de Trabalho, Migrações e Juventude disseram no parlamento que os cidadãos chineses representavam cerca de 70% das 12.990 permissões de trabalho emitidas em 2013.

Um problema importante, segundo Ryskulova, é a natureza convulsionada do contexto migratório do Quirguistão. A racionalização pode beneficiar o sistema, afirmou. “Os acordos intergovernamentais que operam fora do sistema de cotas, as demoras nos departamentos e os programas anticorrupção no processo de prorrogação de vistos” significam que o número total de chineses trabalhando no país seja várias vezes superior ao da cota oficial anual, ressaltou.

Essa brecha faz com que ganhem força os “mitos” sobre a quantidade de imigrantes chineses no país, além de fomentar uma sensação de indefesa entre os cidadãos quirguistaneses, acrescentou Ryskulova. Embora a visibilidade cada vez maior dos trabalhadores chineses, sem dúvida, alimentou a xenofobia, os motivos que há por trás da recente onda de ataques violentos podem ser mais calculados, segundo Li Lifan, da Academia de Ciências Sociais de Xangai.

Os expatriados chineses, em particular empresários privados, “tendem a acumular grandes somas em divisas, especialmente dólares”, para evitar os preços punitivos das transferências bancárias do Quirguistão para a China. Isto, combinado com o fato de os chineses “raramente se queixarem” e frequentemente não informarem os crimes ou tentativas de extorsão, os torna “alvos fáceis para as gangues locais”, disse Lifan à EurasiaNet. Diplomatas da embaixada da China se negaram a falar sobre este tema à EurasiaNet.

O dono de um restaurante chinês em Bisqueque, nascido em Sichuan, disse que as extorsões não são novidade. Seu estabelecimento, no centro da cidade, é um dos, pelo menos, dez restaurantes de proprietários chineses que há na capital, e recebeu ameaças de mafiosos. Uma vez, cinco homens entraram no restaurante e pediram US$ 2 mil em dinheiro, contou a fonte.

“Quando dissemos que não podíamos pagar, voltaram no dia seguinte, pediram uma grande refeição e saíram sem pagar. Quando chamamos a polícia, os oficiais disseram que o grupo não cometera nenhum crime e que nós mostramos nossa hospitalidade. Isso continuou ocorrendo duas vezes por semana durante um mês”, disse o empresário. Os mafiosos finalmente deixaram de aparecer após verem que o restaurante rendia pouco dinheiro.

As acusações de envolvimento da polícia com as máfias e em fatos de violência são comuns. E isso é verossímil em um país onde, segundo estudo de 2012 financiado pelo governo dos Estados Unidos, a polícia é a segunda instituição que gera menos confiança, depois do Poder Judicial. Segundo um entrevistado citado no informe do Global Times, um policial de Bisqueque é suspeito de pelo menos um ataque contra um comércio chinês cometido em 2012, no qual morreu um chinês.

O dono do restaurante de Bisqueque disse que a comunidade chinesa ficou “extremamente atemorizada” no último verão boreal pela morte de Guan Joon Chan, dono de uma rede de lojas de óculos para sol na cidade. Segundo vários informes da imprensa local, Guan foi encontrado inconsciente pelos golpes recebidos na última hora do dia 24 de julho. Morreu em seguida no hospital.

Citando fontes anônimas, o Vechernii Bishkek, publicado em russo, informou, no dia 30 de julho, que Guan havia pago com regularidade à polícia local em troca de proteção, e que o golpe ocorreu pouco depois de discordar com um chefe de polícia a respeito dessa quantia. Atualmente, dois homens são julgados em conexão com a morte de Guan. Um é um alto funcionário do Departamento de Polícia do distrito de Sverdlosvsk. O outro é um ex-membro das forças policiais especiais. Envolverde/IPS

* Chris Rickleton é jornalista, radicado em Bisqueque. Este artigo foi publicado originariamente na EurasiaNet.org.