TERAMÉRICA – Argentinos versus Monsanto

Menino participa da marcha que seguiu da praça central de Malvinas Argentinas até o prédio bloqueado onde a Monsanto tenta construir uma unidade. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Menino participa da marcha que seguiu da praça central de Malvinas Argentinas até o prédio bloqueado onde a Monsanto tenta construir uma unidade. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Malvinas Argentinas, Argentina, 2 de dezembro de 2013 (Terramérica).- Havia uma vez donas de casa, comerciantes e funcionários municipais de um tranquilo povoado no centro da Argentina. Até que chegou a Monsanto, a corporação norte-americana de biotecnologia. Inventora do herbicida glifosato e uma das principais fabricantes de sementes geneticamente modificadas do mundo, a Monsanto constrói uma de suas “maiores” unidades para acondicionar sementes de milho em Malvinas Argentinas, município de 15 mil habitantes que fica 17 quilômetros a leste da capital da província de Córdoba.

A unidade começaria a funcionar e março de 2014, mas a obra foi paralisada em outubro em meio a protestos e demandas judiciais dos moradores, que desde 18 de setembro mantêm bloqueado o acesso ao recinto. No dia 30 de novembro de manhã, a guarda de infantaria chegou ao lugar, como mostra vídeo publicado no Facebook, e escoltou a saída de vários caminhões que haviam entrado à força no dia 28, quando membros do sindicato da construção irromperam no acampamento de moradores tentando vencer o bloqueio, o que deixou mais de 20 feridos.

Os moradores não gostam de serem definidos como ambientalistas nem que lhes atribuam bandeiras partidárias. Na maioria são mulheres. Em Malvinas Argentinas todos conhecem alguém com problemas respiratórios ou alergias que coincidem com fumigações sobre os campos de Córdoba, uma das maiores produtoras de soja transgênica deste país. As denúncias de médicos também citam casos crescentes de câncer e malformações congênitas. Porém, tudo era suportado com estoicismo até que chegou a Monsanto.

“Participo por medo da doença e da morte”, explicou ao Terramérica María Torres. “Meu filho já está doente e se vier a Monsanto será pior”, acrescentou enquanto caminhava em meio a uma manifestação que esta jornalista acompanhou em meados de novembro. Seu filho, de 13 anos, ficou em casa com sinusite e hemorragia nasal. “Malvinas é um povoado com muita gente com os mesmos sintomas”, lamentou.

A maioria das fumigações é feita com Roundup, marca comercial do glifosato produzido pela Monsanto. Segundo a Rede Universitária de Meio Ambiente e Saúde – Médicos de Povoados Fumigados, a fumigação atinge quase 22 milhões de hectares plantados com soja, milho e outros cultivos transgênicos em 12 províncias argentinas em cujos povoados vivem cerca de 12 milhões de pessoas. Eli Leiria também participa do protesto. Ela sofre problemas como perda de peso. Os médicos encontraram glifosato em seu sangue. “Dizem que é como se um tornado tivesse passado pelo meu corpo”, contou.

O biólogo Raúl Montenegro, da Universidade Nacional de Córdoba e premiado em 2004 com o Right Livelihood Award (Prêmio Nobel Alternativo), disse ao Terramérica que não há monitoramentos oficiais de morbidade e mortalidade para comprovar se as crescentes enfermidades observadas pelos médicos são efeito dos praguicidas. Tampouco existe controle adequado da presença de praguicidas no sangue, e nem um monitoramento ambiental que detecte esses resíduos em caixas de água, por exemplo, acrescentou Montenegro, presidente da Fundação para a Defesa do Meio Ambiente.

Essas circunstâncias convertem a Argentina, e, “ao seu modo, também o Brasil”, em “paraíso” para empresas como a Monsanto, afirmou Montenegro. As entidades do Estado que autorizam o uso de praguicidas se apoiam “em sua maior parte em aspectos técnicos fornecidos pelas próprias empresas”, acrescentou.

A presidente da Argentina, Cristina Fernández, criou em 2009 a Comissão Nacional de Investigação sobre Agroquímicos, para investigar, prevenir e tratar seus efeitos na saúde humana e ambiental. Mas o país também é um “paraíso” dos transgênicos, cuja autorização depende de “informação técnica fornecida principalmente pelas corporações biotecnológicas”, ressaltou Montenegro.

Uma unidade produtora de transgênico “não é uma fábrica de pão… fabrica veneno”, disse o professor Matías Marizza, da Assembleia Malvinas Luta pela Vida. Montenegro questiona o fato de a Secretaria de Meio Ambiente de Córdoba autorizar a construção sem ter contemplado a análise de uma comissão interdisciplinar independente. O processo dos transgênicos envolve “praguicidas externos”, como os que são fumigados, e praguicidas que “saem de dentro” das sementes, como a proteína a inseticida CrylIAb produzida pelo próprio milho MON 810, explicou o biólogo.

Cada grão desse milho tem entre 190 e 390 nanogramas desse componente, cujos impactos na saúde e na biodiversidade não estão claros. “No Canadá foram registradas mulheres grávidas e não grávidas que tinham proteína inseticida no sangue”, destacou Montenegro, o que contradiz a explicação da Monsanto: que essas proteínas são anuladas no aparelho digestivo.

Segundo um documento da Rede Universitária, as sementes da unidade de Malvinas Argentinas serão impregnadas de substâncias como propoxur, deltametrina, pirimfos, tryfloxistrobin, ipconazole, metalaxyl e, sobretudo, clotianidina, um inseticida proibido na União Europeia. Até agora, as instalações estão bloqueadas por cinco acampamentos, onde homens e mulheres – algumas com seus filhos – se alternam para impedir a entrada de caminhões.

Daniela Pérez, mãe de cinco filhos, contou ao Terramérica que este “era um povoado tranquilo”, onde as pessoas se queixavam apenas de problemas como falta de pavimentação. “Agora, o que está em jogo é a saúde das crianças. Nos dá uma impotência, não há ninguém que nos defenda”, afirmou.

Soledade Escobar tem quatro filhos que vão a uma escola localizada perto da plantação da unidade da Monsanto. “Me preocupam os silos e os produtos químicos que usam. Com a mudança de clima em Córdoba temos vento o ano todo e o colégio está ao lado, eu moro em frente”, afirmou. “Não é certo o que dizem a televisão e os jornais de que há partidos políticos entre nós… a maioria é de mães que têm medo por seus filhos”, acrescentou Beba Figueroa.

Elas asseguram que muitos moradores não participam por medo de perder seus empregos municipais e ajudas sociais. A manifestação que o Terramérica acompanhou desde a praça do povo até o acampamento tinha clima festivo, ao ritmo de refrões do carnaval rioplatense, muito diferente da tensão e da violência que aconteceriam dias depois. Como outros moradores deste bairro operário, Matías Mansilla, sua mulher e seu bebê saem à porta de uma casa humilde para ver “o carnaval pela vida”. Mansilla não participa, mas apoia a causa “pelas doenças que há em outros cantos”.

Uma pesquisa feita por duas universidades e pelo Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas revelou que 87% dos entrevistados do povoado querem uma consulta popular para decidir e 58% rechaçam a unidade da Monsanto. Nem o governo da província nem a empresa responderam ao pedido de entrevista do Terramérica.

Em vários textos publicados em seu portal, a Monsanto se diz comprometida com a “agricultura sustentável”. Um comunicado divulgado em setembro afirma que a obra conta com as “aprovações correspondentes” do Conselho Deliberante de Malvinas Argentinas, e que o Estudo de Impacto Ambiental está em análise no governo provincial. A Monsanto repudiou as “campanhas sujas que manipulam a informação técnica para criar medo” e “as mentiras, em nome do ambientalismo, que mascaram interesses espúrios”.

Em abril, o Tribunal Superior de Justiça provincial desqualificou um pedido de medida cautelar apresentado pelos moradores para suspender a obra. E nos dois últimos meses a repressão policial não faltou, e tampouco as ameaças. Malvinas Argentinas é parte de um movimento que cresce em diferentes lugares do mundo contra a Monsanto. Nesse povoado os protestos chegaram a reunir oito mil pessoas, segundo Marizza. Não é para menos, afirmou: “Temos o monstro em cima”. (Envolverde/Terramérica)

* A autora é correspondente da IPS. Publicado pela rede latino-americana de jornais Terramérica. 

Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

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