Política Pública

Um ano de energia limpa na Costa Rica

Por Diego Arguedas Ortiz, da IPS – 

São José, Costa Rica, 20/1/2017 – Na vertente caribenha da Costa Rica, 100 quilômetros a nordeste da capital do país, a cinza silhueta de uma grande barragem corta o rio Reventazón e forma a represa que alimenta a maior usina hidrelétrica da América Central. O Projeto Hidrelétrico Reventazón, que custou US$ 1,4 bilhão e entrou em operação em setembro de 2016, representa, com sua capacidade instalada de 305,5 megawatts, o novo padrão de uma meta da qual se orgulham as autoridades do setor e do país: eletricidade verde para todos.

A maior usina da América Central, o Projeto Hidrelétrico Reventazón, com capacidade de 305,5 megawatts, contribuiu, desde sua inauguração, em setembro, para que em 2016 a Costa Rica ficasse 250 dias sem queimar hidrocarbonos para gerar eletricidade. Foto: Diego Arguedas Ortiz/IPS

 

Embora tenha diminuído em 49 dias em relação ao ano anterior, em 2016 a Costa Rica registrou 250 dias sem queimar hidrocarbonos para gerar eletricidade, valendo-se para isso dessa grande central e de outras represas, usinas geotérmicas e uma crescente flotilha eólica. Porém, há setores não muito claros na meta para que esse país de 4,7 milhões de pessoas seja majoritariamente verde.

“Duzentos dias de eletricidade limpa nos mostram bem que temos muito a resolver a respeito”, afirmou à IPS o engenheiro costarriquenho, José Daniel Lara. O especialista dispara perguntas a título de reflexão, inclusive para si mesmo: quais serão as fontes de energia do futuro? O país empregará biomassa, sol, gás natural local ou petróleo importado? Como vamos consumir essa energia nos domicílios e para nos mover?

Graças precisamente ao transporte, três quartos do consumo de energia provêm de derivados de petróleo, que o país tem que importar em sua totalidade. Mas, pelas ruas e estradas do país, circulam quase 1,5 milhão de veículos. Tampouco é perfeita a matriz elétrica: a instalação solar chega a apenas 1% do total geral, e há uma dependência quase total do comportamento dos rios e das chuvas

Apesar disso, o marco costarriquenho não é pouca coisa, reconhece Lara. Menos de um quarto da eletricidade do planeta procede de fontes renováveis, mas, na Costa Rica, esse índice, há dois anos seguidos, está acima dos 98%. Entretanto, nem sempre o verde foi o argumento atraente que é agora nesse país de 51.100 quilômetros quadrados.

Participação mundial das fontes renováveis na geração de eletricidade no final de 2015. Foto: REN21 2015

 

Na segunda metade do século 20, a Costa Rica compreendeu que tinha um enorme recurso hídrico e apostou na geração hidrelétrica como um assunto de segurança energética, amparado na direção de uma grande empresa estatal, o Instituto Costarriquenho de Eletricidade (ICE). Assim, o sistema do país está dominado por meia centena de centrais hidrelétricas, entre públicas e privadas, que fornecem 70% da geração e têm por desvantagem exigir longas linhas de transmissão para levar a energia elétrica às cidades.

Em 2016, a Costa Rica gerou 10.778 gigawatts/hora (GWh), segundo dados preliminares do ICE. Cursando doutorado na Universidade da Califórnia-Berkeley, nos Estados Unidos, Lara estuda como podem ser integradas novas e melhores práticas de energia renovável em redes elétricas, e aponta que a Costa Rica mudou pouco o seu modelo nas últimas décadas. “O fizemos muito bem no passado, e ainda estamos obtendo vantagens nessa história, mas não sabemos o que acontecerá no futuro”, pontuou.

O desafio que a Costa Rica enfrenta é manter sua liderança em geração elétrica, buscar novas fontes e modelos de consumo, e estender o manto verde para o transporte, explicou o engenheiro. Embora a hídrica domine, não é a única fonte limpa presente. A primeira usina eólica da América Latina foi construída em solo costarriquenho e novas plantas, a maioria em mãos de operadores privados que vendem sua energia ao ICE, elevam a participação dessa fonte para 10% da geração interna total.

Por sua vez, a geotérmica há décadas fornece entre 10% e 15% da produção elétrica. Mas a falta de novos poços de vapor quente para instalar usinas geotérmicas e com represas na maioria dos rios “viáveis” para a geração, novas opções para gerar eletricidade são urgentes. O próprio presidente, Luis Guillermo Solís, destacou a necessidade de se diversificar a matriz elétrica do país durante sua visita aos Emirados Árabes Unidos, nos dias 16 e 17 deste mês, para participar como orador principal do Encontro Mundial de Energia do Futuro.

“Procuramos diversificar a matriz e incluir mais usinas geotérmicas, solares, eólicas e de biomassa, para, se perdermos água no futuro, ser possível manejar da melhor forma”, declarou ao jornal emiratense The National. Uma dependência maior de usinas de combustíveis fósseis parece fora da equação, já que a Costa Rica instaurou uma moratória para a exploração petroleira até 2021. Uma alternativa pode vir do setor agrícola, que historicamente teve papel dominante na economia local e agora poderia dar uma ajuda à matriz energética.

O engenheiro Esteban Bermúdez há anos estuda as opções para gerar eletricidade a partir de resíduos de propriedades produtoras de abacaxi. Ele disse à IPS estar convencido de que os resíduos dessa indústria podem seguir o caminho do bagaço da cana, que atualmente é o insumo para gerar eletricidade em duas usinas em engenhos de açúcar.

Entretanto, tanto como as fontes do futuro, os especialistas consultados se intrigam com o outro lado da moeda: as práticas dos consumidores de energia no futuro. “O problema é que só pensamos na oferta e deixamos a demanda de lado”, destacou Bermúdez, sócio da empresa Escoia, dedicada à assessoria na área da energia, e consultor no campo. Para ele, esse é um tema que exige espaços para novos atores que possam revitalizar o campo.

Bermúdez dá como exemplo o boom de empresas privadas dedicadas a instalar painéis solares, que se valeram de uma “regulamentação-piloto” que o ICE desenhou para estudar o impacto da geração distribuída no país. Esse modelo de geração distribuída tenta vencer as distâncias entre as usinas geradoras e os consumidores ao juntá-los: fábricas que coloquem pequenas turbinas eólicas ou residências que instalem painéis solares para aquecer água ou alimentar os eletrodomésticos.

Precisamente esses atores erguem agora a voz para exigir que o Estado abra espaço no modelo elétrico, onde o ICE ainda é o grande protagonista. “Não muitas vezes são os consumidores que causam alvoroço”, indicou Bermúdez. O engenheiro afirma que durante anos o ICE planejou seus investimentos futuros projetando aumento anual de 5% a 6% na demanda elétrica, e assim justificou o estabelecimento de centrais hidrelétricas, mas, nos últimos anos, o aumento da demanda foi de 3%.

Um elemento para a demanda de eletricidade será o futuro do transporte. Vários projetos de lei, para reduzir o consumo de hidrocarbonos por parte do parque automotivo, navegam as águas da Assembleia Legislativa costarriquenha, incluindo um que proibiria importar veículos que utilizem derivados de petróleo, a partir de 2030. Este tem apoio de 27 dos 57 deputados. Dados da Refinadora Costarriquenha de Petróleo indicam que o país importou 20,2 milhões de barris em 2016, dos quais cerca de 80% foram destinados ao transporte. Envolverde/IPS