Luta contra desertificação segue rota da seda

Por Baher Kamal, da IPS – 

Bonn, Alemanha e Roma, Itália, 28/11/2016 – A seca é um problema complexo que causa mais mortes e maior deslocamento de pessoas do que qualquer outro desastre natural. Suas consequências socioeconômicas e ambientais são severas e de grande alcance, alertou Louise Baker, coordenadora da unidade de relações externas e política da Convenção das Nações Unidas para a Luta Contra a Desertificação (UNCCD), em entrevista à IPS.

“A desertificação e a degradação da terra causam pobreza e fome, pode derivar em enormes danos ambientais e escassez de recursos naturais, o que, às vezes, termina em conflitos, e, por certo, dificulta o desenvolvimento sustentável”, afirmou Baker. Há 24 tipos de serviços de ecossistemas no mundo, 15 dos quais em processo de deterioração, acrescentou. Isso fez com que a China e a UNCCD lançassem, no dia 17 de junho, por ocasião do Dia Mundial da Luta Contra a Desertificação, a Iniciativa de Ação Conjunta do Cinturão e da Rota da Seda.

Louise Baker, coordenadora da unidade de relações externas e política da Convenção das Nações Unidas para a Luta Contra a Desertificação. Foto: Cortesia da entrevistada

Louise Baker, coordenadora da unidade de relações externas e política da Convenção das Nações Unidas para a Luta Contra a Desertificação. Foto: Cortesia da entrevistada

 

A região contemplada corresponde ao Cinturão Econômico da Rota da Seda, lançado pela China em 2013, junto com a Rota Marítima da Seda do Século 21, duas iniciativas conhecidas como Um Cinturão e Uma Rota, que se estende da China até o Golfo, passando pelo Mar Mediterrâneo e atravessando a Ásia central até a Europa, de onde se conecta com a África.

Para exemplificar o estresse que a desertificação causa, bem como os problemas sociais, econômicos e políticos, Baker citou o caso do Uzbequistão, onde 73,6% dos mais de 28 milhões de habitantes vivem em zonas afetadas pela seca. Nesse contexto, diminuiu a disponibilidade de água entre 35% e 40% abaixo da média, foram perdidos de 42% a 75% das colheitas, os ecossistemas de mangues sofreram degradação e 80% dos lagos secaram.

Além disso, aumenta o risco de salinização. O Irã costuma sofrer casos episódicos de secas e tem problemas com as tempestades de areia e pó, o que custou ao país US$ 1,25 bilhão em 1991, e US$ 7,5 bilhões em 2001. “As secas se tornarão mais frequentes, severas e generalizadas devido à mudança climática”, pontuou Baker.

A Iniciativa de Ação Conjunta do Cinturão e da Rota é uma forma de melhorar a gestão da terra, mitigar os efeitos da seca e promover o crescimento econômico verde. Segundo Baker, “isso deveria incentivar um desenvolvimento econômico e social mais igualitário”. “A Iniciativa inclui os 23 países localizados na Roda da Seda. A visão de longo prazo é proteger racionalmente os recursos naturais e seu uso, bem como promover o desenvolvimento de uma economia verde nas zonas afetadas pela desertificação e pela degradação do solo”, acrescentou.

Esses países trabalharão juntos para conseguir o 15º dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), de “promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, lutar contra a desertificação, deter e inverter a degradação das terras e frear a perda da diversidade biológica”, em especial a meta que propõe, entre outras coisas, “conseguir um mundo com degradação neutra do solo” até 2030.

“A degradação neutra do solo significa manter um equilíbrio entre a terra produtiva e saudável que cada país dispõe, mediante uma gestão sustentável de cada hectare produtivo e de reabilitar uma quantidade semelhante de terras já degradadas”, explicou Baker. O marco de ação que a Iniciativa propõe tem a meta de, primeiro, administrar o ecossistema de forma integral, para que as plantas e os animais não sejam prejudicados pela degradação do solo e sejam capazes de se adaptar à mudança climática.

Em segundo lugar, desenvolver uma economia verde sustentável baseada em recursos locais, por exemplo, mediante práticas agrícolas tradicionais e promovendo a energia solar e eólica. Em terceiro, proteger a importante infraestrutura natural e a construída por humanos por meio de uma gestão sustentável da água, do solo, de rios e bacias lacustres.

Quarto, atuar diante da seca mediante alertas, preparação, mitigação e melhoramento das capacidades de resposta de emergência, controlar as tempestades de areia e pó em sua origem e as mudanças das dunas. Por último, todos os locais que são patrimônio mundial e estão localizados no Cinturão e na Rota da Seda se beneficiarão de medidas para fortalecer a conservação, a proteção e a recuperação dos ecossistemas de seu entorno.

Baker explicou que “cada país desenvolverá suas próprias atividades, estimará os custos de impulsionar indústrias sociais e verdes no Cinturão e contribuir para a iniciativa de acordo com suas possibilidades. A Administração Estatal de Florestas da China coordenará e concentrará os dados das atividades”. Apesar de sua rica história, muitos países da Ásia central e do Oriente Médio não têm saída para o mar e ficam vulneráveis à seca e à desertificação, entre outros problemas.

“A China tirou milhões de pessoas da pobreza mediante enorme esforço de recuperação de terras”, destacou Monique Barbut, secretária executiva da UNCCD. “A recuperação da meseta de Loes e uma maciça iniciativa para plantar árvores são duas conhecidas propostas de grande alcance concentradas em ecossistemas degradados”, acrescentou.

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Pequim também criou um plano nacional para combater a desertificação e prevenir as tempestades de areia e pó no norte do país, o que também beneficiou outros países, como Coreia do Sul e Estados Unidos, afetados pelo fenômeno. Além disso, a China adota medidas para melhorar a irrigação e o uso do solo nas zonas áridas e semiáridas, onde introduz variedades de plantas tolerantes à seca. E os camponeses e agricultores conseguem empréstimos sem juros para fomentar novas práticas. Também recebem compensações para limitar o tamanho de seu rebanho para evitar o pastoreio excessivo.

Segundo Baker, “Pequim também desenvolve novas tecnologias para contribuir com a redução do consumo de água e o uso de água residual, e criou o Fundo Verde da Rota da Seda para promover a recuperação das terras degradadas”. Além disso, as populações rurais se beneficiarão dos investimentos do setor privado, incentivados pela iniciativa.

“Em 2012, estimou-se que dois bilhões de hectares sofriam degradação no mundo, dos quais 500 milhões eram terras cultiváveis, atualmente abandonadas, mas que poderiam ser recuperadas rapidamente e de forma rentável, o que é muito melhor do que degradar entre quatro e seis milhões  de hectares por ano de terras férteis para cobrir a demanda mundial de alimentos até 2050”, apontou a funcionária da UNCCD.

Aproximadamente 20% do território da China chinês tem problemas com a seca e a desertificação. Esse país “recuperou uma média de 2.424 quilômetros quadrados (cerca de 240 mil hectares) de terras por ano, que ficaram desertas e se degradaram nos últimos dez anos, isto é, um total de aproximadamente 2,5 milhões de hectares. E podem ser recuperados outros milhões, o que seria uma significativa contribuição para os esforços globais”, ressaltou Baker.

Graças ao intercâmbio de conhecimento promovido pela Iniciativa de Ação Conjunta do Cinturão e da Rota, Pequim ajuda outros países afetados por esse problema. “Creio que o sucesso da iniciativa impulsionará outros países a recuperarem suas terras. E, sem dúvida, aumentará a resiliência das populações locais”, enfatizou Baker.

Roda da Seda

A importância histórica da Rota da Seda vem dos vínculos criados através dela entre quatro civilizações antigas, Mesopotâmia, Egito, China e Índia com Grécia e Roma, ao fortalecer o comércio e o intercâmbio cultural. Para complementar a visão de Um Cinturão e Uma Rota, a iniciativa de ação conjunta se concentra na “civilização ecológica” da Rota, observou Baker. Envolverde/IPS

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